• Nayara Reynaud

MOSTRA SP 2020 | A partilha do luto

Atualizado: 4 de Nov de 2020



Apesar do impacto da sequência inicial, ainda assim filmada com uma elegante discrição dada a magnitude do evento narrado, o delicado longa argentino Mamãe, Mamãe, Mamãe (2020) traz um fluxo de singelos momentos na qual sua pueril protagonista tenta compreender os sentimentos deixados por tal acontecimento e as mudanças em si própria. A jovem cineasta Sol Berruezo Pichon-Rivière faz de seu primeiro filme, portanto, um encontro do coming of age, um lugar confortável para diretores estreantes, com um drama sobre luto, este um terreno mais espinhoso para uma principiante ou até experimentados realizadores transpassarem. E o resultado dessa fusão, no geral, é bem-sucedido nos sucintos 65 minutos de duração da produção que recebeu a Menção Especial do Júri na seção Generation Kplus do Festival de Berlim e também passou por San Sebastián antes de chegar à programação da Mostra Internacional de Cinema em São Paulo deste ano.


A trama começa com mais um dia preguiçoso de verão até que o inesperado irrompe o lar de Cleo (Agustina Milstein). Sua pequena irmã Erín (Florencia González Rodríguez) se afoga na piscina de casa e enquanto a sua mãe (Jennifer Moule) corre para socorrê-la, a filha mais velha fica sozinha em casa até que sua tia (Vera Fogwill) chegue junto de sua prole para ficar com ela. De idades bem diferentes, as primas tentam distraí-la, com a adolescente Nerina (Chloé Cherchyk) buscando confortá-la, enquanto a pré-adolescente igual a ela, Manuela (Camila Zolezzi), e a pequena Leoncia (Matilde Creimer Chiabrando) não entendem muito bem a situação, mas procuram ajudá-la a sua maneira.


Sob o ponto de vista de Cleo, o filme a acompanha lidando com o luto, entre lembranças da irmã, filmadas com um tom nostálgico no uso do 16mm, enquanto sente a falta materna neste momento em que precisa de consolo. Tampouco a menina sabe como apoiar a sua mãe, pouco vista ao longo da narrativa, ao observar à distância a sua depressão com a perda repentina. O roteiro de Berruezo Pichon-Rivière trabalha justamente nesta natural falta de habilidade de elaborar esses sentimentos para abordar a tragédia de modo indireto: é suficiente mostrar a piscina sendo coberta por uma empresa terceirizada – os funcionários são as únicas figuras masculinas a aparecem na tela – ou, mesmo quando as palavras precisam concretizar o fato, há um eufemismo melancólico nelas, a exemplo da cena do muro.


Enquanto isso, a garota acaba encontrando nas primas um apoio para assimilar as mudanças pelas quais o seu corpo e sua mente está passando. O modo como a menstruação é representada também como um processo de luto, mas superável, é a síntese de como a obra maneja um tema tão complexo através do olhar infantil e adolescente. As coreografias musicais – a canção original Skin é da cantora indie argentina Kobra Kei –, o teste de revista e o interesse pelo sexo oposto dão de descoberta para esse encontro feminino, que ganha mais uma integrante com a chegada de Aylín (Siumara Castillo), filha da empregada paraguaia (Shirley Giménez) da avó delas (Ana María Monti). É possível dizer que Mamãe, Mamãe, Mamãe perde um pouco da força nesta segunda parte, mas assim como as personagens, a obra tem paciência e ternura suficientes para encontrar o seu caminho de casa.

Competição Novos Diretores

Mamãe, Mamãe, Mamãe (Mamá, Mamá, Mamá, 2020)

Duração: 65 min | Classificação: Livre

Direção: Sol Berruezo Pichon-Rivière

Roteiro: Sol Berruezo Pichon-Rivière

Elenco: Agustina Milstein, Chloé Cherchyk, Camila Zolezzi, Matilde Creimer Chiabrando, Siumara Castillo, Vera Fogwill, Jennifer Moule, Shirley Giménez, Ana María Monti e Florencia González Rodríguez (veja + no site)

Produção: Argentina

> Disponível no Mostra Play, das 22h de 22/10 (quinta) a 04/11/2020 (quarta), com limite de até 2.000 visualizações

+ Repescagem de 05 a 08/11/2020 na Mostra Play



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