• Nayara Reynaud

MOST DANGEROUS GAME e FLIPPED | Um curto, interessante, mas difícil 1º capítulo para o Quibi


Fotos demonstrativas do aplicativo do Quibi, especialmente em sua função de rodar vídeos na vertical | Foto: Divulgação (Quibi)

O lançamento de uma plataforma de streaming ou a chegada de alguma famosa no exterior, há muito aguardada no país, têm sido o tipo de notícia mais comum na área do entretenimento neste ano de 2020. É claro que cada uma possui suas peculiaridades quanto ao conteúdo produzido e público-alvo, mas quase todas apresentam um modelo de serviço parecido, com poucas novidades. Fora a recente implementação de canais de terceiros ou da própria rede dentro do Amazon Prime Video e do Globoplay, a proposta mais diferente no setor – e, à princípio, curiosa – veio do Quibi, um aplicativo de produções de curta duração, com episódios diários que não passam de 10 minutos, no qual o vídeo pode ser assistido tanto na horizontal quanto na vertical em seu celular.


O conceito sintetizado no nome é fornecer “quick bites” – em inglês, “pequenas mordidas” – de conteúdo para seus clientes aproveitarem as brechas de uma agitada rotina, seja no trajeto para casa, trabalho ou estudo no transporte público ou o tempo em uma sala de espera, por exemplo. A ideia poderia até ser interessante, mas veio na pior hora possível para se concretizar, já que o lançamento do serviço ocorreu no último dia 6 de abril, em plena pandemia de Covid-19. Se a quarentena ajudou a aumentar o consumo de streaming, a demanda do público é justamente por mais conteúdo, seja em quantidade e extensão, sendo este o requisito que pesa para o novato.


Soma-se a isso a restrição imposta por sua própria concepção: idealizado para o celular, o aplicativo não está disponível para outros dispositivos como smart TVs e computadores, além de ser incompatível com modelos de smartphones não tão antigos assim. Algo que reduz o alcance de possíveis consumidores em qualquer momento, ainda mais em um período que as pessoas estavam/estão mais em casa. No entanto, o timing ruim não é o único culpado dos números abaixo das expectativas para o aplicativo, pois, em um mercado de streaming já com sinais de saturação, o público, talvez, não esteja disposto a pagar mais uma assinatura, do mesmo valor da concorrência nos Estados Unidos (US$ 4,99 pelo pacote com anúncios e US$ 7,99 sem anúncios) e bem mais cara no Brasil (R$ 32,90, sendo que não há legendas em português nos vídeos e a plataforma está apenas em inglês), por tal tipo de conteúdo.


Por isso, os dois Emmys e as outras oito indicações conquistadas nesta edição de 2020 surgem como uma tábua de salvação para a empresa, torcendo que o prestígio da premiação seja uma forma de divulgação. Se as categorias dedicadas às produções de formatos curtos surgiram apenas em 2011, para abarcar as webséries derivadas que as emissoras disponibilizavam em seus sites como extras dos shows regulares – exemplo da Melhor Série de Drama ou Comédia de Curta Duração deste ano Better Call Saul Employee Training: Legal Ethics With Kim Wexler (2020) e das concorrentes Star Trek: Short Treks (2018-) e The Good Place Presents: The Selection (2019) – e vídeos de canais independentes da internet, atrações de grandes redes pensadas diretamente para esta metragem surgiram bem recentemente, o que tornou o Quibi, consequentemente, um forte candidato nesta disputa específica com sua combinação de histórias “originais” e grandes estrelas.


O drama policial #FreeRayshawn (2020), produzido por ‎Antoine Fuqua e cujo piloto de seis minutos é bem enérgico, instigante e atual, mostrou a força do seu elenco com Jasmine Cephas Jones e Laurence Fishburne ganhando, respectivamente, como Melhor Atriz e Ator em produções do gênero, além de ter Stephan James indicado. O Emmy também agraciou a retomada do mocumentário Reno 911! (2003-), com duas indicações, a série cômica Dummy (2020) e a dramática Survive (2020), com uma cada; além do thriller de ação Most Dangerous Game (2020), duplamente indicado, e da comédia Flipped (2020) que são destaque logo abaixo.

