• Nayara Reynaud

A VERY BRADY RENOVATION | Nostalgia da realidade imaginária

Atualizado: Set 15



Desde que o Emmy, a mais tradicional premiação da televisão norte-americana, teve de se render ao fenômeno que os reality shows se tornaram na virada do século XXI e criaram a primeira categoria específica para o gênero em 2001, os programas de casa e decoração poucas vezes conseguiram seu espaço entre os indicados do mais célebre prêmio do Primetime Emmys, às vezes, sendo relegados apenas para o Daytime Emmy que abarca as atrações matinais e vespertinas da programação televisiva no país. Olhando para o HGTV, o canal por assinatura mais famoso do ramo nos Estados Unidos, que só chegou no ano passado ao Brasil e tem boa parte das suas produções originais exibidas aqui no Discovery Home & Health, que faz parte da mesma rede, a emissora conseguiu apenas quatro indicações até então na categoria de Melhor Reality Show Estruturado – ou seja, roteirizado ao ponto de apresentar uma estrutura recorrente no formato e narrativa de seus episódios. Seu famoso Irmãos à Obra (Property Brothers, 2011-) foi lembrado em 2015, o hit Do Velho ao Novo (Fixer Upper, 2013-) concorreu dois anos seguidos em 2017 e 2018, e, agora, é a vez de sua grande aposta A Very Brady Renovation (2019) estar indicada nesta edição 2020, que já foi premiada como melhor Programa de Lifestyle (Casa / Jardinagem) no último Critics Choice Real TV.


Ainda inédita na TV brasileira, a atração é uma superprodução do canal, não só pelos valores e esforços envolvidos em sua realização, mas igualmente pela renovação que traz aos formatos deste segmento, ainda que faça uso de um velho expediente da cultura norte-americana e utilizado de forma ostensiva por Hollywood atualmente: a nostalgia.


Antes de chegar nesta parte, é preciso lembrar que programas de construção, reforma decoração, paisagismo e mercado imobiliário, seja do HGTV ou em geral, se diferenciam mais pelos seus apresentadores/profissionais que dão uma personalidade própria a cada um, as cidades ou regiões em que trabalham, suas especialidades ou cômodos a que se dedicam do que pelas estruturas narrativas em si. O que não é um problema para seu público-alvo em expansão, vide o crescimento de audiência durante a pandemia de canais segmentados em uma televisão por assinatura em crise também nos EUA, como explicam melhor este artigo de Michael Schneider e Kate Aurthur na Variety e a entrevista com a executiva de marcas de lifestyle do Discovery, Kathleen Finch, para o The Hollywood Reporter. Ainda assim, desde o ano passado, o canal começou a se arriscar em alguns projetos um pouco diferentes; ou melhor, mais conectados com as tendências gerais do entretenimento, como aproveitar o potencial atrativo das “estrelas da casa” em uma competição como a de Mulheres à Obra (Rock the Block, 2019-) ou dos astros hollywoodianos no benevolente Te Devo Essa! Reforma das Estrelas (Celebrity IOU, 2020), ambos exibidos aqui no Home & Health.


A Very Brady Renovation utiliza da mesma estratégia ao reunir consolidados e novos nomes do time de apresentadores do HGTV: os “Irmãos à Obra” Drew e Jonathan Scott se juntam à Karen Laine e Mina Starsiak, mãe e filha de Reforma em Família com Karen e Mina (Good Bones, 2016-); Jasmine Roth, de Reforma Personalizada com Jasmine Roth (Hidden Potential, 2017-); Leanne e Steve Ford, de Reforma dos Sonhos com os Irmãos Ford (Restored by the Fords, 2016-); e Lara Spencer, de Desafio da Renovação (Flea Market Flip, 2012-), sendo este último o único a integrar a programação do canal no Brasil, enquanto os outros já são atrações do Discovery H&H. No entanto, vai além ao propor que estes profissionais comandem a renovação da casa cuja fachada ficou eternizada como o lar d’A Família Brady / Família Sol-Lá-Si-Dó (The Brady Bunch, 1969-1974), o numeroso clã da sitcom familiar criada por Sherwood Schwartz que se tornou um ícone da televisão norte-americana. O objetivo é transformar o lugar, recriando o set da série dentro do imóvel, fazendo isso ao lado dos atores que interpretaram os seis filhos do casal de viúvos que morava na ensolarada Califórnia dos anos 1960 e 70: Barry Williams, Maureen McCormick, Eve Plumb, Christopher Knight, Mike Lookinland e Susan Olsen.


