• Nayara Reynaud

ESPECIAL GRAMMY 2021 | Global até a página 2

Atualizado: Abr 10



Dos quatro grandes prêmios das artes nos Estados Unidos, o Oscar para o mundo do cinema, o Emmy para a televisão – e, atualmente, também o streaming –, o Tony para o teatro e o Grammy para a música, este último, em termos de quantidade, é aquele que mais permitiu a indicação de artistas estrangeiros, mesmo aqueles não baseados em solo norte-americano. É certo que isso vem mais do número de categorias que possibilitaram isso. Além da “internacional” World Music, agora chamada Global Music, que já premiou nomes brasileiros como Gilberto Gil, Milton Nascimento, Sergio Mendes, Caetano Veloso e João Gilberto – este, o único a conseguir o prêmio principal de Álbum do Ano em 1965 com Getz/Gilberto (1964), parceria com o saxofonista norte-americano Stan Getz – e a cabo-verdiana Cesária Évora, para citar apenas os falantes de língua portuguesa, os comitês de música latina, jazz, reggae, new age e música clássica colaboram com uma lista mais diversificada quanto às nacionalidades – nem é o caso de entrar aqui no mérito das pertinentes discussões sobre gênero e raça que a The Recording Academy ainda evolui a passos lentos no primeiro quesito e tropeça no segundo.


Mesmo assim, isso fica restrito às disputas mais periféricas da premiação, hoje em dia, relegadas ao pré-show do evento, sendo as indicações de Despacito, grande hit dos porto-riquenhos Luis Fonsi e Daddy Yankee, nas categorias gerais do Grammy de 2018 uma exceção à regra que se observa. A Academia de Gravação anunciou, em novembro passado, a alteração de nome da categoria de Melhor Álbum de Global Music, por considerar este um termo mais moderno e inclusivo, já que etnomusicólogos e linguistas apontavam a conotação colonialista, folclórica e “não norte-americana” que World Music carregava. No entanto, diferente da modificação de nomenclatura ocorrida no Oscar de 2020, no qual o Melhor Filme Estrangeiro se transformou em Filme Internacional, que foi acompanhada de uma ampliação no número e demografia de votantes, o que o consequentemente gerou uma mudança de pensamento – até vista antes, na edição de 2019, com a valorização do longa mexicano Roma (2018) e seus três Oscars – que resultou na vitória do sul-coreano Parasita (2019) na categoria principal, a mesma movimentação não ocorreu de modo significativo no prêmio musical neste ano.


Em Melhor Performance de Grupo ou Duo Pop, Dynamite, primeiro single em inglês do grupo sul-coreano BTS, conseguiu uma inédita, porém, solitária, indicação para o k-pop na premiação, enquanto a parceria entre o colombiano J Balvin, a inglesa Dua Lipa e os porto-riquenhos Bad Bunny e Tainy em UN DIA (ONE DAY) é uma das poucas representações de música latina fora das categorias dedicadas ao gênero, tal qual a presença da DJ e produtora venezuelana Arca que disputa a Melhor Álbum Dance ou Eletrônico com KiCk i (2020). Os concorrentes a Melhor Álbum de Global Music, a artista brasileira Bebel Gilberto com Agora (2020), a banda tuaregue, do norte do Mali, Tinariwen com Amadjar (2019), o grupo norte-americano de afrobeat Antibalas com Fu Chronicles (2020), a sitarista e compositora britânica de origem indiana Anoushka Shankar com Love Letters (2020) e o cantor nigeriano Burna Boy com Twice as Tall (2020), contudo, não conseguiram ultrapassar esta barreira e serem agraciados por outro comitê de seleção. Algo mais sensível no último caso, pois a estrela nigeriana do afrobeats, também chamado de afro-fusion, foi indicado pela segunda vez neste campo e, apesar do sucesso cada vez maior nas paradas norte-americanas, não foi lembrado em outra categoria.


