• Nayara Reynaud

MOSTRA SP 2020 | Filho do sertão

Atualizado: Nov 26


O universo do circo move o cineasta baiano Haroldo Borges desde Jonas e o Circo Sem Lona (2015), documentário de Paula Gomes, do qual foi corroteirista e diretor de fotografia. Agora que assina a direção de seu primeiro longa, Filho de Boi (2019), no qual repete a parceria no roteiro com a colega do coletivo local Plano 3 Filmes e tem o já crescido Jonas Laborda como coadjuvante, o realizador volta a trazer o picadeiro como um dos palcos de sua ficção. O outro é o sertão, terreno bem conhecido por João (João Pedro Dias), o quieto menino de 13 anos que trabalha junto do rígido pai (Luiz Carlos Vasconcelos) na lida com o gado.


Nas primeiras cenas e poucas palavras trocadas, o público o conhece em sua rotina de vaqueiro e fica sabendo que ele é alvo de bullying dos outros garotos da cidade, que o chamam de “filho de boi”, apelido pejorativo cujo motivo é esclarecido somente à frente na trama. O ponto de mudança na vida dele é a chegada do Circo Papa-Léguas a Tamburi, na Bahia. O jovem vê com isso a chance de poder partir daquele lugar junto da trupe circense, se agarrando à oportunidade que lhe é dada, enquanto encontra na amizade com o palhaço Salsicha (Vinicius Bustani) mais ensinamentos para seu crescimento do que, necessariamente, para fazer o público rir.


Quanto a isso, ressente-se apenas que a importante cena de apresentação do menino tenha uma direção um tanto evasiva e sem atingir, de fato, uma catarse com o protagonista. Mas como não se trata de uma comédia, e sim um drama coming of age em que o ato da palhaçada é tão somente um instrumento de expurgação de medos, é uma lacuna que não afeta seriamente o todo.


Isso porque Borges imprime sua experiência na área documental em um naturalismo que se integra bem ao uso de não-atores em grande parte do elenco, contando com o papel principal. João Pedro Dias não estreia como aquele exímio ator mirim que, por vezes, despontam em produções de percurso semelhante, porém, há algo em sua performance ainda crua que cabe perfeitamente ao personagem acanhado e que não sabe muito bem como agir. O jovem se destaca nas cenas em que é confrontado pelo pai e as lágrimas saem temerosas, mas com uma espontaneidade não tão comum de se ver nas telas, enquanto ele e o filme têm o bom apoio de Vinicius Bustani como seu carismático amigo.


Se a trama da jornada de amadurecimento aqui é simples, paira em toda a obra a complexa problemática de uma masculinidade que se encrusta em uma atmosfera a ponto de torná-la insustentável, vide a necessidade do garoto de fugir. Ainda assim, o longa a confronta em pequenos detalhes: tem-se o arquétipo masculino mais popular da cultura brasileira com a figura do vaqueiro, mas apesar da aridez que o ambiente do sertão e o tratamento de sua comunidade deram ao pai dele, é o sisudo homem quem desconstrói a falácia machista de um pensamento conservador corrente no lugar ao trazer para o filho a memória amorosa da mãe que partiu. Por isso, quando a cena final entoa A Morte do Vaqueiro, de Gonzagão, há um misto de sentimento nostálgico de uma cultura sertaneja que parece estar se perdendo com o tempo e também uma espécie de apelo pelo fim dos valores ultrapassados associados a ela, enquanto João aparece como um renascimento de sua verdadeira essência, que é da resistência.



=> Confira as críticas de outros filmes desta 44ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo

Mostra Brasil / Competição Novos Diretores

Filho de Boi (2019)

Duração: 91 min | Classificação: 12 anos

Direção: Haroldo Borges

Roteiro: Paula Gomes e Haroldo Borges

Elenco: João Pedro Dias, Luiz Carlos Vasconcelos, Vinicius Bustani, Wilma Macedo e Jonas Laborda (veja + no site)

Produção: Brasil

Distribuição: Olhar Distribuição

> Disponível no Mostra Play, das 22h de 22/10 (quinta) a 04/11/2020 (quarta), com limite de até 2.000 visualizações

+ Repescagem de 05 a 08/11/2020 na Mostra Play



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