• Nayara Reynaud

NÓS DUAS | O jogo de esconde-esconde


Martine Chevallier e Barbara Sukowa em cena do filme francês Nós Duas (Deux, 2019), de Filippo Meneghetti | Foto: Divulgação (Festival do Rio)

Duas garotas brincam de esconde-esconde entre as árvores de um parque, até que uma delas simplesmente some, deixando a outra totalmente perdida. Talvez, o espectador não perceba de imediato, mas a sequência simbólica que abre Nós Duas (Deux, 2019) se torna um prenúncio do que, logo, se revela na produção francesa que foi indicada ao Globo de Ouro de Filme em Língua Estrangeira e tentou uma vaga para a França no último Oscar. Além de resumir de forma alegórica a narrativa do longa-metragem de estreia de Filippo Meneghetti, a brincadeira infantil traz muito do jogo da própria direção do cineasta italiano radicado na França que ganhou o César de Melhor Primeiro Filme neste ano.


Após essa abertura, o público é apresentado à Madeleine (Martine Chevallier) e Nina (Barbara Sukowa) na intimidade de seu quarto. Quando o casal começa a se beijar e apaga a luz, a escolha do diretor pode até soar medrosa, porém, é muito mais um reflexo da relação que as duas senhoras escondem do mundo, nesta história roteirizada pelo realizador e Malysone Bovorasmy. Apesar de dividirem a mesma cama, para todos, elas são apenas vizinhas de andar que se tornaram amigas. Enquanto isso, as duas sonham com uma nova vida juntas em Roma, mas, para tanto, a viúva Mado precisa tomar coragem de contar aos seus filhos, a cabelereira Anne (Léa Drucker), com quem tem um bom relacionamento, diferente do reticente Frédéric (Jérôme Varanfrain), sobre o romance que mantém secreto há tanto tempo.


O que aparentemente é um drama como tantos, cujo diferencial seria apenas a escolha demográfica do casal, se mostra realmente com uns 20 minutos de filme. A partir da cena da lavanderia, em que Meneghetti constrói a tensão a partir daquilo que não é dito, porém, facilmente intuído pela plateia, a obra “muda de chave”, pois o cineasta introduz em todo o melodrama inerente da trama os elementos para reconstruí-lo como um thriller. Assim, a narrativa opera sob essas duas instâncias de um modo muito construtivo para ambas, a exemplo da cena seguinte da frigideira no fogão, em que novamente o diretor faz uso do seu jogo de esconde-esconde para revelar um acontecimento que muda drasticamente os rumos das duas personagens, ou na forma como inclui o olho mágico em sua mise-en-scène.


Este evento coloca Mado sob atenção da família e obriga Nina a ser somente a Sra. Dorn, a boa vizinha alemã da porta da frente. Contudo, é impossível para ela conter seu sofrimento, preocupação e paixão, o que a leva a tentar, de todo modo, retomar a sua vida junto da amada, em uma disputa velada com a figura de Muriel (Muriel Bénazéraf), que, sem querer, surge entre as duas. Tanto nesta demarcação de um thriller melodramático, quanto nos seus desdobramentos, o filme expõe essa via de mão dupla do preconceito incutido na sociedade, em que o drama das barreiras reais que são impostas às protagonistas se mistura com o suspense de um perigo constante que, por vezes, é superdimensionado e as leva à autocensura ou atitudes mais extremas.


É certo, no entanto, que esse mecanismo contribui para que o público se envolva de tal maneira que, assim como na canção preferida do casal, Chariot (Sul Mio Carro), a versão italiana de Betty Curtis para I Will Follow Him, siga com as duas até o fim.

 

Nós Duas (Deux, 2019)

Duração: 99 min | Classificação: 12 anos

Direção: Filippo Meneghetti

Roteiro: Malysone Bovorasmy e Filippo Meneghetti, com colaboração de Florence Vignon

Elenco: Barbara Sukowa, Martine Chevallier, Léa Drucker, Jérôme Varanfrain, Muriel Bénazéraf e Augustin Reynes (veja + no IMDb)

Distribuição: Imovision



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