• Nayara Reynaud

MÚSICA PARA MORRER DE AMOR | Pulando faixas

Atualizado: 5 de Nov de 2020



No intervalo de 10 anos em que escreveu a premiada peça Música para Cortar os Pulsos (2009) e no qual levou sua obra para o cinema com Música para Morrer de Amor (2019), Rafael Gomes pode observar as várias mudanças e aquilo que permanece eterno em matéria de amor, o tema central de sua história. O autor e realizador adaptou como os relacionamentos foram afetados pelas transformações do mundo digital, incluindo o Instagram e outras redes sociais como parte integrante do flerte e da sofrência dos amantes de hoje. No entanto, tantas mais observações sobre o assunto e como os seus personagens teriam “crescido” neste período ficam de fora dessa adaptação cinematográfica charmosa, mas incompleta também na transição entre mídias e em seu objetivo paralelo de ser uma ode às canções românticas da música popular brasileira.


O longa-metragem, que é o segundo do diretor de 45 Dias Sem Você (2018), deixa clara a sua origem teatral já no início. Vividos por Victor Mendes e Mayara Constantino, que interpretaram os mesmos papéis no teatro e trabalharam com Gomes na série juvenil Tudo o que É Sólido Pode Derreter (2009), os protagonistas Ricardo e Isabela estão sentados em um palco, refletindo sobre amor através de sua representação mais famosa, justamente a peça shakespeariana Romeu e Julieta (1597), e também sobre ele em suas vidas. Contudo, isso não se restringe apenas à ambientação, pois o tom performático permanece tanto no texto quanto nas interpretações de uma trama que, desde o princípio, se pretende dramática – lembre-se do “cortar os pulsos” no título do espetáculo e do ultrarromantismo do “morrer de amor” do nome – ao acompanhar as desventuras amorosas dos dois amigos e do jovem Felipe (Caio Horowicz, visto recentemente no cinema e na TV, em Hebe, e no streaming, em Boca a Boca), enquanto cada um entra e sai da vida um do outro em cenários das regiões centrais da cidade de São Paulo.


O roteiro e a montagem abraçam uma narrativa paralela ao seguir o trio que garante um dinamismo ao longa, que pode atrair alguns espectadores da mesma faixa etária das figuras retratadas na tela, ao mesmo tempo em que suprime detalhes importantes para compreender o arco de desenvolvimento dos personagens. O resultado é uma obra sintomática daquilo que pretende apontar ao esboçar uma discussão sobre a falta de conexão emocional em um mundo tão conectado. Enquanto apresenta uma juventude sofrendo por uma necessidade de estar apaixonado(a) que suplanta a própria construção de um relacionamento para vivenciar de fato este amor, a ânsia do filme em representar clichês românticos em prosa e verso – respectivamente, nos diálogos extremamente reflexivos, porém, artificiais e rasos, e na vasta seleção musical – sufoca a vida que se desenrola entre esses momentos, sendo difícil para o público-alvo criar uma identificação real com os protagonistas e os coadjuvantes ao seu redor.


Até se encontra um bom alívio cômico em Berenice, a mãe liberal do tímido Felipe, interpretada com timing certeiro por Denise Fraga, com quem o cineasta já trabalhou como roteirista de De Onde Eu te Vejo (2016) e 3 Teresas (2013-14), mas o envolvimento fugaz da narrativa respinga também no uso da trilha sonora recheada de belas canções românticas. Assim como as participações especiais de Milton Nascimento, Fafá de Belém, Clarice Falcão, Maria Gadu e outros artistas, vários músicas são apenas figurativas, tocando por breves instantes em uma festa, e não introduzidas dentro deste contexto para expressar os sentimentos dos personagens ou, ao menos, criar momentos memoráveis como o cineasta Cameron Crowe sabia fazer bem em seus filmes, por exemplo. As poucas composições que conseguem atingir o primeiro e/ou o segundo efeito são Ela, de Tim Bernardes, na intimidade de uma rara pausa, e Não Aprendi Dizer Adeus, sucesso de Leandro e Leonardo que embala a bela cena do karaokê.


O descompasso entre aquilo que poderia ser e o que é apresentado não fica restrito à trilha e segue no retrato dos millenials e da geração Z. Espectadores estes que provavelmente se sentirão mais frustrados por isso do que pela qualidade da produção em si. Se ainda seria possível admitir, dentro do escopo das comédias românticas, certo deslocamento da realidade no recorte de classe desse mundinho descolado paulistano, no qual os personagens não precisam se preocupar com questões cotidianas como pagar aluguel ou pegar o ônibus lotado, é discrepante, até para os exemplares mais comerciais do gênero, como o romance ocupa exclusivamente a trama sem que estes jovens burgueses tenham outras aflições além das amorosas.


A princípio, surgem fagulhas disso na apresentação dessas figuras um tanto perdidas na vida: Ricardo diz querer ser marceneiro, para construir algo sólido, enquanto ainda sonha em ser escritor; Felipe é o estudante de arquitetura que fez teatro durante a faculdade e, sabe se lá o porquê, vai estagiar na Secretaria de Cultura; e Isabela é uma atriz que pergunta se está muito velha para dançar profissionalmente. O existencialismo para por aí, já que os dois rapazes se encontram no trabalho, mas ele mesmo não é uma questão para eles; e a moça mal é vista trabalhando – o pouco que se sabe deste aspecto dela vem dos diálogos com o namorado ator, Gabriel (Ícaro Silva) – e, mesmo sendo a única com algum problema familiar digno de nota, o assunto é tratado de forma passageira e superficial. Quando depois, a jovem demonstra em uma fala isolada a insatisfação de que sua avó (Suely Franco) não a tenha visto “ser alguém”, fica ainda mais evidente a falha do filme em colocar a “falta de amor” como única frustração destas gerações que, em comparação com as dos pais, cresceram sonhando em um mundo de possibilidades, mas se depararam com uma realidade que não satisfaz os seus desejos.

Música para Morrer de Amor (2019)

Duração: 100 min | Classificação: 14 anos

Direção: Rafael Gomes

Roteiro: Rafael Gomes, baseado na peça “Música para Cortar os Pulsos” de Rafael Gomes

Elenco: Victor Mendes, Mayara Constantino, Caio Horowicz, Ícaro Silva, Denise Fraga, Suely Franco, Bella Camero e Tess Amorim (veja + no IMDb)

Distribuição: Vitrine Filmes

Plataforma: NOW, Oi Play e Vivo Play, a partir de 20 de agosto de 2020



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