• Nayara Reynaud

GRAMADO 2020 | Dia 5 – Fluxos de vida e morte

Atualizado: Set 26



O 48º Festival de Cinema de Gramado teve mais uma noite de produções cariocas nas competições brasileiras nesta terça (22), embora com focos diferentes entre curtas e longa. No primeiro caso, os documentários Dominique (2019) e Joãosinho da Goméa – O Rei do Candomblé (2019) trazem trajetórias pessoais marcadas pelo preconceito, mas também sua parcela de superação, nas figuras de uma mulher trans e de um famoso pai de santo, respectivamente. Depois, foi a vez do novo filme do cineasta Ruy Guerra, Aos Pedaços (2019) um noir experimental sobre um homem atormentado pela ideia de que será assassinado, enquanto dois homens precisam decidir se irão matar quem já deveria estar morto no drama paraguaio Matar a um Muerto (2019). Confira mais a seguir sobre os títulos deste quinto dia de evento.

Dominique (2019) e Joãosinho da Goméa – O Rei do Candomblé (2019)


Exibido em festivais como o Mix e o Curta Brasília do ano passado, a produção carioca Dominique leva o público a uma viagem até o rio Amazonas e, por tabela, à história de sua personagem-título. Enquanto a voz em off de Dominique reconta a sua trajetória como uma mulher trans, o documentário de Tatiana Issa e Guto Barra apresenta a paraense Dominique pegando o barco para uma travessia fluvial. E se muito de sua vivência traz as conhecidas águas turbulentas pelas quais a comunidade trans passa, há uma leve correnteza neste filme que difere de como a temática geralmente é relatada ou representada.


Desde o ambiente conservador na família, mesmo quando viveu com um tio homossexual, e a decisão de sair de Belém e ir para São Paulo com 15 anos, há muito da sina que acompanham as mulheres trans e, mais especialmente as travestis, mais marginalizadas dentro da sociedade brasileira. Na capital paulista, conseguiu botar seu silicone e foi para a prostituição, praticamente o único caminho profissional que muitas encontram, mas evitou entrar em outras ciladas como o envolvimento com drogas e roubos que muitas caem. “É uma vida intensa, mas muito rápida: poucas chegam a 35 anos”, afirma a protagonista em seu relato, enquanto declara “travesti é sinônimo de fetiche”.


É, então, que o curta se opõe a um estereótipo ligado a personagens LGBT+, no geral, que é o da rejeição familiar, assim como a ficção Inabitável (2020) mostrou antes na mesma competição de Gramado e o longa Alice Júnior (2019), agora nas plataformas digitais. Quando o barco chega à ilha de destino, e Dominique encontra a sua mãe, há uma mudança estética no filme, que parte para os depoimentos mais tradicionais, estilo talking head, para centrar-se no rosto dessa simpática mulher, que mesmo sem entender direito da questão, a aceitou, assim como suas duas outras filhas que depois se assumiram transexuais. Tal qual da própria personagem-título falando dos próprios preconceitos que superou e do conforto ao estar de volta em casa, ao lado desta figura materna, da mesma maneira que o espectador recebe o sentimento de acolhimento que a obra transmite.



Depois, foi a vez de Joãosinho da Goméa – O Rei do Candomblé (2019) fazer movimento semelhante, ao tratar a questão da intolerância religiosa apenas como passagem para a elevação mítica da pessoa biografada e de sua religiosidade. O curta de Janaina Oliveira ReFem e Rodrigo Dutra mistura documentário e performance para apresentar a figura de Joãosinho da Goméa, que nascido católico em Inhambupe, na Bahia, se tornou pai de santo e veio se estabelecer em Duque de Caxias, no final dos anos 1940, ganhando fama ao atender de celebridades a políticos. Com isso, recaiu sobre ele tanto o preconceito da época e ainda atual sobre as religiões afro-brasileiras quanto as acusações de que ele estaria desmoralizando o candomblé com seu jeito extravagante – e havia também divergências não comentadas no filme em relação às práticas dele, que misturavam elementos indígenas do candomblé de caboclo, algo que desagradava os mais “puristas” das tradições africanas na religião.


