• Nayara Reynaud

TIRADENTES 2021 | Travessias poéticas

Atualizado: Jan 30


24ª Mostra de Cinema de Tiradentes: Oráculo (2021), filme catarinense de Melissa Dullius e Gustavo Jahn | Rosa Tirana (2020), longa baiano de Rogério Sagui | Fotos: Divulgação / Thais Cassia

A Mostra Aurora continua com sua vocação para experimentações nesta 24ª Mostra Tiradentes, mesmo que entre tropeços e acertos. A sessão de estreias continuou com o catarinense Oráculo (2021), novo exercício cinematográfico da dupla Melissa Dullius e Gustavo Jahn, e mais um exemplar baiano, Rosa Tirana (2020), de Rogério Sagui, que você conhece mais a seguir:

Oráculo (2021)


Juarez Nunes em cena do filme brasileiro experimental Oráculo (2021), produção catarinense dirigida por Melissa Dullius e Gustavo Jahn | Foto: Divulgação (Mostra Tiradentes)

Cinco anos depois de Muito Romântico (2016), os atores e diretores Melissa Dullius e Gustavo Jahn surgem com uma nova parceria, mas, agora, atuam apenas atrás das câmeras em Oráculo. O novo filme experimental da dupla inicia com o título texturizado sobre a filmagem da ponte Hercílio Luz, importante cartão postal de Florianópolis, circundada por guindastes durante a sua reforma. A imagem que permanece na tela, mas não tanto quanto as outras dos seis cenários apresentados durante o longa de 61 minutos, filmado em 16mm, já aponta alguns signos e significados explorados nas seis cenas/segmentos que o compõem: o mar como um afluente do tempo, a ponte simbolizando a travessia por ele e o maquinário como um agente das transformações ao longo dela.


O primeiro segmento traz a figura de um homem bêbado nas pedras, que se levanta cambaleando até avistar uma mulher do outro lado ao som do canto afro-religioso de Santa Barbara. O segundo acompanha, com um plano fechado e em slow motion, um homem mais velho andando e, sobre o som abafado de sua respiração e do mar, a sua narração em off recorda seus passos em um dia que lhe foi marcante, embora não seja revelado o porquê, no qual caminhou sob a mesma ponte. Na terceira, a onda joga outro homem (Juarez Nunes) na praia, em uma performance na areia e mais uma ideia solta jogada pelo longa.


O quarto momento quebra essa paisagem e dinâmica praiana, indo para um quarto de uma adolescente (Alice Bennaton) cantando e tocando no violão a música Deixe-me Ir, do grupo de rap 1Kilo, evocando questões de tempo e relacionamento, para depois ouvir sua própria gravação no celular e os filme reforçar suas letras na legenda. Uma cena que poderia ser até tocante se bem amarrada em um contexto, mas que se torna solta e não contribui muito para o conjunto, mesmo que tenha ligação com o segmento seguinte, em que a jovem está em um quebra-mar e vê-se o efeito do tempo em sua figura adulta (na realidade, sua mãe, a também atriz Luana Raiter) que a substitui, na metáfora visual mais óbvia, porém, efetiva do filme. Sobre as montanhas, um céu crepuscular, ou do alvorecer, encerra este ciclo poético, em melhor forma do que sua parte inicial.


Isso porque, como é possível perceber nestes breves resumos, trata-se de uma obra convencional demais para o experimentalismo que se propõe e igualmente de uma abstratividade distante ao espectador. Com este, Dullius e Jahn jogam ideias soltas, para que o mesmo complete, mas sem conseguir estimular nele uma paciência contemplativa para fazê-lo imergir naqueles retratos de crises e transformações pessoais. Parte do público pode entrar neste jogo, atraído por algum elemento de identificação, mas a outra apenas verá um conceito pouco explorado além do nível intelectual na tela.

