• Nayara Reynaud

GRAMADO 2020 | Dia 6 – Os amores eternos e os insuficientes

Atualizado: 26 de Set de 2020


Festival de Cinema de Gramado 2020: Remoinho (2020) | Você Tem Olhos Tristes (2020) | Me Chama que Eu Vou (2020) | Los Fuertes (2019)

Se a sexta noite do 48º Festival de Cinema de Gramado foi marcada pelo carisma de Sidney Magal no documentário Me Chama que Eu Vou (2020), com o artista recordando sua carreira e declarando todo seu amor à esposa e à família no novo longa de Joana Mariani, é possível dizer que o amor não foi suficiente para os protagonistas nas ficções que completaram a sessão desta quarta (23) no evento. É o que demonstra o retorno de uma mulher à casa da mãe no curta paraibano Remoinho (2020), a nova percepção que um entregador tem sobre seu namoro no paulista Você Tem Olhos Tristes (2020) ou a temporada apaixonante do filme chileno Los Fuertes (2019). Confira os textos sobre os títulos a seguir.

Remoinho (2020) e Você Tem Olhos Tristes (2020)


Cely Farias e Zezita Matos em cena do curta-metragem Remoinho (2020), de Tiago A. Neves | Foto: Divulgação (Festival de Gramado)

O tema do retorno à terra natal já rendeu ene histórias e Remoinho é mais uma delas, mas com suas diferenças. Filmado em Ingá, na Paraíba, o curta-metragem de Tiago A. Neves acompanha Maria (Cely Farias) junto com seu filho (Icaro Farias) na sua volta à casa da mãe (Zezita Matos), onde o desconforto é evidente. Ele não surge dos típicos confrontos familiares das tramas do tipo, mas de um afastamento entre as duas, sublinhado pela direção, e principalmente pelos silêncios de sua relação.


Os mesmos são quebrados em raros instantes como quando a mãe pergunta, sem resposta, sobre o pai do menino e comenta sobre os irmãos também a terem deixado sozinha, ou a filha se abstraindo sendo a bailarina da caixinha de música. Esses fragmentos, junto com o chip do celular jogado fora na abertura ou a revelação de seu sonho infantil de que discos voadores a levariam para qualquer lugar, são o pouco oferecido ao espectador para realmente compreender as atitudes da protagonista, além de suposições. A mais segura é de que o retorno ao lugar que nasceu foi também o dos sentimentos que a fizeram sair de lá e depois voltar, enquanto sempre tenta fugir deste remoinho.


Daniel Veiga em cena do curta paulista Você Tem Olhos Tristes (2020), de Diogo Leite | Foto: Divulgação (Festival de Gramado)

Essa questão da falta de construção na relação dos personagens também pesa no curta seguinte Você Tem Olhos Tristes. A produção paulista, dirigida e roteirizada por Diogo Leite, acompanha a dura rotina de um entregador de aplicativo chamado Luan (Daniel Veiga) e, através dela, visa comentar sobre a precarização do trabalho bem como o classismo e racismo. Com a participação de nomes como Gilda Nomacce, Jean Claude Bernardet e Giovanni Gallo, o filme traz uma narrativa que prende o espectador, embora seja palpável a mão pesada do cineasta ao concentrar vários problemas do cotidiano desses profissionais em confrontos intensos em tão pouco tempo, seja de duração ou de recorte da história.


Contudo, o que se sente mais falta, após a resolução final do protagonista, é do desenvolvimento da única relação pessoal que ele possui. Leite faz uma opção até interessante de mostrar o celular como uma extensão da vida de Luan, pois, além de precisar do aparelho para receber os pedidos e locar a bicicleta pelo app para trabalhar, também é por meio do smartphone que se estabelece a maior parte da interação dele com a namorada (Larissa Ballarotti). Mas, quando os dois estão juntos em cena, mesmo a distância imposta não é suficiente para compreender os olhos tristes do personagem, além da representação de sua classe trabalhadora.

Competição de Curtas-Metragens Brasileiros

Remoinho (2020)

Duração: 12 min 27 s

Direção: Tiago A. Neves

Roteiro: Tiago A. Neves

Elenco: Cely Farias, Zezita Matos, Joh Albuquerque e Icaro Farias (veja + no site)

Produção: Brasil (Paraíba)

Você Tem Olhos Tristes (2020)

Duração: 17 min 50 s

Direção: Diogo Leite

Roteiro: Diogo Leite

Elenco: Daniel Veiga, Gilda Nomacce, Jean Claude Bernardet, Giovanni Gallo, Larissa Ballarotti e Carol Oliveira (veja + no site)

Produção: Brasil (São Paulo)

Me Chama que Eu Vou (2020)


O cantor Sidney Magal em cena do documentário Me Chama que Eu Vou (2020), de Joana Mariani | Foto: Divulgação (Mar Filmes)

Depois de Alcione ser destaque na noite de segunda em Gramado, com o documentário O Samba É Primo do Jazz (2020), é a vez de Sidney Magal ser a estrela de outro filme do gênero, Me Chama que Eu Vou (2020). O longa traz uma viagem pela carreira do cantor conhecido pela latinidade de suas músicas e o furor de sua performance que o transformaram em um símbolo sexual no seu auge e que, depois de períodos intermitentes de certo ostracismo, se tornou cult para as novas gerações. A produção traça isso do modo mais tradicional possível, embora tudo seja bem embalado por montagem dinâmica e, é claro, o carisma do artista.