Quem relata tudo isso é o próprio Joãosinho da Goméa, com suas gravações antigas em off sendo ilustradas imagens, fotos e recortes de jornais da época. Os diretores intercalam o dispositivo com performances do ator Átila Bezerra encarnando a sua persona, primeiro nas ruínas de seu terreiro e em uma mise-en-scène que remonta ao cinema negro de Zózimo Bulbul – como frisado por Vitor Velloso em sua crítica no Vertentes do Cinema –, para depois ir para um caráter mais expositivo da indumentária e objetos sagrados utilizados pelo retratado e encerrar em uma encenação que celebra o espírito carnavalesco transgressor do babalorixá. É, portanto, mais uma provocação ao espectador para conhecer a existência de tal figura do que um aprofundamento da importância e das polêmicas que o cercaram.

Competição de Curtas-Metragens Brasileiros

Dominique (2019)

Duração: 19 min

Direção: Tatiana Issa e Guto Barra

Roteiro: Giovanna Giovanini (veja + no site)

Produção: Brasil (Rio de Janeiro)

Joãosinho da Goméa – O Rei do Candomblé (2019)

Duração: 14 min 24 s | Classificação: Livre

Direção: Janaina Oliveira ReFem e Rodrigo Dutra

Roteiro: Janaina Oliveira ReFem e Rodrigo Dutra

Elenco: Átila Bezerra (veja + no site)

Produção: Brasil (Rio de Janeiro)

Aos Pedaços (2019)


Mais novo trabalho de Ruy Guerra, o longa Aos Pedaços (2019) traz as ruminações de um homem angustiado pela certeza de que será assassinado por uma de suas duas esposas, embaladas pelo próprio exercício de ruminação artística do cineasta luso-brasileiro, nascido em Moçambique, aos 89 anos de idade. O filme experimental, que transita entre a linguagem teatral e a cinematográfica, abre com a narração de Arnaldo Antunes, como uma das vozes presentes na atormentada mente de Eurico Cruz (Emílio de Mello) e explica a situação do protagonista. Casado com duas viúvas, de nomes e aparência praticamente iguais, Ana (Simone Spoladore) e Anna (Christiana Ubach), ele recebe um bilhete lhe ameaçando de morte e se aflige na tentativa de descobrir qual das duas será sua algoz.


Tudo isso é expresso, ora por monólogos existencialistas, ora por algumas cenas com trocas de diálogos entre o reduzido e ótimo elenco, que também inclui a figura imaginária do Pastor (Julio Adrião), ou com personas ilusórias como a lagosta de estimação de Eurico. A teatralidade é eminente, embora nem tanto a metalinguagem que surge de algumas falas, a exemplo da confissão de uma das mulheres, de se sentir como “um personagem esperando o ação”. Frases de efeito interessantes podem ser tiradas dessas reflexões, desde os “tubarões têm olhos tristes” a “o amor é capaz de mentir a si próprio”, mas a narrativa não se sustenta por todos os 92 minutos de duração do longa, tornando-se cansativa para a maior parte do público.


A obra é mais interessante pelo que levanta através de seu exercício estético, que não se restringe apenas à beleza da fotografia em preto e branco de Pablo Baião, mas ao significados que carrega consigo, além jogo de sombras, enquadramentos e foco para traduzir a tormenta mental do protagonista. A figura estilizada de O Grito (1895), pintura expressionista do norueguês Edvard Munch, surge entre os pelos e é possível identificar elementos do Expressionismo Alemão nessa exasperação do personagem, porém, é com o noir clássico, altamente influenciado pelo estilo cinematográfico anterior, que Guerra dialoga em grande parte de seu trabalho. Trata-se de uma espécie de reapropriação: a paranoia e o niilismo do gênero estão lá, bem como não uma, mas duas femme fatales, contudo o resultado dessa soma é ressignificada pelo cineasta.


