• Nayara Reynaud

MOSTRA SP 2020 | As duas faces do controle da pandemia

Atualizado: 5 de Nov de 2020



Alguns telefilmes e especiais televisivos foram os primeiros a abordar o surgimento da pandemia de Covid-19 em Wuhan, na China, ainda à luz da crise sanitária mundial em curso, mas o primeiro filme documental a ser lançado, de surpresa, sobre o tema foi Coronation (2020), de Ai Weiwei, em agosto deste ano – no mês seguinte, o festival de Toronto trouxe a produção 76 Days (2020) contextualizando o mesmo evento. O artista multiplataforma chinês, que já foi homenageado na 41ª Mostra, quando também assinou o cartaz e apresentou o documentário Human Flow – Não Existe Lar Se Não Há Para Onde Ir (2017), continua com seu viés humanitário e crítico no cinema ao voltar o seu olhar para o impacto direto e indireto da doença na população local. Algo que transpassa na obra, mesmo sem o seu controle criativo habitual, já que o cineasta dirigiu, produziu e editou o longa-metragem remotamente da Europa, onde se encontra exilado, a partir das filmagens feitas por cidadãos comuns da cidade que foi o epicentro do vírus.


Após a aterradora imagem aérea dos trens parados no pátio, entre outras que dão o tom distópico do que tem sido 2020, o espectador é convidado a adentrar em Wuhan junto com um casal que enfrenta dificuldades em retornar para lá, onde trabalham, depois de passar o Ano Novo Chinês com a família, passando por questionamentos policiais, a busca por um posto de gasolina para abastecer e pedágios com controle de temperatura. Observa-se meticulosamente a nova rotina hospitalar e os vários procedimentos de desinfecção necessários, além da construção relâmpago do hospital de longos corredores destinado ao tratamento de pacientes com Coronavírus e a chegada de grupos de profissionais de saúde vindos de outros lugares – incluindo o pedido para não alarmar os mais jovens, que ainda estão na faculdade de enfermagem. Em seguida, há um vislumbre do cotidiano de um entregador lidando com vários pedidos em um mesmo endereço.


Ainda que pese a falta de ritmo desta primeira hora da produção, ela constitui um contraponto para quando o documentário passa a emitir, de fato, a sua voz. Se a parte inicial traz esse recorte difuso que mostra os grandes esforços coletivos do Estado chinês e dos profissionais da linha de frente no combate à Covid-19 – que são de dar inveja a qualquer habitante de um país, como o Brasil, no qual o governo menosprezou a questão –, a segunda mostra o revés desse controle estatal e suas fissuras. Seria algo a se esperar sendo um filme de um artista contestador ao regime como Weiwei, ainda mais com a negligência das autoridades locais no começo da então epidemia, em dezembro de 2019, mas chega a ser surpreendente os relatos obtidos, dado a censura local.


A história de um trabalhador chamado para a construção do hospital que enfrenta a burocracia estatal para conseguir voltar à cidade natal e mora em um carro abre este segmento que traz um discurso mais claro. As divergências entre uma mãe, grande defensora do Partido, e o filho mais cético lhe mostrando manifestações populares e certas ações governamentais contradizendo-a simbolizam essa dualidade a qual o documentário busca a partir de então. Retorna-se aos hospitais, mas, agora, surgem as reclamações de pacientes internados e familiares dos falecidos, com destaque para um homem que luta para pegar, sem interferências, os restos mortais do pai. E, por fim, são as cinzas amassadas por um funcionário para poder caber na urna funerária que recordam com tristeza as vítimas mortais de uma pandemia que deixará efeitos colaterais em toda uma geração.



=> Confira as críticas de outros filmes desta 44ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo

Apresentação Especial

Coronation (Coronation, 2020)

Duração: 115 min | Classificação: 12 anos

Direção: Ai Weiwei (veja + no site)

Produção: China

> Disponível no Mostra Play, das 22h de 22/10 (quinta) a 04/11/2020 (quarta), com limite de até 2.000 visualizações



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