• Nayara Reynaud

OLHAR 2020 | Dia 4

Atualizado: Out 24

Confira os destaques deste quarto dia de programação do 9ª edição do Olhar de Cinema:

Victoria (2020)


Vastidão de fascínio sob os olhos cinematográficos de Hollywood, o deserto eternizado pelos faroestes não gera, necessariamente, o mesmo apelo a todos os norte-americanos quanto parece. A exaltação da conquista do Oeste, muitas vezes, deixa passar o fato de que ela não foi de toda exitosa e várias cidades fantasmas povoam os Estados Unidos – alguns registros delas podem ser encontrados no recente documentário brasileiro Zona Árida (2019). E os projetos de povoamento dessas regiões não datam somente do período clássico de expansão do território do país, no século XIX, tendo fracassos recentes como o apresentado no filme Victoria (2020).


Ganhador de prêmios paralelos nos festivais de Berlim e IndieLisboa, o longa belga de Sofie Benoot, Liesbeth De Ceulaer e Isabelle Tollenaere tem California City como cenário e personagem. Fundada 50 anos atrás por um milionário texano que queria fazer uma nova Los Angeles em pleno Deserto de Mojave, a cidade é até a terceira maior do estado da Califórnia em extensão territorial, porém, com um baixíssimo índice de povoamento no lugar onde as ruas estão “se esmigalhando” e gêiseres surgem a toda hora em meio à paisagem desértica, por causa do sistema de encanamento municipal já velho e feito às pressas na época de sua construção. Esses detalhes são informados por Lashay T. Warren, protagonista e narrador do documentário.


A produção começa, em 2016, quando o jovem já está há 145 dias no lugar, após ter se mudado de Los Angeles com toda a sua família, tendo o desejo de começar uma nova vida lá por causa da oportunidade de um emprego assegurado e de terminar os estudos com a bolsa de curso supletivo. No condado natal, o rapaz morava em Compton, cidade da grande L.A., conhecida pelo histórico de violência entre gangues e da qual Lashay traz suas marcas físicas e psicológicas, como denota nos comentários ao rever saudoso as ruas do seu antigo lar no Google Maps e Street View. Essas imagens invadem a tela e o trio de diretoras usa do fato dos rostos serem embaçados no aplicativo como representação da memória difusa que o protagonista começa a ter dos seus velhos amigos, alguns deles já mortos.


Os mapas, aliás, fazem parte do trabalho dele e de outros jovens, notadamente negros também ou latinos, deixando claro que a marginalização racial ou étnica é determinante neste caso, para que esses aventureiros, tais quais os pioneiros das cartas de 1849 e 1864 que leem na aula de História, decidam aceitar o convite de morar em Cal City e manter as suas vias intactas, já que muitas delas são invadidas pela areia ou pela parca vegetação que cresce no asfalto. A narrativa do filme, muitas vezes, parece não sair do lugar, mas é um reflexo do sentimento de desolação do próprio cenário e do que ele causa na sua personagem central e nas periféricas. Se a colega Sharleece demonstra um interesse por assuntos espaciais, a fuga de Lashay se encontra em simplesmente rodar o deserto, tocar uma gaita e manter o mapa para sua sanidade intacto ao criar uma nova cidade para si.

Mostra Competitiva

Victoria (Victoria, 2020)

Duração: 72 min | Classificação: 12 anos

Direção: Sofie Benoot, Liesbeth De Ceulaer e Isabelle Tollenaere (veja + no site)

Produção: Bélgica

> Sessão – 11/10/2020 (domingo), disponível das 6h às 5h59 do dia seguinte

> Reprise – 15/10/2020 (quinta), disponível das 6h às 5h59 do dia seguinte

No site do Olhar de Cinema

Um Animal Amarelo (2020)


*Texto escrito originalmente durante a cobertura do 48º Festival de Cinema de Gramado


No cinema de Felipe Bragança, seja em projetos solo ou em parceria com outro realizador, o cruzamento entre passado e presente do Brasil é recorrente. Trata-se, geralmente, de um exercício mais fabular do que fantástico no resgate, mais profundo do que o comum, de eventos históricos fundadores da nação. Exemplos são a relação colonial com Portugal no curta Fernando que Ganhou um Pássaro do Mar (2013), em um momento em que os países se encontravam em fases diametralmente opostas as de agora, ou da Guerra do Paraguai no longa anterior Não Devore Meu Coração (2017).