"Nos sonhos, sabemos de coisas que não vemos, como no cinema", diz Eurico e, tão logo, o expectador percebe que a desconfiança de seu assassinato parece mais um desejo desse homem pela própria morte. As tais mulheres fatais usadas como bodes expiatórios para a derrocada dos homens ao centro das tramas noir são isentas dessa culpa por Aos Pedaços. Embora haja um reforço da confusão do protagonista ao intercalar as vozes das duas A(n)na’s, o filme, que tem Luciana Mazzotti como corroteirista, vai aos poucos contrapondo a generalização do estereótipo, dotando cada uma de personalidades e desejos antagônicos.


Expoente do Cinema Novo com obras como Os Fuzis (1963), Guerra ainda evoca o movimento contemporâneo da Nouvelle Vague, da qual bebeu durante seus estudos na França, quando contrasta em breves momentos o interior de tons sombrios de Eurico com o exterior de branco acentuado, como se, tal qual aquela “revolução cinematográfica”, quisesse libertar aquelas mulheres de tais amarras narrativas. Sem culpados a apontar por sua própria ruína, o filme encontra, na raiz desse problema, o ser humano como “predador de si mesmo”.

Competição de Longas-Metragens Brasileiros

Duração: 92 min | Classificação: Livre

Direção: Ruy Guerra

Roteiro: Ruy Guerra e Luciana Mazzotti

Elenco: Emílio de Mello, Simone Spoladore, Christiana Ubach e Julio Adrião (veja + no site)

Produção: Brasil (Rio de Janeiro)

Distribuição: Pandora Filmes

Matar a um Muerto (2019)


No meio da mata, dois homens enterram vários corpos e a maior preocupação deles, ditas em poucas palavras, está em fazer covas fundas e com cal suficiente para impedir que animais pudessem abri-las. É claro que existe algo de ilegal no que estão fazendo, mas o filme paraguaio Matar a um Muerto não tem pressa em contextualizar o espectador desavisado de que Pastor (Ever Enciso) e seu assistente Dionisio (Aníbal Ortiz) estão enterrando clandestinamente os cadáveres de vítimas da forte repressão da ditadura de Alfredo Stroessner no país. O mote do primeiro longa de ficção de Hugo Giménez está no momento em que, entre os “pacotes” que eles recebem em uma desabitada ilha, se encontra um ainda respirando.


O fato cria um problema para a dupla de funcionários, que apesar do trabalho que faziam, não eram assassinos para “terminarem o serviço”, como sugere o título da produção, nem tampouco poderiam deixar seus superiores saber da existência que este morto (Jorge Román) ainda estava vivo. O diretor e roteirista usa a tensão das opiniões opostas dos dois para guiar a narrativa, mas há momentos em que imprime certo exagero nas atitudes de Pastor, seja ao praticá-las ou ao falhar miseravelmente na tarefa. Dionisio, por sua vez, é mais credível como um subordinado que não consegue ultrapassar seus limites e deseja apenas saber como está a Copa do Mundo.


Aliás, a maior competição mundial de futebol serve tanto como recurso narrativo para indicar o período retratado, que é o ano de 1978, quanto para a crítica de seu uso alienante por parte das ditaduras sul-americanas, o que aconteceu justamente naquela edição com a campanha vitoriosa da seleção da Argentina, capitaneada pelo craque Mario Kempes, dentro de casa. Esse poder da propaganda de governos ditatoriais aparece na sequência mais forte do longa, em que o surrado rádio dos personagens ecoa o programa nacional paraguaio, bem ao estilo A Voz do Brasil (1935-), somente louvando os feitos de Stroessner e falando de uma “tarde para desfrutar em família”, enquanto a câmera revela os corpos em decomposição na floresta. Os dois homens são, portanto, uma alegoria da maior parte da população em um estado de exceção – ou apenas em uma democracia falha – que ilhados em suas rotinas, somente são confrontados com a verdade que apenas enterram quando o dilema moral aparece em carne e osso em sua frente, descobrindo também que suas vidas também valem muito pouco para seus comandantes.

Competição de Longas-Metragens Estrangeiros

Duração: 87 min | Classificação: Livre

Direção: Hugo Giménez

Roteiro: Hugo Giménez

Elenco: Ever Enciso, Aníbal Ortiz e Jorge Román (veja + no site)

Produção: Paraguai

Distribuição: Filmagic Entertainment (Paraguai)



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