Mostra Aurora

Oráculo (2021)

Duração: 61 min

Direção: Melissa Dullius e Gustavo Jahn

Roteiro: Distruktur

Elenco: Juarez Nunes, Alice Bennaton, Fernando Goulart Jahn, Aline Maya e Luana Raiter (veja + no site)

Produção: Santa Catarina

> Disponível gratuitamente no site da Mostra Tiradentes, da 20h de 24/01 (domingo) às 23h59 de 26/01/2021 (terça)

Rosa Tirana (2020)


Kiarah Rocha em cena do filme brasileiro Rosa Tirana (2020), produção baiana dirigida por Rogério Sagui | Foto: Divulgação (Créditos: Thais Cassia)

Com quase 50 mil habitantes, Poções é uma cidade baiana importante na região de Vitória da Conquista, mas apesar da urbanização atual, a história de sua formação, assim como dos municípios vizinhos, perpassa o mítico sertão, no caso, o da Ressaca. É justamente esse cenário que o público adentra com Rosa Tirana, longa do estreante Rogério Sagui que transparece, dentro das limitações desta produção local, ter sido abraçada por toda a população poçoense. Uma identidade sertaneja já anunciada pelos desenhos dos belos créditos iniciais, mas que se mostra cambaleante no decorrer do filme, na sua busca em adequar sua fábula à imagem comumente reproduzida pelo resto do país sobre esta emblemática paisagem nordestina e as referências na arte regional.


A história fabular e diálogos versados, ambientada em um setembro seco de uma época atemporal, inicia com o entoar de cantos e sinos, enquanto Rosa (Kiarah Rocha) e sua mãe (Stela de Jesus) rezam pela chuva, que castiga a terra delas e de seu cego avô (José Dumont). Cheia de simbolismos, a partida da rosa, tanto a menina quanto a flor, traz consequências para sua família, rendendo um momento crucial do longa, em que a poesia popular nordestina do monólogo realizado por José Dumont acaba não atingindo seu ápice por causa da direção e da montagem de Sagui ao lado de Carlito JR que entrecortam esta emoção. Somente então, acompanha-se a travessia da pequena protagonista pela caatinga à procura de Nossa Senhora Imaculada, a “Rainha do Sertão”, enfrentando alguns perigos pelo caminho e algumas ajudas também, mas o espectador tem pouco em mãos para se afeiçoar de fato à garota, por mais bela que seja sua conclusão, ao som de Elba Ramalho, captando todo o misticismo e fé que movem os sertanejos.


Essa súplica nordestina contra a seca recorda diversas obras, desde clássicos literários como O Quinze (1930), de Rachel de Queiroz, e Vidas Secas (1938), de Graciliano Ramos, ao emblemático videoclipe de Segue o Seco, da cantora Marisa Monte, dirigido por Cláudio Torres e José Henrique Fonseca, por exemplo, mas a jornada de uma menina pelo sertão remete diretamente à minissérie Hoje É Dia de Maria (2005, mesmo ano em que foi exibida a sequência Segunda Jornada). Contudo, por mais que conte com a legitimidade regional frente ao cenário fantástico e teatral da produção global realizada por Luiz Fernando Carvalho, Sagui evoca os maneirismos deste sem o mesmo apuro, seja por questões técnicas ou escolhas de mise-en-scène. Uma pena, pois Rosa Tirana é mais um exemplar de um momento de reconciliação do cinema nacional com a sua tradição do sertão, que poderia fazer boa companhia com os outros títulos baianos recentes, o excelente Sertânia (2018) na busca dessa memória e o resoluto Filho de Boi (2019) reformulando alguns de seus estereótipos.

Mostra Aurora

Rosa Tirana (2020)

Duração: 72 min

Direção: Rogério Sagui

Roteiro: Rogério Sagui

Elenco: Kiarah Rocha, José Dumont, Stela de Jesus, Rogério Leandro, Carlos White, Yan Quadros, Jocimário Kannário, Mufula, Eliene D´Goió, Sindy Rodrigues e Maria Flor (veja + no site)

Produção: Bahia

> Disponível gratuitamente no site da Mostra Tiradentes, da 20h de 25/01 (segunda) às 23h59 de 27/01/2021 (quarta)



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