• Nayara Reynaud

RETROSPECTIVA MUSICAL 2020 | A volta da disco em épocas de isolamento social

Atualizado: Mai 20


Foto de uma pista de patinação e dança (roller skating disco) | Créditos: Pharaoh_EZYPT (Pixabay)

Foto de uma pista de patinação e dança (roller skating disco) | Créditos: Pharaoh_EZYPT (Pixabay)



Até a pessoa menos ligada no pop internacional, mas que ouve os hits de 2020 tocando por aí, já deve ter percebido que este foi um ano em que a música disco voltou com tudo às paradas de sucesso. A bem da verdade, o estilo, vez ou outra, dava as caras em revivals pontuais ao longo das décadas subsequentes ao seu auge, no final dos anos 1970. A diferença desta vez é que, em vez de um punhado de singles e um álbum isolado inspirados no ritmo que esquentava as pistas de dança, há um maior número e impacto diretamente no grande público de discos e músicas que mergulharam nesta onda retrô, em uma tendência que já podia ser observada nos últimos anos, porém, se intensificou neste momento pandêmico.


Antes de entrar nas motivações para isso e relembrar os trabalhos de Dua Lipa, Lady Gaga, Jessie Ware, Kylie Minogue, Doja Cat, BTS e tantos outros que contribuíram para esse retorno da disco music em 2020, é preciso fazer uma rápida retrospectiva sobre a trajetória do gênero – seja seguindo aqui no texto ou ouvindo nossa playlist Disco Stays Alive (1970s-2020s), disponível na Deezer e Spotify, que remonta a linha do tempo do estilo musical. Sua origem, obviamente, está nos clubes de dança, particularmente voltados para as comunidades afro-americanas, latinas e gays em locais como a Filadélfia e Nova York, durante o final da década de 1960 e início dos anos 70. Por isso, que o soul da Filadélfia, o Philly Soul, tem papel importante na construção musical deste ritmo, tanto quanto o funk, o soul psicodélico e o som da Motown que estava em alta naquela época, dos quais alguns sucessos guardam elementos precursores do movimento que viria.


É difícil precisar qual é a música inicial da disco. Há até quem considere Theme from Shaft, música-tema de Isaac Hayes para o longa-metragem policial Shaft (1971), uma delas, mas é entre 1972 e 1973 que surgem, na Filadélfia, as primeiras demonstrações de que um novo ritmo se formava em trabalhos produzidos pela dupla Gamble and Huff, além de algumas manifestações fora dos Estados Unidos, até Love's Theme – aquela da abertura da novela Celebridade (2003-04) –, de Barry White junto da Love Unlimited Orchestra, Rock the Boat – canção que provoca uma coreografia tradicional em aniversários e casamentos irlandeses, como pode ser visto na segunda temporada de Derry Girls (2018-) –, do trio The Hues Corporation, serem os primeiros hits do gênero a alcançarem o número #1 da parada musical da revista Billboard. Contudo, foi entre 1977, mesmo ano de lançamento do emblemático filme Os Embalos de Sábado à Noite / Saturday Night Fever, e 1979 que a disco music se tornou pop, virando uma febre mundial, com grandes êxitos na Europa e também na América Latina, incluindo o Brasil, que teve até uma telenovela que registrava o movimento, a icônica Dancin’ Days (1978-79), bem como sua trilha sonora com as rainhas nacionais do estilo, As Frenéticas e Lady Zu.


Cena do filme Os Embalos de Sábado à Noite (Saturday Night Fever, 1977)


O sucesso estrondoso gerou uma reação contra, desde críticas ao seu excesso de produção e escapismo das canções – embora muitas letras tristes e profundas, mesmo que não-políticas, possam ser encontradas em meio ao ritmo empolgante, como comprova a cena final do chileno Gloria (2013) e seu remake hollywoodiano Gloria Bell (2018) –, uma movimentação da indústria da música que enfrentava uma crise e reformulações no período que transformaram o ritmo em seu bode expiatório até certo preconceito com a cultura popular, ainda mais no caso de uma arte associada aos negros e à comunidade LGBT em um momento no qual os EUA se dirigiam ao conservadorismo da era Ronald Reagan. O resultado foi o seu declínio, embora a sua influência tenha marcado os anos 1980 com a post-disco presente tanto em bandas de funk e soul quanto no pop oitentista, a exemplo de Madonna em seu início de carreira, retornando depois ao tema no ótimo Confessions on a Dance Floor (2005). Outras divas pop, assim como artistas de french house, mais notadamente o duo eletrônico Daft Punk, também ajudaram no revival da disco entre final dos anos 1990 e início dos 2000 e no retorno pontual surgida em 2013, capitaneada pelo álbum vencedor do Grammy, Random Access Memories (2013), em que a dupla francesa contou com colaborações de ícones do gênero, como o produtor italiano Giorgio Moroder e o guitarrista norte-americano e Nile Rodgers, co-fundador da banda Chic, enquanto a nu-disco permanecia viva no cenário indie ao longo desta década e a franquia Mamma Mia trazia de volta a nostalgia das canções do ABBA ao grande público.


No ano passado, quando o produtor inglês Mark Ronson, com um trabalho sempre ligado a soul funk, lançou o álbum Late Night Feelings (2019), com uma releitura moderna e mais sentimental da disco music ao lado de vários nomes femininos, sua aposta poderia ser mais uma das tentativas isoladas de retorno deste estilo vistas desde então. Mas ao final de 2019, os primeiros singles dos vindouros projetos das britânicas Dua Lipa e Jessie Ware, Don’t Start Now e Spotlight, respectivamente, indicavam que se tratava do início de uma onda que estaria por vir. Bastou 2020 começar para Say So, faixa presente no segundo disco da cantora e rapper norte-americana Doja Cat, Hot Pink (2019), chegar às rádios e paradas musicais com todo o seu groove.


