• Nayara Reynaud

MOSTRA SP 2020 | Lições de prazeres e solidão


O existencialismo de Clarice Lispector surgiu em meados do século passado e ainda se mantém como um traço distinto dentro da tradição literária brasileira. Seu estilo intimista de adentrar na psique de seus personagens, em vez de utilizar uma narrativa clássica na qual as forças externas os movem, é admirado por gerações de eleitores, mas desafiante para ser traduzido às telas do cinema ou da TV. É possível contar nos dedos as raras adaptações audiovisuais da tão célebre escritora, e a mais recente e destemida empreitada é a do filme O Livro dos Prazeres (2020).


Em seu primeiro longa, a cineasta Marcela Lordy adapta, ao lado da corroteirista Josefina Trotta, o romance Uma Aprendizagem ou O Livro dos Prazeres (1969) para um cenário contemporâneo, em que os anseios e temores da Loreley, ou simplesmente Lóri, de outrora ainda ecoam no íntimo da mulher moderna. A busca por liberdade e o peso da solidão fazem parte da nova fase que a professora inicia ao vir do interior do estado para morar na cidade do Rio de Janeiro. Mas este conflito existencial é evidente na primeira vez que o público a avista, angustiada na sala de aula, sob a pele de Simone Spoladore, atriz de Magnífica 70 (2015-18), vista recentemente em Aos Pedaços (2020) e na última versão da novela Éramos Seis (2019-20), e que faz da sua bela atuação o sustentáculo desta obra.


Essa sensação permanece, enquanto se acompanha a sua rotina, mas mal se houve a sua voz nas cenas iniciais. Recém-mudada para o grande apartamento de vista para o mar que a mãe lhe deixou, Lóri, aproveita a oportunidade de não estar mais sob o olhar vigilante dos irmãos controladores, experimentando a sua liberdade sexual nos vários corpos que surgem no seu colchão ao chão. Contudo, entre eles, a atração que sente pelo professor de filosofia argentino Ulisses (Javier Drolas, de Medianeras: Buenos Aires da Era do Amor Virtual, de 2011) se torna irresistível, bem como o choque de pensamento com este homem egocêntrico e que deposita o seu charme nas suas certezas e provocações, fazendo com que ela evite, de todas as formas, estabelecer qualquer laço afetivo maior com alguém tão diferente dos objetivos que almeja.


A ideia de que, embora essencial ao ser humano, a liberdade pode se tornar uma prisão em si, se transformada mais em um dever do que uma necessidade espontânea, gera questionamentos interessantes, mas nunca fadados a uma visão conservadora. Ao contrário, Lordy evita julga esse longo processo de autodescoberta da protagonista, inclusive sexual, com destaque para a representativa cena dos espelhos que multiplicam o seu prazer individual, em um dos vários momentos em que sua direção e outros aspectos técnicos evocam esse sensorialismo ou as epifanias lispectorianas. Mesmo que o filme não consiga estabelecer sempre uma universalidade desses sentimentos e soar, determinados momentos ou receptores, como um existencialismo privilegiado, O Livro dos Prazeres apenas propõe que essa experimentação de múltiplos e efêmeros afetos junto à solitude, que, por vezes, se manifesta em solidão, se faz como uma etapa inevitável para amar a si mesmo e a outro alguém.



=> Confira as críticas de outros filmes desta 44ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo

Mostra Brasil / Competição Novos Diretores

O Livro dos Prazeres (2020)

Duração: 99 min

Direção: Marcela Lordy

Roteiro: Josefina Trotta e Marcela Lordy, baseado no livro “Uma Aprendizagem ou O Livro dos Prazeres” de Clarice Lispector

Elenco: Simone Spoladore, Javier Drolas, Felipe Rocha, Gabriel Stauffer, Martha Nowill e Teo Almeida (veja + no site)

Produção: Brasil e Argentina

Distribuição: Vitrine Filmes



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