A memória nacional é novamente revirada, sob o estigma de uma doença dolorosa, mas necessária, em sua nova obra Um Animal Amarelo. Exibida no Festival de Roterdã e previsto na programação do Olhar de Cinema, a produção chega a Gramado para dar sequência ao debate da herança colonial, especialmente escravocrata, na formação do povo brasileiro, abordado também por Todos os Mortos (2020). Iniciando com uma citação do antropólogo Darcy Ribeiro, a reflexão sobre a falta de identidade brasileira, ou de uma identidade a qual não se quer assumir, é traçada através da trajetória tragicômica e delirante de um cineasta chamado Fernando (Higor Campagnaro) recriando em forma de aventura e filme a história de seu ancestral por Moçambique, Portugal e Brasil.


Dividida em capítulos intitulados, a narrativa vai de um prólogo em 1984, que apresenta a figura já falida de seu avô (Herson Capri), que teve escravos moçambicanos, décadas depois da Abolição, e ainda mantinha o desvairado sonho da riqueza que um dia desfruto, bem como seu amuleto, um osso ligado à figura mítica do tal Animal Amarelo. Pulando para o presente, está seu neto, um cineasta que não obtém o financiamento para seu filme, no qual deseja contar sobre esse espólio familiar e acaba, ele mesmo partindo como um “pirata pálido” em busca de riquezas em Moçambique e se envolvendo em um esquema que o leva a Lisboa. Personagens vêm e vão como miragens na trama – a narradora e chefe moçambicana do protagonista, Catarina (Isabél Zuaa), e a paixão portuguesa dele, Susana (Catarina Wallenstein), conseguem se destacar –, assim como outras referências reais, porém, lendárias da cultura luso-brasileira, a exemplo de Carmen Miranda e do Sebastianismo.


A dedicatória final a Joaquim Pedro de Andrade é só o atestado de um filme que emula a aura de Macunaíma (1969) constantemente, sem demonstrar um pouco da perspicácia da obra-prima do cineasta no retrato plural da constituição do povo brasileiro. Há também elementos referenciais de Terra Estrangeira (1995), de Walter Salles e Daniela Thomas, seja na imagem de abertura do navio naufragado ou no contrabando de pedras preciosas na narrativa. Contudo, na viagem transatlântica à história e ao cinema nacionais, o longa se afasta mais do que o esperado da realidade atual, ainda que ela seja sempre motivo de crítica desses reflexos passados.


Um Animal Amarelo é um filme declaradamente autocentrado, desde a metalinguagem na escolha de seu protagonista aos seus zooms, e isso caracteriza o seu céu e seu inferno. Honesto escudo para a autocrítica que Bragança faz a si mesmo e ao cinema que se encantou pela utopia de um país que se revelou ainda como reprodução da colônia de outrora, a abordagem é igualmente um lamento ensimesmado que não quer dar conta da complexidade do brasileiro de agora e de sua triste fábula real.

Mostra Olhares Brasil

Um Animal Amarelo (2020)

Duração: 115 min | Classificação: 16 anos

Direção: Felipe Bragança

Roteiro: Felipe Bragança, com colaboração de João Nicolau

Elenco: Higor Campgnaro, Isabel Zuaa, Catarina Wallenstein, Tainá Medina, Thiago Lacerda, Matamba Joaquim, Sophie Charlotte, Lucilia Raimundo, Marcio Vito, Digão Ribeiro, Matheus Macena, Samuel Toledo (veja + no site)

Produção: Brasil, Portugal e Moçambique

> Sessão – 11/10/2020 (domingo), disponível das 6h às 5h59 do dia seguinte

> Reprise – 15/10/2020 (quinta), disponível das 6h às 5h59 do dia seguinte

No site do Olhar de Cinema



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