• Nayara Reynaud

MAMMA MIA! LÁ VAMOS NÓS DE NOVO | Lado A, Lado B, Lado B, Lado A

Atualizado: Jul 3


Dez anos atrás, quando Mamma Mia! O Filme (2008) estreava nos cinemas ao som de I Have a Dream na voz de Amanda Seyfried, talvez só nos sonhos mais profundos dos produtores e da distribuidora se imaginasse tamanho sucesso da adaptação do musical homônimo com músicas do ABBA, que também foi um fenômeno inesperado ao chegar aos palcos londrinos de West End, em 1999, e, dois anos depois aos nova-iorquinos da Broadway. Embora esse seja sempre um dos objetivos – se não, o mais importante para estas partes envolvidas em uma produção –, os mais de US$ 600 arrecadados em todo mundo, que o colocam como o segundo filme musical de maior bilheteria mundial, atrás só do novo A Bela e a Fera (2017), foram além das expectativas. O que é ainda mais inimaginável pensando nos seus atributos contrastantes.

Com toda a equipe da montagem original por trás da adaptação, a diretora teatral Phyllida Lloyd trouxe todo o exagero que os palcos exigem para as câmeras do que era o seu primeiro trabalho no cinema – ela viria depois a fazer A Dama de Ferro (2011). Com sua direção escrachada e sem medo de ser brega, Mamma Mia! exibia um chroma bem artificial da pousada da protagonista Donna na fictícia ilha grega de Kalokairi e quase fazia a plateia pedir S.O.S. ouvindo Pierce Brosnan cantar, enquanto tinha no repertório as infalíveis canções do grupo sueco de pop e disco music para render o público e Meryl Streep para dizer que “você pode dançar, você pode se esbaldar e aproveitar o momento de sua vida”, em um grande número de libertação feminina em um pequeno vilarejo insular. Um guilty pleasure – prazer culpado, na tradução direta – para alguns cinéfilos que não querem admitir que gostam do filme quanto o público geral, que sempre o vê ou revê nas reprises na TV por assinatura, por exemplo, a obra é aquele kitsch que vira cult.

Como Money, Money, Money é o que rege Hollywood, a bem-sucedida coprodução anglo-americana ganha, exatamente uma década depois, uma continuação, aguardada, mas com seus devidos receios pelos fãs do primeiro. Se já pelo título, Mamma Mia! Lá Vamos Nós de Novo (2018), há o medo de se ver mais do mesmo, o trailer ainda deixava mais dúvidas com a provável ausência de Streep enfraquecendo a história. Sim, logo se esclarece que a trama – aparentemente, passada após cinco anos dos acontecimentos do anterior, mas a linha temporal sempre foi estranha e insignificante na franquia – tem como mote narrativo e emocional justamente a morte de Donna, mas, ao contrário do que se poderia imaginar, a saída de sua grande estrela – Meryl ainda faz uma breve e especialíssima participação – dá um novo fôlego à sequência, que mantém a maternidade como a essência destes filmes.

Com argumento de Richard Curtis – das clássicas comédias românticas inglesas Simplesmente Amor (2003) e Quatro Casamentos e um Funeral (1994) –, do diretor Ol Parker e de Catherine Johnson, responsável pelos textos cinematográfico do longa de 2008 e teatral do musical original, o roteiro assinado pelo próprio Parker – roteirista de O Exótico Hotel Marigold (2011) e sua continuação de 2015 – une passado e presente, novidade e nostalgia na gênese de sua estrutura. Os dois primeiros atos trazem um frescor ao recontar o passado de Donna em 1979, com Lily James encarnando a jovem protagonista em busca de novas experiências ao rodar o mundo e cruzando seu caminho com os três possíveis pais de sua Sophie (Seyfried), pincelado por momentos em que Sophie comanda os preparativos para a reinauguração da pousada para honrar a memória da mãe; e o último condensa o fervor do Mamma Mia!, com as caras já conhecidas e novos personagens se reencontrando em Kalokairi.