É, portanto, um encontro significativo do preterido, em termos de prestígio, segmento televisivo de casa e decoração com o filão mais célebre desta mídia, que são as séries ficcionais, em um exercício tanto de metalinguagem quanto de nostalgia no resgate de um produto da época em que a televisão tinha um papel fundamental na rotina das pessoas. A bem da verdade, The Brady Bunch não chegou a ser um grande sucesso quando foi exibida originalmente na ABC, mas foi se tornando cada vez mais popular no país com as sucessivas reprises posteriores e as reuniões do elenco – Robert Reed, Florence Henderson e Ann B. Davis, hoje já falecidos, completavam o cast – em produções derivadas, como o especial The Brady Girls Get Married seguido pela série spin-off The Brady Brides, em 1981 na NBC, e o telefilme A Very Brady Christmas (1988) e do curto seriado The Bradys (1990), ambos na CBS – o exemplo mais próximo à realidade brasileira seria o significado que A Grande Família (1972-75/2001-14) tem para o público de várias gerações. E quando um reality show como este reaviva o imaginário da franquia, é só mais um exemplo de como essa característica de autocelebração da cultura norte-americana opera para a manutenção da hegemonia de seus produtos, seja dentro ou fora de seu território.


Lançada pela TV Cultura de São Paulo, em 1971, e depois pela TV Record, em 1972, A Família Brady não ficou gravada na memória dos brasileiros entre vários “enlatados americanos” transmitidos pelos canais nacionais naquela época e que ganharam maior repercussão. Tanto que, ao ser reexibida pelo antigo canal pago Retro Channel em 2005, ganhou o novo título de Família Sol-Lá-Si-Dó, tal qual o filme que homenageou e parodiou a série, A Família Sol, Lá, Si, Dó (The Brady Bunch Movie, 1995), em referência a outro seriado semelhante daquele período que fez muito sucesso por aqui, A Família Dó-Ré-Mi (The Partridge Family, 1970-74). Talvez, por isso, A Very Brady Renovation não tenha chegado até agora ao país, sem previsão de estreia tão cedo, embora a falta de apelo nostálgico por uma atração praticamente desconhecida no Brasil não seja um impedimento para o espectador acompanhar e se atentar às qualidades deste novo programa.


O início já explica a qualquer desavisado a importância da sitcom original e a forma como o reality se desenrola, mostrando, no princípio, por exemplo, os bastidores da própria produção para comprar a propriedade em Los Angeles e as dificuldades de projetar a reforma em uma construção completamente diferente da estrutura que os cenários da comédia familiar apresentavam – aliás, somente a magia da TV para explicar como as pessoas acreditavam que aquela casa térrea estilo rancho da imagem ilustrativa poderia ser o imóvel de dois andares reproduzido no set. Usando uma estrutura parecida com a de Irmãos à Obra: Um Lar para Drew e Linda (3ª temporada de Property Brothers at Home, 2017), com cada um dos quatro episódios iniciais apresentando o processo de renovação de um grupo de cômodos, o “drama” da estreia é justamente o de criar uma extensão que não afete a fachada icônica e comporte tudo que era mostrado na tela, incluindo a famosa escada que caracteriza aquele lar fictício. Por isso, além do material comum dentro desse gênero, o show ainda traz como atrativo tanto essa viagem cultural ao tempo na busca por esse mobiliário setentista, além de peças de décadas pregressas, quanto por homenagear o trabalho fundamental da direção de arte e cenografia na criação midiática.


A autoreverência televisiva continua na utilização de recursos típicos da época como o quiz nos intervalos e de vários elementos da série. A abertura de A Família Brady é recriada a partir de uma versão atualizada do tema e do grafismo – que, em 1969, prenunciava a era do Zoom – com a junção do elenco e dos apresentadores, assim como a montagem intercala momentos em que os atores repetem diálogos que disseram quando crianças e adolescentes com as cenas originais. Às vezes, esse fan service pesa quando algumas falas se tornam repetitivos, mas é notável como a produção soube incluir os fãs da sitcom dentro da história, envolvendo o público na busca por eletrodomésticos e itens decorativos iguais aos que faziam parte daquela casa dos Brady.


E com um orçamento tão grande para concretizar essa superprodução, não é de se espantar que a Discovery, rede a qual pertence o HGTV, tenha aproveitado ao máximo o projeto. O reality ganhou mais dois episódios de “bastidores”, que embora percam um pouco o ritmo dos primeiros, mostram conteúdo inédito da demolição e da reforma de outros cômodos não revelados antes, além de um especial de Natal e um crossover com Dupla do Barulho (Fast N'Loud, 2012-), programa automobilístico do canal principal, em que um Plymouth Satellite 1969, carro da família fictícia, foi customizado. Enfim, tal qual o processo pelo qual passou a própria casa, A Very Brady Renovation é um ótimo exemplo de como a indústria do entretenimento investe na nostalgia como um modo de renovação para não deixar ou voltar a ser o que era.

A Very Brady Renovation (2019)

Reality show estruturado | 1ª temporada: 6 episódios, de 9 de setembro a 14 de outubro de 2019 (+ um especial de Natal em 16 de dezembro de 2019)

Canal: HGTV (EUA) | Ainda sem exibição prevista no Brasil

Direção: Tony Croll e Peter Ney

Elenco: Drew Scott, Jonathan Scott, Mina Starsiak, Karen Laine, Jasmine Roth, Leanne Ford, Steve Ford, Lara Spencer, Barry Williams, Maureen McCormick, Eve Plumb, Christopher Knight, Mike Lookinland, Susan Olsen, Dylan Eastman, Loren Ruch e Dave Clark (veja + no IMDb)



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