A diretora Joana Mariani, de Todas as Canções de Amor (2018), não encontra a mesma autoralidade demonstrada no retrato feminino da fé católica pela América Latina do belo documentário Marias (2015), mas entrega um produto que consegue fazer um panorama artístico de Magal e também adentar, até certo ponto, na vida íntima do Sidney Magalhães. A princípio, o longa se concentra na colagem de imagens de arquivo de recortes de jornais e gravações televisivas com jornalistas, apresentadores e humoristas falando dele, assim como as declarações do próprio em entrevistas antigas e cenas do filme Amante Latino (1979), de Pedro Carlos Rovai, no qual interpretava a si mesmo. É a introdução a uma figura deliberadamente narcisista, que fez da fantasia da arte um escudo contra a realidade.


O material é, então, intercalado com as filmagens atuais dele andando pela praia em Salvador, com o biografado ponderando as passagens de sua carreira, o início, seu nome artístico e estilo único, e o sucesso de Sandra Rosa Madalena, também mostrando desde fotografias de família de sua mãe às das crianças que o imitavam. Contudo, é a partir do momento em que Sidney fala de sua família, entrando em sua casa em Itapuã, que o filme ganha mesmo o interesse do espectador com a intimidade do retrato. Sua paixão por Magali, o processo de “assumir” a sua esposa perante o público e a mudança para a Bahia, a fim de preservar a segurança e felicidade dos filhos – dos três, quem aparece é Rodrigo West.


Mesmo quando retorna a abordar sua trajetória profissional, há algo mais franco nos seus depoimentos sobre os nove anos sem sucesso, tentando manter a imagem na mídia, atuando em novelas e musicais, e sua volta por cima com Me Chama que Eu Vou entrando na abertura de Rainha da Sucata (1990) ou depois com uma reportagem na Revista Trip e o videoclipe de Tenho o colocando em um novo patamar que a preterida música popular brasileira, muitas, vezes, tem dificuldade de alcançar por preconceito. E para quem ainda guarda esta ideia, entre as poucas propostas mais diferentes do documentário, a exemplo da representativa cena do guarda-roupa, está justamente as inserções de Magal cantando canções de fora do seu repertório, mostrando tanto seu talento quanto a sua emoção com músicas que lhe são significativas, como João Valentão de Dorival Caymmi.

Competição de Longas-Metragens Brasileiros

Duração: 70 min

Direção: Joana Mariani

Roteiro: Joana Mariani e Eduardo Gripa

Elenco: Sidney Magal, Magali West e Rodrigo West (veja + no site)

Produção: Brasil (São Paulo)

Distribuição: Vitrine Filmes

Los Fuertes (2019)


Antonio Altamirano e Samuel González em cena do filme chileno Los Fuertes (2019), de Omar Zúñiga | Foto: Divulgação (Festival de Gramado)

Em seu primeiro longa solo, o cineasta Omar Zúñiga faz do sistema de fortes de Valdívia o título, cenário e alegoria de Los Fuertes (2019). Se as encenações para turistas da batalha lá travada durante o processo de Independência do Chile abrem o filme, as fortificações servem de metáfora para a história de personagens que enfrentam as belezas e dores de abrir suas defesas para o amor.


Tudo começa quando Lucas (Samuel González) vai à cidade do litoral sul chileno fazer uma visita à irmã (Marcela Salinas) antes de viajar para o Canadá, onde vai estudar por dois anos. A estadia do arquiteto até o Carnaval se transforma ao conhecer Antonio (Antonio Altamirano, ótimo na entrega e fragilidade em cena), contramestre de um barco de pesca local e também um dos “atores soldados” do forte. A atração entre eles é mútua e o interesse é evidente para o espectador, sem que a narrativa se apresse para mostrar o desenvolvimento dessa relação.


Na realidade, fora um efeito especial bem artificial de um lobo e uma luta corpo a corpo mal encenada, Los Fuertes se distingue pela delicadeza e naturalidade com que trata sua história e personagens, desde a instabilidade no casamento da irmã em paralelo à recusa de sua trama principal em se render a estereótipos de romances homossexuais no cinema. Antonio não é aquele cara de cidade pequena temeroso por viver este relacionamento, um medo presente mais em Lucas, por causa da educação dos pais, porém, isso não é um problema entre os dois, nem tampouco qualquer demonstração de homofobia, que é mínima perto do ambiente acolhedor oferecido pela avó do primeiro e pela cumplicidade fraterna do segundo. Zúñiga sabe que não são os fatores externos, mas os internos, no conflito da diferença de pensamentos sobre o estilo de vida e o futuro que desejam, os principais inimigos para qualquer amor.

Competição de Longas-Metragens Estrangeiros

Duração: 98 min | Classificação: Livre

Direção: Omar Zúñiga

Roteiro: Omar Zúñiga

Elenco: Antonio Altamirano, Samuel González, Marcela Salinas e Rafael Contreras (veja + no site)

Produção: Chile

Distribuição: Meikincine Entertainment (vendas internacionais)



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