Além da cantora e compositora Bebel Gilberto, o Brasil também foi lembrado na lista do Grammy 2021 através do trabalho do músico Chico Pinheiro em City of Dreams (2020), que concorre a Melhor Álbum de Jazz Latino. Nomes portugueses também disputam a famosa estatueta de gramofone, com a cantora Maria Mendes, jazzista do Porto, repete a indicação em Melhor Arranjo para Instrumentos e Vocais do último GRAMMY Latino para Asas Fechadas, faixa em que colabora com o pianista norte-americano John Beasley e a Metropole Orkest, e o RAC, projeto do DJ e produtor André Allen Anjos que já ganhou um Grammy de Melhor Gravação Remixada em 2016, concorre novamente com seu remix de Do You Ever, canção de Phil Good, cantor da cidade de Portland, nos EUA, onde o também portuense se estabeleceu. A seguir, o NERVOS destaca os trabalhos dos dois artistas brasileiros, além de Everyday Life (2019), disco da banda britânica Coldplay que foi indicado a Álbum do Ano – e também à Melhor Arte de Álbum / Capa – tendo como diferencial esse passeio sonoro em influências musicais de várias lugares do mundo.

Filha de ninguém menos do que o cantor e compositor João Gilberto e da cantora Miúcha, a bossa nova está indubitavelmente no DNA de Bebel Gilberto. O gênero do qual seu pai foi criador e a mãe foi uma das grandes intérpretes ganhou um ar mais contemporâneo com a artista ao longo de sua carreira, a exemplo da influência do trip hop e do drum and bass na sua gravação da canção de Vinicius de Moraes, Samba da Benção, no disco Tanto Tempo (2020) – no último caso, apontando a tendência do drum and bossa que atingiria seu ápice nos primeiros anos daquela década. Nascida em Nova York e tendo crescido no Rio de Janeiro, a artista sempre transitou entre os Estados Unidos e o Brasil, não só alternando a sua residência entre os dois países, mas também na fusão musical que traz para a sua arte, dando um ar jazzístico a sua MPB.


Isso ajuda à cantora e compositora ser mais reconhecida internacionalmente, até mesmo do que entre o público brasileiro. Bebel já recebeu três indicações ao Grammy na antiga categoria de Melhor Álbum de World Music Contemporânea, por Bebel Gilberto (2004), Momento (2007) e All In One (de 2009, mas concorreu na edição de 2010). Com seu mais recente disco, Agora, que tem a produção de Thomas Bartlett, que já trabalhou com Sufjan Stevens, foi indicada pela quarta vez, embora tenha difícil concorrência para conquistar o prêmio entre os álbuns de Global Music.


Trazendo uma sonoridade mais antiga nas escolhas de mixagem e masterização, a obra ainda carrega uma contemporaneidade a um gênero tão associado ao passado da música brasileira, como aponta a mescla de pop tradicional e atual na faixa inicial Tão Bom, seguida pela mistura de MPB e jazz da canção-título Agora e de inglês e português em Cliché, igualmente vista depois em Yet Another Love Song. Ela também canta em espanhol em Bolero, na qual imprime uma modernização do ritmo hispânico-americano, enquanto flerta com o samba em Na Cara, single que conta com a participação de Mart’nália, e na seguinte Deixa, em que torna a cadência ébria no seu canto sussurrado. Contudo, é especialmente com Essence, O Que Não Foi Dito e o encerramento Teletransportador, que a artista retoma uma nostalgia noventista ao mergulhar de cabeça no trip hop, além de outras influências do downtempo e música ambiente, e fazer do ritmo um veículo para certa melancolia e sensualidade que invadem suas letras românticas.


