• Nayara Reynaud

ANDAIMES | As estruturas não tão invisíveis


Asher Lax em cena do filme israelense Andaimes (Pigumin, 2017), de Matan Yair | Foto: Divulgação (Imovision)

De seu título, o filme israelense Andaimes (Pigumin, 2017) retira um norte para, além de algumas analogias mais óbvias, guiar sua estrutura nos mais diferentes níveis narrativos. Alguns deles não são tão aparentes para o público brasileiro que volta a ter a chance de conferir o primeiro longa de Matan Yair, pois, após passar pela seleção ACID do Festival de Cannes e por Toronto, foi exibido na Mostra Internacional de Cinema em São Paulo em 2017, mas só agora é lançado no país, através da plataforma de streaming Reserva Imovision. Um exemplo são as camadas de hibridismo presentes na história, baseada na experiência do próprio cineasta com o ator principal.


Do seu trabalho como professor de ensino médio, o realizador tirou o personagem para seu début, convidando o seu ex-aluno Asher Lax para interpretar o protagonista, inspirado nas próprias vivências escolares e familiares do rapaz. Algo, aliás, que Yair tem mantido em seus projetos seguintes, como o filme autobiográfico em que também estrela, Bagrut (2019), e a série sobre um docente que dá aulas particulares One on One (2020-). Da mesma forma, o jovem, que até então não atuava profissionalmente, gostou da função ao encarnar o estudante de mesmo nome e já participou do mais recente longa de Amos Gitaï, por exemplo.


Voltando à narrativa híbrida deste coming of age, aparentemente, ela segue dois caminhos conhecidos e se sobrepõem de maneira simultânea: a difícil e, por vezes, contraditória relação entre pai e filho junto da ligação entre professor e aluno, enquanto Asher, aos 17 anos – o ator filmou com 22 – se encontra em um momento decisivo de sua vida. De um lado, Milo (Yaacov Cohen) insiste em garantir o futuro do filho lhe instruindo para passar o comando de sua pequena empresa de andaimes, com uma preocupação extremamente realista de que seu rebento pode facilmente se desencaminhar e seguir seus passos errados do passado, mas também restritiva em seu pensamento tacanho sobre os estudos. Do outro, Rami (Ami Smolartchik) é um professor de literatura de uma abordagem mais reflexiva e menos acadêmica com a classe, que acaba e aproximando do irritadiço, como o mesmo define, e impulsivo estudante.


A sua turma, aliás, é aquela de alunos relegados cuja dificuldade de aprendizado de cada um nunca é investigada se é motivada por algum problema cognitivo ou de saúde ou se apenas as condições socio-familiares causam isto. Por isso, o título da produção em inglês, Scaffolding, remete não somente ao aspecto da construção, mas também ao termo educacional sobre as técnicas e ferramentas utilizadas por um docente para auxiliar estudantes em estágios iniciais de aprendizagem, entendendo, como Rami, que eles podem compreender o conteúdo, ainda que não consigam expressá-lo com toda a correção exigida pela Academia. Contudo, essa imagem estrutural dos andaimes está, igualmente, presente no contexto, mesmo que não tão explícito, de um filme raro no cinema israelense, que, dificilmente, mostra as classes mais baixas da sociedade judaica, geralmente relegando este papel apenas aos palestinos e imigrantes, sem abordar a distinção que os judeus mizrahim, de famílias originárias de outros países do Oriente Médio, e alguns sefarditas, de núcleos vindos da península Ibérica, sofrem frente à elite asquenaze, de clãs provenientes da Europa Central e Oriental.


Não há descrição destes pormenores, mas a realidade sempre bate à porta da sala de aula e do cotidiano do protagonista, com a dificuldade de “escalar mais alto” pairando sobre ele, que não deseja se tornar escritor ou um acadêmico, somente quer completar seus estudos e, talvez, pensar sozinho um futuro para si. Ela também não é deixada de lado pelo roteiro de Yair que não se rende à simples história de superação ou rebeldia aos seus genitores, pois a vida é mais complexa e ambígua que isso, e, em determinado momento da trama, surpreende o rapaz e ao público ausentando uma destas figuras de referência para o jovem. A obra, por sua vez, não consegue prosseguir em alguns pontos abordados, porém, como uma narrativa que, tal qual a fotografia do polonês Bartosz Bieniek, está colada em Asher, é compreensível que ela também esteja presa em certas limitações, sejam elas intencionais ou não do cineasta.

Andaimes (Pigumin, 2017)

Duração: 90 min | Classificação: 14 anos

Direção: Matan Yair

Roteiro: Matan Yair

Elenco: Asher Lax, Ami Smolartchik, Yaacov Cohen, Keren Berger, Dina Limon, Hagit Dasberg e Naama Manor (veja + no IMDb)

Plataforma: Reserva Imovision, a partir de 16 de setembro de 2021



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