Filmando na Croácia, que agora faz as vezes da Grécia, e usando locações inglesas para recriar Paris, a nova direção se aproveita da ambientação da época, construindo esta contextualização de forma menos caricata do que se imaginava nas rápidas caracterizações dos atores principais no primeiro, assim como todo o trabalho mais consistente e um pouco mais contido de Ol neste segundo filme, para que os números musicais e as canções em si tenham mais sentido dentro das liberdades que o gênero permite. O diário em que Sophie descobre sua origem incerta reaparece, mas a ordem dos encontros e outros detalhes citados anteriormente lá e pelos personagens são alterados, mas os ajustes são bem-vindos nesta nova narrativa – a única falta sentida de Parker é o fato de não explorar e, de certa maneira, esquecer a homossexualidade de Harry (Colin Firth), ainda mais tendo o cineasta como primeiro longa o simpático romance lésbico Imagine Eu & Você (2005).

Surge primeiro Hugh Skinner emulando muito bem os trejeitos de Firth como Harry em Paris, Josh Dylan como o jovem aventureiro Bill, já em um veleiro tal qual Stellan Skarsgård antes, e Jeremy Irvine – que já havia trabalhado com o diretor em Agora e Para Sempre (2012) – na pele do apaixonado e complicado Sam vivido por Brosnan, porém, nenhum dos amores da protagonista é bem desenvolvido pelo roteiro. Completando as Dínamos em seus dias de glória e sempre bela amizade, Alexa Davies faz uma Rosie no mesmo tom cômico, só que menos exagerado que antes, de Julie Waters, enquanto Jessica Keenan Wynn, vinda de musicais, consegue realmente encarnar o jeito peculiar de Christine Baranski como Tanya. Lily James, por sua vez, não busca imitar Meryl Streep, mas captar o espírito jovial de Donna, tendo como “armas” um carisma surpreendente para segurar mais da metade do filme e seus talentos vocais, já demonstrados rapidamente em Cinderella (2015) e Em Ritmo de Fuga (2017). Por fim, aparece de modo arrebatador ninguém menos do que Cher fazendo a relutante avó de Sophie, a também diva Ruby, cantando Fernando, um dos hits não executados em Mamma Mia! e que ganham o seu momento aqui.

Aliás, o próprio repertório de canções acompanha a atmosfera criada pela narrativa de Lá Vamos Nós de Novo, mesclando a impressão de um musical inédito para grande parte do público com faixas que não foram necessariamente singles e são mais conhecidas por grandes fãs dos suecos, a exemplo do primeiro número com When I Kissed The Teacher e a, aqui ainda mais emocionante My Love, My Life, com alguns clássicos para satisfazer toda a plateia, com novas versões de I Have a Dream, Super Trouper, Dancing Queen e, claro Mamma Mia. Neste pot-pourri do lado A e lado B do ABBA, músicas apresentadas anteriormente são apenas lembradas na trilha incidental, como Chiquitita quando um barco com o mesmo nome aparece logo no início, enquanto outras recebem seu devido destaque. Depois de tocar nos créditos do primeiro, Seyfried volta a cantar Thank You For The Music na abertura do segundo; número excluído antes, The Name of the Game aparece nesta playlist; e de cena pós-crédito, Waterloo, música com a qual a banda ganhou o famoso concurso continental Eurovisão (Eurovision) em 1974 e foi catapultada para o sucesso mundial, embala um surto musical em um restaurante francês, com direito a estátua de Napoleão. Uma prova que o espírito irreverente da franquia permanece ainda que o tempo o tenha amadurecido.

Mamma Mia! Lá Vamos Nós de Novo (Mamma Mia! Here We Go Again, 2018)

Duração: 114 min | Classificação: 10 anos

Direção: Ol Parker

Roteiro: Ol Parker, com argumento de Richard Curtis, Ol Parker e Catherine Johnson, baseado no musical “Mamma Mia!” de Catherine Johnson, com a ideia original de Judy Craymer

Elenco: Lily James, Amanda Seyfried, Alexa Davies, Jessica Keenan Wynn, Julie Walters, Christine Baranski, Andy Garcia, Dominic Cooper, Jeremy Irvine, Pierce Brosnan, Hugh Skinner, Colin Firth, Josh Dylan, Stellan Skarsgård, Cher, Meryl Streep, Maria Vacratsis, Panos Mouzourakis, Omid Djalili, Celia Imrie, Jonathan Goldsmith, Gerard Monaco e Anna Antoniades (veja + no IMDb)

Distribuição: Universal Pictures

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