• Nayara Reynaud

O CONTO | Buracos negros da memória

Atualizado: Mai 9


Depois de vencer o Grande Prêmio do Júri com o seu primeiro longa, Beirut: The Last Home Movie (1987), a documentarista Jennifer Fox voltou, trinta anos depois, ao Festival de Sundance com o seu début drástico na ficção. Após deixar a plateia do evento em silêncio e estrear em maio na televisão americana, o filme The Tale chega como O Conto (2018) à HBO Brasil, neste sábado (18), para provocar também o estarrecimento do espectador daqui com o olhar autobiográfico da cineasta para o seu passado obscuro. Ou melhor, para a sua memória auto negligenciada de acontecimentos traumáticos, agora relembrados pela atriz Laura Dern em sua pele, no papel pelo qual foi indicada ao Emmy 2018, assim como o telefilme.

O ponto de partida para a história, como descrito até nos créditos finais, é o tal conto do título, que a jovem Jennifer escreveu como redação escolar. Por mais que a diretora e roteirista da produção da HBO tenha alterado nomes dos envolvidos e alguns eventos – provavelmente, por uma precaução jurídica –, a trama relata os acontecimentos que se sucederam com ela aos 13 anos. Em plenos anos 1970, a garota vinda de uma numerosa família passa a gostar da atenção que ganha da sua professora de equitação, chamada por todos de Mrs. G (Elizabeth Debicki, tendo a chance de mostrar toda a severidade que demonstra rapidamente em suas coadjuvantes no cinema em um papel que lhe dá todo o destaque, e que também é vivido por Frances Conroy, quando mais velha), e do companheiro de aulas e amante dela, o treinador de corrida Bill (Jason Ritter, perigosamente acima de suspeitas aqui, quando jovem, e mais cínico na figura mais velha de John Heard), sendo chamada a participar da relação “acima das convenções” dos dois adultos.

Se o público logo percebe o erro dessa definição em algo que claramente foi um caso de abuso infantil, também observa essa imagem que esconde a verdade ser desconstruída pela Fox de Laura Dern. Em um recurso narrativo muito sagaz, o longa já começa esse processo com a autoimagem distorcida que a protagonista tem dela mesma em tal época, com a figura mais adolescente madura de Jessica Sarah Flaum na pele de Jenny no início, sendo prontamente suprida pela mais franzina e infantil Isabelle Nélisse – irmã de Sophie Nélisse, de A Menina que Roubava Livros (2013), e então com 11 anos, mas sendo substituída por uma dublê de corpo adulta nas cenas mais delicadas – após as fotos reveladas por sua mãe (interpretada por Ellen Burstyn). Um indício do melhor trunfo desta obra.

Visualmente, O Conto carrega muito do aspecto de um telefilme pelo seu provável baixo orçamento, porém, possui em si uma estrutura narrativa que encontra sua própria lógica na confusão, algo muito louvável sendo o primeiro trabalho de Fox na ficção. Não há, é claro, o mesmo refinamento em todos os diálogos, alguns sendo desnecessariamente expositivos e, talvez, um erro temporal com a direção de arte utilizando aparelhos eletrônicos atuais para uma trama que, ao que os diálogos indicam, deve se passar, dez anos atrás – tanto que a produção que a documentarista da ficção está realizando se assemelha à série documental da cineasta da vida real, Flying: Confessions of a Free Woman (2006-08). Contudo, isso fica para trás quando a história se equilibra tão bem entre Jennifer buscando “a sua verdade” no presente, as falsas lembranças que guarda, as recordações agora reais que vêm em sua mente e as quebras da quarta parede com as personagens, sendo ela mesma mais jovem ou a sua idolatrada Mrs. G, a confrontando, além de uma interação em cena entre as Jennys de Dern e Nélisse.

Essas frentes narrativas se completam ou se confundem, à medida em que põem o espectador junto da protagonista no mergulho pelos buracos negros da sua memória. Motivada pelas circunstâncias e a lábia de seu(s) molestador(es) – e é interessante aqui como apesar de mostrar as artimanhas do machismo, a produção desmistifica a imagem de que apenas homens sejam responsáveis por abusos sexuais a menores e mostra a complexidade da vítima em meio a isso –, uma garota pré-adolescente romantiza o estupro em conto e o inconsciente, como em inúmeros outros casos, trata de esquecer como forma de blindar o indivíduo de um trauma. Motivada pelo fim da inocência sobre aquilo que realmente lhe tirou a inocência, uma mulher adulta transforma o seu trauma em filme e, se não sabemos se ela encontrou certa paz como a idealizada em Way Over Yonder, cantada por Carole King nos créditos, sabemos que a nossa foi um pouco embora com esta obra perturbadora, mas totalmente necessária nos tempos atuais.

O Conto (The Tale, 2018)

Telefilme (estreia) | Duração: 114 min

Canal: HBO | Exibição: Sábado, 18/08, às 22h

Horário alternativo: Segunda, 20/08, às 22h na HBO 2 | Terça, 21/08, às 20h na HBO | Sexta, 24/08, à 0h05 na HBO e 17h na HBO 2 | Domingo, 26/08, às 19h na HBO (veja outras opções no site), além de estar disponível na HBO On Demand

Direção: Jennifer Fox

Roteiro: Jennifer Fox

Elenco: Laura Dern, Elizabeth Debicki, Isabelle Nélisse, Jason Ritter, Ellen Burstyn, Frances Conroy, Common, John Heard, Laura Allen e Jessica Sarah Flaum (veja + no IMDb)

#Cinema #TV #OConto #TheTale #JenniferFox #cinebiografia #autobiográfico #HBO #FestivaldeSundance #documentário #LauraDern #IsabelleNélisse #JessicaSarahFlaum #ElizabethDebicki #FrancesConroy #JasonRitter #JohnHeard #EllenBurstyn #Common #abuso #sexualidade #criança #adolescência #memória #FlyingConfessionsofaFreeWoman #psicologia #machismo #feminino #protagonismofeminino #WayOverYonder #CaroleKing #telefilme #homevideo

 siga o NERVOS: 
 @nervossite 
  • Twitter - Black Circle
  • Facebook - Black Circle
  • Instagram - Black Circle
  • Pinterest - Black Circle
  • SoundCloud - Black Circle
  • Spotify - Black Circle
  • Deezer - Black Circle
  • iTunes - círculo preto
  • Branco RSS Icon
  • Twitter B&W
  • Facebook B&W
  • Instagram B&W

© 2020 por Nayara Reynaud. Criado a partir da plataforma Wix.