Particularmente, O Que Não Foi Dito tem a cara de uma música-tema do 007, um clima que a artista declaradamente buscou neste trabalho, como afirmou em entrevista à Gabriela Sarmento no G1, quando também declarou a sua influência do pop mais dark de Billie Eilish. O resultado final é um álbum que até dialoga mais com o público norte-americano e novas plateias ao mesmo tempo em que se afasta dos antigos fãs dela, espalhados por várias partes do mundo, que veem em Bebel Gilberto uma vitrine da música brasileira para exportação há décadas.

Agora (2020)

Artista: Bebel Gilberto

Duração: 39:35 (11 faixas)

Gravadora: [PIAS] Recordings

Disponível em vários sites [confira aqui] e plataformas digitais


Em mais um desses casos de artistas brasileiros cuja música é mais apreciada no mercado internacional do que em seu país natal, o violonista e guitarrista Chico Pinheiro novamente é reconhecido no exterior, com sua segunda indicação seguida ao Grammy de Melhor Álbum de Jazz Latino. Na edição anterior do prêmio, o músico concorreu na mesma categoria com Sorte! Music by John Finbury (2019), parceria entre o compositor norte-americano John Finbury e a cantora brasileira Thalma de Freitas, que contou com a colaboração compatriota do pianista Vitor Gonçalves, do percussionista Rogerio Boccato e do baterista Duduka Da Fonseca. Agora, ele disputa por um projeto solo, City of Dreams, seu oitavo álbum, que teve as participações do pianista Tiago Costa, do baixista Bruno Migotto e do baterista Edu Ribeiro.


O disco autoral nas composições e arranjos até mostra a influência norte-americana sobre a obra do paulistano, que estudou na Berklee College of Music, em Boston, e atualmente mora em Nova York. Em especial, quando o saxofone de Chris Potter pronuncia uma conversa maior com o jazz em Long Story Short. Entretanto, assim como a faixa-título City of Dreams abre o trabalho prenunciando um clima jazzístico para depois beber mais de fontes genuinamente brasileiras, o restante do álbum se revela da mesma maneira, com forte influência nacional ainda que falando para um público estrangeiro. É possível perceber isso na vertente sambista de Encantado, que também tem a presença do saxofonista de Chicago, e de Vila Madalena, música em que o samba se encontra com a Vanguarda Paulista e a bossa nova, referências ouvidas antes na abertura e em outros momentos, tal qual a representativa Estrada Real, composição que carrega a herança da cena paulista e viaja pela rota mineira do Clube da Esquina e avança até além ao encontrar o samba de roda do Recôncavo Baiano.

City of Dreams (2020)

Artista: Chico Pinheiro

Duração: 48:31 (11 faixas)

Gravadora: Buriti Records / Inpartmaint

Disponível em vários sites e plataformas digitais


É possível dizer que, especialmente no mundo do rock, existem certas bandas que, a despeito do grande sucesso com o público geral, são alvo de uma implicância generalizada por fãs do gênero e influenciadores da área, às vezes, mais por modismo do que por um sentimento ou observação fundamentada. Coldplay poderia ser um exemplo disso, pois, antes mesmo dos ingleses enveredarem para o questionável caminho de um pop genérico na fase pós-Viva la Vida or Death and All His Friends (2008), eram comuns críticas ao quarteto formado por Chris Martin, Guy Berryman, Jonny Buckland e Will Champion, que sempre fez um rock alternativo mais acessível.


Fato é que as pessoas que já implicavam sem razão e aqueles que, tendo motivos, abandonaram a banda no meio dessa trilha tortuosa nos últimos anos, provavelmente, se surpreenderam com a inesperada indicação de Everyday Life, o oitavo disco de estúdio dos britânicos, a Álbum do Ano no Grammy 2021. Contudo, quem se prestou a escutá-lo encontrou na obra lançada em novembro de 2019 o trabalho mais consistente e interessante do quarteto desde o citado Viva La Vida..., que, finalmente, encontrou um sucessor natural do rock experimental, com influências musicais de vários locais do mundo, daquela produção de Brian Eno, que venceu o Grammy de Melhor Álbum Rock em 2009. Produzida por Daniel Green, Bill Rahko e Rik Simpson, a recente obra retoma essa tendência largada pelo quarteto, por mais de uma década, e a amplifica, o que explica muito a chegada da obra na lista de indicados.


