• Nayara Reynaud

MOSTRA SP 2020 | Gestando dilemas morais

Atualizado: Nov 21



Com exceção da cena de abertura e a dos créditos finais, Jess carrega um bebê em seu ventre durante todo o filme Mãe de Aluguel (2020). Em seu primeiro longa-metragem, o cineasta Jeremy Hersh gesta um complexo drama moral em uma produção de baixo orçamento. O indie norte-americano tem, como trunfo para superar qualquer limitação, a capacidade do seu roteiro de envolver o espectador nos debates éticos a que se propõe e, especialmente, a jornada da interpretação de Jasmine Batchelor no papel da protagonista, em uma impressionante estreia no cinema da atriz vinda do teatro nova-iorquino e de pequenas participações em séries televisivas.


O título exibido na edição virtual do festival South by Southwest (SXSW) deste ano inicia com uma conversa de balcão de Jess com seu “ficante” Nate (Brandon Micheal Hall) sobre não querer oficializar a sua relação quando o telefone dela toca. Vem o fade com a tela preta e a cartela do título do filme e o público já vê a jovem de 29 anos no banheiro de um apartamento fazendo um teste rápido de gravidez e logo comemorando com Josh (Chris Perfetti) e Aaron (Sullivan Jones) pela confirmação de que agora eles serão pais. Depois, a web designer, que entusiasmadamente decide ser a barriga de aluguel e doadora de óvulos do casal de amigos, explica a situação para sua reticente mãe (Tonya Pinkins) e a compreensiva irmã (Eboni Booth).


Hersh não demanda muito tempo nessa apresentação e antes que longa complete 10 minutos de duração para introduzir a situação que afetará a vida e a relação do trio. O exame pré-natal indica que o feto tem síndrome de Down, uma notícia que abala o casal, enquanto a amiga procura por informações sobre a condição genética gerada pela trissomia do cromossomo 21. Aliás, a sua ida com Josh ao centro comunitário infantil especializado marca a uma fusão de um registro documental com a narrativa ficcional em curso. Lá, ela conhece duas mães com visões bem diferentes sobre seus filhos e o tema em geral, com Sandra (Meg Gibson) tornando seu rebento em símbolo de ensinamento e Bridget (Brooke Bloom, também com uma atuação de destaque nas nuances do que expressa em palavras ou olhares) apresentando uma ótica mais realista sobre as dificuldades na criação de seu pequeno Leon (um encantador Leon Lewis).


Se, nesse embate, é possível ver a verdade de cada um dos olhares, a mesma tendência ocorre nas várias colisões de opiniões que surgem a partir do momento em que a protagonista diverge dos amigos e até de sua própria família sobre os rumos que deverão tomar nesta gravidez. São levantados vários questionamentos sobre o direito dos pais decidirem o que fazer e qual o poder dela de decisão em um acordo antes amigável, assim como o dilema moral, não do aborto em si, mas do que ele significa neste caso específico em que gera o debate sobre eugenia. Isso vindo de personagens de certo privilégio socioeconômico, no conforto de seus apartamentos no Brooklyn, em Nova York, mas que conhecem por experiência própria o problema da discriminação, seja a jovem negra ou o casal homossexual inter-racial, o que aprofunda ainda mais a discussão entre eles na longa e tensa cena que se destaca na produção. O mérito do texto de Hersh se encontra na condução que leva o espectador a compreender os pontos discordantes levantados por cada personagem, mesmo que discorde veementemente de suas ações.


Tal complexidade é esquadrinhada na construção da personagem realizada por Batchelor. Jess é visivelmente uma pessoa empolgada, mesmo que se observe a sua insatisfação pessoal com o trabalho desde o início e, por vezes, soa até invasiva na sua tentativa de enxergar o lado bom das situações ao seu redor, enquanto é confrontada pela realidade, tanto de sua condição econômica quanto das circunstâncias que sempre ligarão aquele bebê a Josh e Aaron, a decidir por si mesma, em meio a tantas incertezas. Por isso, ainda que parte do público esteja descontente com sua resolução final, estes também compartilharão da descompressão da última cena, em que a jovem pode voltar a ser ela mesma.



=> Confira a entrevista com o diretor Jeremy Hersh sobre o filme Mãe de Aluguel


=> Confira as críticas de outros filmes desta 44ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo

Competição Novos Diretores

Mãe de Aluguel (The Surrogate, 2020)

Duração: 93 min | Classificação: 14 anos

Direção: Jeremy Hersh

Roteiro: Jeremy Hersh

Elenco: Jasmine Batchelor, Chris Perfetti, Sullivan Jones, Brooke Bloom, Eboni Booth e Tonya Pinkins (veja + no site)

Produção: Estados Unidos

> Disponível no Mostra Play, das 22h de 22/10 (quinta) a 04/11/2020 (quarta), com limite de até 2.000 visualizações

+ Repescagem de 05 a 08/11/2020 na Mostra Play



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