• Nayara Reynaud

MOSTRA SP 2020 | Jornadas e niilismo ao Leste

Atualizado: Nov 5

Dentro da programação da 44ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, há um conjunto de experimentações diversas vindas do Leste Europeu e do Cáucaso. Desta região no limite entre a Europa e Ásia que se encontra em conflito no atual momento, é possível conferir jornadas tarkovskyanas em Entre Mortes (2020), filme do Azerbaijão, dirigido por Hilal Baydarov e com uma viagem etérea sobre desejos pessoais e um machismo nacional; e Limiar (2020), produção da Armênia, realizada por Rouzbeh Akhbari e Felix Kalmenson, que vaga pelas paisagens e a geopolítica local. Dentre os títulos eslavos, o niilismo está presente em Mate-o e Deixe Esta Cidade (2019), animação da Polônia, na qual o cineasta Mariusz Wilczyński se inspira nas suas próprias memórias de um cenário urbano desolador e de perdas familiares; e Cozinhar F*der Matar (2019), longa da diretora da Eslováquia, Mira Fornay, também aborda a violência doméstica através do absurdo. Confira um pouco mais destas obras a seguir:

Entre Mortes (Səpələnmiş Ölümlər Arasında, 2020)


Estreando recentemente no Festival de Veneza, Entre Mortes é o sétimo longa do jovem, mas prolífico cineasta azerbaijano Hilal Baydarov, que iniciou sua filmografia somente há três anos. Seu segundo trabalho em ficção, do qual a crítica internacional apontou as inspirações no mestre russo Andrei Tarkovsky e no renomado diretor turco Nuri Bilge Ceylan, traz uma ambiciosa jornada metafísica ao longo de um dia na vida do protagonista que é obrigado a percorrer as estradas do Azerbaijão em fuga e acaba descobrindo, tardiamente, do que ele, de fato, estava fugindo até então. O público conhece Davud (Orkhan Iskandarli) entre seus sonhos e sua realidade: no estado etéreo e poético, de simbologias não tão bem desenvolvidas, o rapaz procura a ligação da família que está à procura de formar; na esfera real e concreta, ele é rude com sua mãe (Maryam Naghiyeva), a culpando por não ter visto o pai uma última vez antes de morrer e por ela estar sempre doente.


Sem muita explicação, se não o seu nervosismo desde que saiu de casa, o jovem se envolve em uma briga em uma boca de fumo e mata um traficante, sendo por isso perseguido, sem tanta gana, pelo trio de funcionários do chefe da gangue que assistiu a tudo passivamente. Na trajetória de fuga dele, o filme ganha corpo com a proposição, expressa direta e didaticamente pela boca de um personagem, de que, aonde este homem vai, deixa para trás um rastro de morte e igualmente liberta figuras femininas que encontra pelo caminho do jugo da opressão machista no país. O principal mérito da obra está nesse olhar para a violência física e psicológica contra as mulheres e, embora a ideia de Davud como “salvador” delas pareça errônea, o mesmo personagem que reflete a situação e o próprio rumo final da narrativa vêm dizer que ele não serve a este papel.

Perspectiva Internacional

Entre Mortes (Səpələnmiş Ölümlər Arasında, 2020)

Duração: 88 min | Classificação: 14 anos

Direção: Hilal Baydarov

Roteiro: Hilal Baydarov

Elenco: Orkhan Iskandarli, Rana Asgarova, Huseyn Nasirov, Samir Abbasov, Kamran Huseynov, Maryam Naghiyeva e Kubra Shukurova (veja + no site)

Produção: Azerbaijão, México e Estados Unidos

> Disponível no Mostra Play, das 22h de 22/10 (quinta) a 04/11/2020 (quarta), com limite de até 2.000 visualizações

+ Repescagem de 05 a 08/11/2020 na Mostra Play

Limiar (Threshold, 2020)


A falta de contextualização é fatal para Limiar, seja pelo desconhecimento do espectador ou pela opção do filme em não apresentar este contexto a ele. A obra armênia em coprodução com a Turquia e o Canadá, realizada pela dupla de artistas de videoinstalações em seu primeiro longa-metragem, o iraniano Rouzbeh Akhbari e o russo Felix Kalmenson, pressupõe um conhecimento prévio do público das disputas geopolíticas na região do Cáucaso, localizada no limite entre a Europa e a Ásia. Mesmo que a plateia virtual brasileira nesta 44ª Mostra, em que o título estreia mundialmente, saiba da existência do genocídio armênio provocado pelo então Império Turco-Otomano, no início do século XX; perceba o vácuo deixado pela onipresença soviética nas repúblicas, hoje independentes, da Armênia e do Azerbaijão; e esteja informada das recentes notícias sobre o conflito entre estes dois países fronteiriços na região de Nagorno-Karabakh que se acentuou no último mês, ainda falta muito por dizer e explicar na viagem física e transcendental proposta pela obra.