Isso porque Everyday Life conversa com grupos de votantes da Academia que, há tempos, dificilmente veem álbuns dos seus gêneros ou, ao menos, influenciados por eles figurarem na disputa da categoria principal. Além de ter diversos elementos de global music, há um flerte com a música clássica, gospel e até new age, junto de outros gêneros que aparecem aqui e ali, que podem ter agradado os mais diferentes comitês de seleção e votação do Grammy, que já premiou o grupo sete vezes e lhe concedeu 30 indicações, contando a deste ano. Outro fator importante é como a mensagem de congregação humana que ecoa na obra em que a banda abraça cada vez mais o lado U2 deles neste sentido, seja em letras políticas mais elaboradas ou versos mais diretos ou simplistas em chavões, tenha encontrado um apelo maior em um momento como o atual.


O álbum duplo tem a primeira parte denominada “Sunrise”, mesmo nome da faixa de abertura totalmente instrumental, e, já na segunda música, chamada Church, evoca não só a imagem de uma igreja ou qualquer templo com a inclusão de mantras e cânticos religiosos na produção que traz a música ambiente e o trip hop dos anos 1990, mas a ideia do amor, particularmente o ser amado, como um lugar de cura. Trouble in Town resgata o rock político da época de A Rush of Blood to the Head (2002), vencedor do Grammy de Melhor Álbum de Música Alternativa em 2003, ao abordar a violência policial, sendo seguida por uma trinca mais calma e bem diversificada: BrokEn carrega a força de um hino gospel tradicional, dando lugar à balada Daddy, quase uma canção de ninar sobre ausência paterna, para vir WOTW / POTP, que soa como uma demo de surf music. O tom intimista dá lugar aos sons urbanos que abrem Arabesque, uma mistura de desert blues e jazz com letras em inglês e francês, enquanto When I Need a Friend, remetendo ao canto sacro, ao estilo gregoriano, encerra com uma fala em espanhol.


Depois do nascer vem o pôr do Sol na segunda parte, chamada “Sunset”, que inicia com o pé na porta da crítica à cultura armamentista de Guns, regado à americana e folk rock, enquanto a mesma feita sobre a guerra na seguinte Orphans se disfarce mais no pop mais próximo aos dos últimos trabalhos da banda que o maior single do disco ainda carrega. Novamente, há um momento de calmaria e viagem no miolo, com os sons mediterrâneos da balada sobre a África de Èkó, a influência do jazz e soul dos anos 1940 e 1950 trazida pela colaboração do também indicado Jacob Collier – cujo álbum concorrente Djesse Vol.3 (2020) se beneficia entre os votantes do Grammy por razões semelhantes ao modernizar gêneros tradicionais que não mais encontram espaço nas categorias principais – em Cry Cry Cry, o folk da recordação de uma velha amizade em Old Friends e a participação da pianista Alice Coltrane em بنی آدم, faixa que empresta o nome “Bani Adam”, ou “Filhos de Adão” em persa, de um poema do poeta iraniano Saadi Shirazi e emprega uma Torre de Babel reversa na composição sobre a compaixão e união da humanidade. O pop rock de Champion of the World retorna a uma zona de conforto, apesar de falar da dificuldade de se encaixar e sentir-se aceito em sociedade, mas a canção-título Everyday Life finaliza sintetizando melhor os eixos melódicos, líricos e conceituais da congregação musical proposta nesta obra de uma banda que já rodou tanto o mundo quanto Coldplay.

Everyday Life (2019)

Artista: Coldplay

Duração: 53:35 (CD e vinil) / 52:55 (digital) [16 faixas]

Gravadora: Parlophone / Warner Music

Disponível em vários sites e plataformas digitais [confira aqui]



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