Se logo a trajetória do ano foi marcada pela pandemia de Covid-19, gerando a necessidade do distanciamento social para conter a doença, o lançamento do segundo álbum da cantora Dua Lipa, Future Nostalgia (2020, capa na imagem do parágrafo acima), em 27 de março, foi abraçado pelo público consumidor de música pop como um afago naquele início da quarentena. Com um conceito retrofuturista e uma sonoridade bem oitentista, mas também com elementos da dance music noventista e a disco setentista, mistura que justamente marca a nu-disco, o trabalho foi visto como um amadurecimento da artista inglesa que já caminhava pelo dance-pop e emplacou diversos hits, além de indicações ao próximo GRAMMY Awards, a ser realizado agora em janeiro de 2021, em que também está indicado Chromatica (2020, capa na imagem acima), último trabalho de Lady Gaga. Lançado em 29 de maio, o disco da diva norte-americana também mergulha em um imaginário futurista, mais especificamente cyberpunk, mas retorna sonoramente aos anos 90, à música eletrônica da época, mas principalmente no revival que o pop daquela década fez da disco, a exemplo de Cher em Believe (1998).


Na lista de indicados da premiação, ainda se encontram a citada canção de Doja Cat e o grande sucesso do BTS, Dynamite, primeiro single em inglês dos sul-coreanos que conseguiu alcançar o topo da parada norte-americana, destacando uma tendência já observada em outros grupos de k-pop para o flerte com a disco. Aliás, aqui no Brasil, também é possível ver tímidas apostas no ritmo, seja com Bend the Knee, gravação do DJ paulista Bruno Martini com vocais da cantora carioca IZA e do produtor norte-americano Timbaland, ou Tocar Seu Corpo, faixa do dançante “disco de setembro” do incansável músico baiano Luiz Caldas, Paleta de Cores (2020). Outros exemplos de canções que resgataram o ritmo foram Dance, de Toni Brexton; The Other Side, parceria de SZA e Justin Timberlake para a trilha sonora de Trolls 2 (2020); Experience, de Victoria Monét e Khalid, e Feed the Fire, de Lucky Daye, ambas produzidas pelo inglês SG Lewis, que prepara seu álbum de estreia claramente neste caminho; Voodoo?, da banda francesa de disco-pop L'Imperatrice; e até a nova mixagem lançada pelo Simply Red para Tonight.



Contudo, os trabalhos mais maduros neste sentido foram os recentes álbuns de Kylie Minogue e Jessie Ware. No primeiro caso, a australiana sempre esteve próxima ao gênero, com a versão disco que fez para The Loco-Motion no início de sua carreira, em 1988, retornando a essa influência em Fever (2001) e Aphrodite (2010), até ter a chance de mergulhar de vez agora em DISCO (2020, capa na imagem do parágrafo acima), 15º álbum de estúdio da artista, lançado em 6 de novembro, cujo título é auto-explicativo para um projeto que revela a propriedade de Minogue quando se fala em disco revival. No segundo, a inglesa propõe, de fato, uma viagem ao passado com a sonoridade retrô de What’s Your Pleasure? (2020, capa na imagem acima), seu quarto álbum que rememora tanto aquela sensualidade e elegância de divas disco como Donna Summer, Diana Ross e Anita Ward, com toques do soul de Minnie Riperton especialmente na faixa final Remember Where You Are, além de acenar para a cena underground do estilo e, consequentemente em seus herdeiros atuais.


Neste ponto, aliás, talvez se encontre uma das razões mais longínquas para esse ressurgimento da disco music: em um momento em que discursos combatentes à homofobia e ao racismo se tornam mais fortes, diametralmente aos ataques mais públicos às minorias, relembrar o gênero surgido dentro dessas comunidades minoritárias e alçado ao sucesso mundial mira nesse timing, tendo até certo peso político, mesmo que inconsciente, por artistas que nem pertencem a elas. É claro que esse revival tem sempre o fator da nostalgia envolvido, uma das moedas de troca mais rentáveis da cultura pop contemporânea, mas este ano trouxe outros ingredientes que incrementaram essa receita de sucesso, sendo inegável que a pandemia ajudou nesse fenômeno.


Fora tendências já observadas nos últimos anos, como o crescimento do rap, da música latina e do k-pop a nível global, um dos destaques de 2020 foi o aumento de interesse contrastantes do público nesta quarentena: de um lado, a tranquilidade e concentração na hora do trabalho em casa trazidas por músicas lo-fi, como o bedroom pop e outras dos mais variados estilos; do outro, os ritmos dançantes, como a própria disco ou a pisadinha, subgênero do forró que alcançou popularidade fora do seu nicho habitual aqui no Brasil. Curiosamente, são dois gêneros musicais que pedem, respectivamente, para as pessoas dançarem em grupo ou coladinhas uma na outra, algo impossível com o distanciamento social – na realidade, é possível, mas condenável em uma hora de calamidade da saúde pública. Freud, talvez, explique essa procura por ambos os gêneros como uma necessidade para matar as saudades de algo que não podemos vivenciar neste período, mas é certo que o escapismo da disco, mesmo quando as lágrimas são jorradas liricamente em uma pista de dança, foi um antídoto para um ano que, não apenas por culpa da pandemia, exigiu muito do equilíbrio emocional de todos.



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