Trabalhando a ideia de transitar pelo limiar territorial da região tanto quanto pelas fronteiras cinematográficas, a produção propõe um hibridismo entre ficção, performance, documentário e poesia enquanto acompanha a jornada de um cineasta armênio (Garik Hovhannissyan) à procura de locações para o seu próximo projeto. Há uma evocação tarkovskyana na forma como os diretores filmam tanto as paisagens nevadas quanto as linhas das ruínas, abandonadas ou não, dos impérios que ali se impuseram, produzindo imagens de grande beleza. Porém, o império da estética cai em ruína aqui quando o propósito dos realizadores, seja o que está na frente ou os que estão atrás das câmeras neste jogo metalinguístico, não deseja se revelar em uma narrativa tão desértica quanto os cenários desbravados pelo filme.

Competição Novos Diretores

Limiar (Threshold, 2020)

Duração: 70 min | Classificação: 14 anos

Direção: Rouzbeh Akhbari e Felix Kalmenson

Roteiro: Rouzbeh Akhbari e Felix Kalmenson

Elenco: Garik Hovhannissyan, Soma Hovhannissyan e Armenuhi Burmanyan (veja + no site)

Produção: Armênia, Turquia e Canadá

> Disponível no Mostra Play, das 22h de 22/10 (quinta) a 04/11/2020 (quarta), com limite de até 2.000 visualizações

+ Repescagem de 05 a 08/11/2020 na Mostra Play

Mate-o e Deixe Esta Cidade (Zabij To I Wyjedz Z Tego Miasta, 2019)


Vencedor do Prêmio Especial do Júri do Festival de Annecy, o mais prestigiado evento especializado no gênero, a animação polonesa Mate-o e Deixe Esta Cidade é um exemplo de produção que se aproveita da liberdade do formato para mergulhar no âmago de conteúdos adultos bem complexos. Em seu primeiro longa, o prestigiado animador Mariusz Wilczyński, que cresceu na cidade industrial de Lodz nos anos 1960 e 70, faz um mergulho de inspiração autobiográfica em suas memórias familiares. O cineasta traça isso através de um protagonista que procura reviver os entes queridos que perdeu se refugiando justamente em sua fragmentada e simbólica memória de seus pais e de um desolador cenário urbano que os cercava.


Há um quê de Bukowski no tom niilista do filme que demonstra uma desesperança ao escancarar, por vezes de modo escatológico, a miséria humana ao redor do personagem, com a humanidade colocada ao lado ou como presa de figuras animalescas, como os urubus e outros animais, além do trem, de representação tão metafórica quando o das 7, da canção de Raul Seixas, que surgem ao longo da alegórica narrativa sobre vida e morte. E, simultaneamente, existe uma melancolia no ressentimento dele por suas perdas, especialmente de sua mãe, a quem o alter ego do diretor não consegue descrever seu próprio filme nem lhe dar atenção nos momentos finais – e no qual o blues da trilha sonora com músicas de Tadeusz Nalepa completa ainda mais este sentido. Em termos técnicos, Wilczyński traz uma animação 2D, mais de traços marcados do que formas preenchidas, sobre colagens em papéis que conferem uma dimensionalidade, assim como as cores de luzes de semáforos, fachadas e ou dos raios de sol refletidos no mar quebram o fundo de tons pastéis e desbotados dessa existência.

Competição Novos Diretores

Mate-o e Deixe Esta Cidade (Zabij To I Wyjedz Z Tego Miasta, 2019)

Duração: 88 min | Classificação: 16 anos

Direção: Mariusz Wilczyński

Roteiro: Mariusz Wilczyński

Elenco: Krystyna Janda, Andrzej Chyra, Maja Ostaszewska, Małgorzata Kożuchowska e Barbara Krafftówna (veja + no site)

Produção: Polônia

> Disponível no Mostra Play, das 22h de 22/10 (quinta) a 04/11/2020 (quarta), com limite de até 2.000 visualizações

+ Repescagem de 05 a 08/11/2020 na Mostra Play

Cozinhar F*der Matar (Cook F**k Kill, 2019)


O padrão de repetição da violência em uma sociedade, especialmente dentro do espectro de uma família, é reproduzido na estrutura narrativa do filme tcheco-eslovaco Cozinhar F*der Matar, terceiro longa de Mira Fornay. A cineasta eslovaca de Môj pes Killer / My Dog Killer (2013), premiado em Roterdã, mesmo festival no qual seu recente trabalho foi exibido, constrói quase um jogo no qual os erros do protagonista são punidos com a morte e, tal qual um videogame, o levam de volta à fase anterior, mas com algumas mudanças de comportamento ou físicas que nem sempre resultam em uma transformação concreta de um ambiente familiar corroído, particularmente pelas questões de gênero que pautam as discussões e confrontos. O problema é que a forma como esta desequilibrada tragicomédia do absurdo faz essa crítica também é incapaz de trazer mudanças, retroalimentando, em alguns momentos, o mal a qual aponta.

Perspectiva Internacional

Cozinhar F*der Matar (Cook F**k Kill, 2019)

Duração: 116 min | Classificação: 14 anos

Direção: Mira Fornay

Roteiro: Mira Fornay

Elenco: Jaroslav Plesl, Petra Fornayová, Regina Rázlová, Jan Alexander, Jazmína Cigánková e Irena Bendová (veja + no site)

Produção: República Tcheca e Eslováquia

> Disponível no Mostra Play, das 22h de 22/10 (quinta) a 04/11/2020 (quarta), com limite de até 2.000 visualizações

+ Repescagem de 05 a 08/11/2020 na Mostra Play



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