• Nayara Reynaud

MEU PAI | Confabulações mnemônicas e cinematográficas

Atualizado: há uma hora


Anthony Hopkins e Olivia Colman em cena do filme britânico Meu Pai (The Father, 2020), do cineasta e dramaturgo francês Florian Zeller | Foto: Divulgação (Califórnia Filmes)

Abrir ao som das óperas que o protagonista costuma ouvir parece apenas pontuar o gosto do personagem vivido por Anthony Hopkins e a dramaticidade da tragédia a ser encenada em Meu Pai (The Father, 2020), produção indicada a seis Oscars, incluindo o de Melhor Filme. Contudo, o típico rigor da forma na música erudita diz muito sobre a estruturação empregada estética e narrativamente por Florian Zeller em sua estreia como cineasta, a partir da peça de maior sucesso na carreira deste dramaturgo e novelista francês. O Pai / Le Père (2012) viajou por vários palcos, ganhando, inclusive, uma montagem brasileira em 2016, na qual Fulvio Stefanini venceu o Prêmio Shell de Melhor Ator pelo papel principal; um destino semelhante ao de outros intérpretes de André pelo mundo.


A bem da verdade, o espetáculo até já chegou às telas antes, na comédia dramática francesa A Viagem de Meu Pai (2015), com Jean Rochefort e Sandrine Kiberlain, em que o diretor Philippe Le Guay se inspira bem livremente no material original. Sem ter se envolvido com o projeto, Zeller resolveu reafirmar as bases de sua obra em seu próprio longa-metragem, tendo como parceiro de roteiro, Christopher Hampton, que já havia sido o responsável por adaptar a peça para o inglês. O resultado não só é um retrato de tom mais grave sobre a demência para quem sofre e aqueles que o rodeiam, como também encontra na linguagem cinematográfica uma nova forma de construir uma experiência imersiva para o público através do ponto de vista do protagonista, agora chamado de Anthony, em um claro desejo realizado pelo cineasta de que Hopkins assumisse o papel no qual entrega sua melhor atuação em anos, recebendo por isso um BAFTA e indicações ao Oscar e outros prêmios.


Assim, o espectador é apresentado a este senhor de 81 anos quando sua filha Anne (Olivia Colman, que concorre a Melhor Atriz Coadjuvante na premiação da Academia) vai visita-lo em seu apartamento, em Londres, e revela-se preocupada com o pai por dispensar todas as cuidadoras que contrata para ele, ainda mais agora que ela pretende se mudar para Paris. Na sequência seguinte, porém, um homem estranho, interpretado por Mark Gatiss, afirma ser seu genro e que o imóvel lhe pertence, enquanto outra mulher, vivida por Olivia Williams, diz ser a Anne. Estes rostos se confundem em outros papéis, assim como também surgem os de Rufus Sewell, como o seu genro Paul, e Imogen Poots, como a cuidadora que lembra sua outra filha Laura.


Observa-se, então, o envelhecimento e, principalmente, a demência por um prisma diferente do que é habitual em dramas do tipo: o público experimenta a mesma sensação de confusão mental do protagonista, ficando entre a dúvida de que alguém o está enganando e o medo de que a sua própria mente esteja lhe pregando peças. Por isso, não é à toa a escolha de Casta Diva, em que a personagem-título da ópera Norma (1831), de Vincenzo Bellini, tenta acalmar espíritos revoltosos, e de Je Crois Entendre Encore, ária de Os Pescadores de Pérola (1863), de Georges Bizet, que traz uma embriaguez das recordações e dos sonhos, como as peças operísticas a serem ouvidas por Anthony. Além dos significados que carregam em suas letras acerca das confabulações da memória do personagem, a construção narrativa de Meu Pai segue uma lógica observada nas variações comuns na música erudita, incluindo trilhas sonoras como a do próprio filme, assinada por Ludovico Einaudi.


As repetições ou reiterações de um mesmo tema com pequenas variações que se observam nessas formas musicais são aplicadas aqui em várias instâncias, começando pelo roteiro indicado ao Oscar e vencedor do BAFTA. Em vez de usar recursos ostensivos como jogos de planos e focos ou uma montagem acelerada para gerar o efeito de perturbação, Zeller o faz a partir da construção narrativa alicerçada junto de Hampton, em que a discrição com que confabula possibilidades a partir desses fragmentos de memória, sejam elas verdadeiras ou falsas, é o que torna a confusão mais sorrateira e inesperada para o espectador. Até porque este, por mais que já tenha sido surpreendido uma vez ou outra por tramas como a de Christopher Nolan em Amnésia (2000), por exemplo, mantém a tendência de confiar no ponto de vista apresentado por uma história – ainda mais quando este é apresentado por alguém do calibre de Hopkins.


Outros departamentos que concorrem ao Academy Awards complementam este trabalho de repetir e variar elementos que coloquem tudo sob suspeição. Se já havia mudanças e sumiços de objetos na cenografia da peça, o design de produção de Peter Francis utiliza o mesmo set para ambientar, a partir da decoração de Cathy Featherstone, diferentes cenários, com o apartamento que se transmuta, seja de proprietário ou até em consultório médico e asilo. A montagem de Yorgos Lamprinos, por sua vez, cadencia esse movimento cíclico de semelhanças e diferenças da narrativa.


Entretanto, por mais que este seja um exercício artístico construído a partir da perspectiva do protagonista, não deixa de lado a visão e os sentimentos daqueles ao seu redor. Na relação de Anne com o pai, assim como outros personagens da trilogia teatral de Zeller, composta por La Mère (2010), que na tradução literal significa “A Mãe”, e Le Fils (2018), que seria “O Filho” e já tem uma adaptação cinematográfica em vista como o próximo projeto do realizador, o autor aborda certa sensação de impotência que surge nas relações familiares. Na tensão existente entre a atenção e o amor desprendido no seio de uma família versus os traumas surgidos dessas vivências e o imponderável que pode atingir a qualquer um é que nasce o drama sem respostas ao qual o artista se interessa.

Meu Pai (The Father, 2020)

Duração: 97 min | Classificação: 14 anos

Direção: Florian Zeller

Roteiro: Christopher Hampton e Florian Zeller, baseado na peça “O Pai / Le Père” de Florian Zeller

Elenco: Anthony Hopkins, Olivia Colman, Mark Gatiss, Olivia Williams, Imogen Poots e Rufus Sewell (veja + no IMDb)

Distribuição: Califórnia Filmes

Plataforma: Apple TV (iTunes), Google Play e NOW, a partir de 9 de abril de 2021 | Belas Artes à la Carte, a partir de 15 de abril de 2021 | Sky Play e Vivo Play, a partir de 28 de abril de 2021



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