Most Dangerous Game


Liam Hemsworth correndo em Detroit em cena da série de ação Most Dangerous Game (2020-) | Foto: Divulgação (Quibi)

Uma das grandes apostas do Quibi para causar uma boa primeira impressão em seu lançamento, Most Dangerous Game conta com um time de peso na frente e por trás das câmeras para atrair os fãs de ação. A atração é protagonizada por Liam Hemsworth, cada vez mais assumindo as vezes de astro do gênero, e Christoph Waltz, ganhador do Oscar que está indicado ao Emmy como Melhor Ator em Série de Drama ou Comédia de Curta Duração por este trabalho que, apesar de se assemelhar a outros papéis de sua carreira, se destaca. Feito obtido igualmente pela própria produção que tem Nick Santora, o criador de Scorpion (2014-18) e roteirista de Prison Break (2005-17), como showrunner e Phil Abraham, que comandou episódios de vários títulos como Demolidor (2015-18), Jack Ryan (2018-) e Família Soprano (1999-2007), na direção de toda a temporada.


A história, porém, não é estranha ao público, como já entrega o título. O conto de Richard Connell, O Jogo Mais Perigoso (1924), já foi adaptado em um filme homônimo de 1932 e já inspirou outra dezena, a exemplo do recente A Caçada (2020) e desta série – e o fato da obra literária ter entrado em domínio público neste ano pode render ainda mais reproduções. Aqui, o conceito de uma caçada humana sai do cenário original de uma ilha para a paisagem urbana ao acompanhar Dodge Maynard (Liam Hemsworth) correndo pelas ruas de Detroit para sobreviver às 24 horas de um jogo mortal em que ele é o alvo de cinco caçadores desconhecidos. O roteiro de Santora, Scott Elder e Josh Harmon soma vários dramas pessoais para justificar o porquê deste ex-atleta endividado até o pescoço, com a esposa grávida (Sarah Gadon) e diagnosticado com um câncer terminal aceitar a proposta indecente, mas milionária do falso filantropo Miles Sellars (Christoph Waltz) para participar disso, a fim de garantir um futuro que parece impossível para a sua família.


Apesar dos velhos clichês do gênero, eles são bem engendrados para atrair o público ao longo de 15 episódios que vão de seis a nove minutos. Se o piloto parece apenas um daqueles teasers com uma longa sequência inédita com gancho para atrair o espectador, a partir do segundo, a narrativa ganha de fato um ritmo episódico na apresentação do protagonista até o quarto e na caçada depois. Na realidade, a ação em si, no combate corpo a corpo já que não são permitidas armas de fogo nesta “brincadeira”, só começa no sétimo, o que pode ser frustrante para alguns, ainda mais pensando em como foi a estrutura de lançamento do Quibi, com três capítulos iniciais e os seguintes saindo um a um, a cada dia útil.


Contudo, os embates e plot twists entregues ao longo da temporada são bem condensados a partir de então no que facilmente se parece um filme em capítulos. Tanto que uma versão cinematográfica do material já está em vista, tal qual aconteceu com State Of The Union (2019), a comédia que venceu o Emmy do ano passado no formato de curtas, mas chegou ao Brasil em forma de longa-metragem, chamado de Estado da União no catálogo do Telecine Play. Santora confirmou tanto esse desejo de uma nova montagem, facilitada pelo fato do Quibi deixar os direitos das obras com os criadores, quanto uma segunda temporada, provavelmente com um novo “corredor” em Nova York.


O mais interessante nesta primeira temporada, porém, está na escolha da sua ambientação em Detroit, a metrópole que representa o declínio daquele Sonho Americano do século passado, desde que o berço da indústria automobilística dos Estados Unidos perdeu sua importância, enfrentou um grande êxodo da sua população e foi duramente atingida pela crise econômica de 2008, declarando falência em 2013. A região até mostrava sinais esperançosos de recuperação nos últimos anos, mas estes se esvaíram em poucos dias com a chegada da pandemia colapsando a frágil economia local. Dodge, que tem o nome de uma das mais icônicas marcas automobilísticas, originária justamente do estado de Michigan, é o retrato dessa realidade norte-americana quando, mesmo sendo a epítome do que seria um jovem bem-sucedido no país por causa de suas vitórias no esporte universitário, vê o seu sonho não sair do papel e entrar em uma derrocada financeira ao não conseguir terminar a construção de um moderno prédio no qual investiu todo o seu dinheiro e de outras pessoas; quando vai à antiga fábrica do pai, também um edifício abandonado de um polo industrial decadente; quando sua doença expõe a dificuldade de pagar pelo seu próprio tratamento sem um sistema de saúde que lhe dá apoio; ou quando, por estar esfarrapado e machucado, as pessoas o confundem com os moradores de rua e dependentes químicos que “enfeiam a cidade”, diz um dos vendedores. A caça pode não ser tão sangrenta, mas é diária e, pelo jeito, tão dura quanto nesse lugar.

Most Dangerous Game (Most Dangerous Game, 2020-)

Série de curta duração ficcional | 15 episódios, de 6 a 22 de abril de 2020

Plataforma: Quibi (streaming)

Criação e roteiro: Nick Santora, Scott Elder e Josh Harmon, baseado no conto “O Jogo Mais Perigoso” de Richard Connell

Direção: Phil Abraham

Elenco: Liam Hemsworth, Sarah Gadon, Christoph Waltz, Zach Cherry, Chris Webster, Billy Burke, Aaron Poole, Jimmy Akingbola, Natasha Liu Bordizzo, Patrick Garrow, Al Sapienza, Devon Bostick e Taylor Love (veja + no IMDb)


Flipped


Arturo Castro, Kaitlin Olson e Will Forte em cena da série de comédia Flipped (2020) | Foto: Divulgação (Quibi)

Entre as comédias do serviço, um destaque é Flipped com sua mistura inusitada de decoração e cartel nesta ligeira série dirigida por Ryan Case, vencedora de um Emmy pela direção do piloto de Modern Family (2009-20). A produção em parceria com o Funny or Die traz o casal Jann (Will Forte) e Cricket Melfi (Kaitlin Olson) em meio a uma crise profissional, quando ao perderem seus respectivos empregos por serem incompreendidos por suas visões artísticas, decidem investir no interesse mútuo de ambos por programas de casa e decoração e participarem de um concurso para escolher as novas estrelas do HRTV, em uma clara sátira ao HGTV e ao gênero como um todo que é irresistível para quem assiste essas atrações. Tanto que Chip e Joanna Gaines são, declaradamente pela atriz principal, uma inspiração para a dupla ficcional que, diferente dos apresentadores do sucesso Do Velho ao Novo (Fixer Upper, 2013-), têm um estilo peculiar e extravagante que os põe em uma espiral de confusões.


Ao decidirem renovar um rancho abandonado no deserto para gravar seu vídeo de inscrição, o casal encontra uma fortuna escondida na parede, que os mesmos usam para fazer uma suntuosa reforma no imóvel que coloca os dois na mira do cartel mexicano. O rumo do roteiro do estreante Damon Jones e de Steve Mallory, de A Chefa (2016), acaba levando a essa constante representação esteotipada de personagens latinos, em particular, mexicanos, sempre envolvidos com o tráfico de drogas – a questão não é negar um problema endêmico do México e outros países como o nosso, mas resumir a existência de toda uma nação sempre a isso, ainda mais com o histórico hollywoodiano de décadas caracterizando seus vizinhos como bandidos. Contudo, há uma tentativa do texto e, especialmente, dos atores em burlar estes estereótipos, na construção que Arturo Castro faz do excelente Diego e também Andy Garcia como o poderoso chefão aqui.


Falando em elenco, são as performances de Kaitlin Olson, indicada ao Emmy por sua impagável Cricket, e de Will Forte, como seu parceiro de grandes sonhos e pouca noção, que garantem as risadas de uma produção que, paradoxalmente, se beneficia e é esvaziada pelo seu formato. Embora Flipped claramente saiba usar a narrativa episódica, tendo menos jeito de filme em capítulos do que a citada Most Dangerous Game, é visível que o material renderia uma comédia de meia hora explorando mais algumas situações somente pontuadas nessas pílulas. Séries procedurais, com seus casos diários neste caso, talvez pudessem se encaixar mais à proposta do Quibi, ou falta só aquela história com ritmo folhetinesco para engajar o público; mas, independente do sucesso ou não da plataforma, há um potencial nos curtas que poderia ser mais explorado pela indústria.

Flipped (Flipped, 2020)

Série de curta duração ficcional | 11 episódios, de 6 a 16 de abril de 2020

Plataforma: Quibi (streaming)

Roteiro: Damon Jones e Steve Mallory

Direção: Ryan Case

Elenco: Will Forte, Kaitlin Olson, Arturo Castro, Andy Garcia, Eva Longoria, Luis Moncada, Ramon Camacho, Rebecca Romijn e Jerry O'Connell (veja + no IMDb)



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