• Nayara Reynaud

HEBE – A ESTRELA DO BRASIL | Brilho próprio

Atualizado: Nov 2


Desde o princípio, Hebe – A Estrela do Brasil (2019) se anunciou como uma produção bem diferente do que o público se acostumou a ver nas cinebiografias do cinema nacional e seu caminho posterior ao circuito: ou seja, irem para a televisão, onde ganham uma ou outra cena a mais e são divididas em alguns poucos episódios para durar uma semana. No entanto, dentro deste multiprojeto em homenagem à icônica apresentadora Hebe Camargo, o filme e minissérie são produtos únicos e diferentes entre si, embora interligados pelo mesmo elenco e boa parte da equipe técnica – e ainda existe um futuro documentário ainda por vir, como você confere abaixo na cobertura da coletiva de imprensa. E se toda a trajetória da biografia da artista é algo que está reservado para a produção que será exibida na Globo no ano que vem, o longa de Maurício Farias tem a liberdade de fazer um recorte significativo da vida dela.

O ponto-chave na linha do tempo da biografada a ser esmiuçado aqui é os anos 80, fazendo com que o olhar para os bastidores da TV brasileira naquela década relembre, em um primeiro momento, Bingo: O Rei das Manhãs (2017), embora as abordagens e interesses sejam bem diferentes nestas duas produções. A roteirista Carolina Kotscho, já experiente no gênero com seus trabalhos no sucesso 2 Filhos de Francisco (2005) e em Não Pare na Pista: A Melhor História de Paulo Coelho (2014), encontra neste período uma fonte inestimável de temas a serem potencializados, enquanto a Hebe interpretada por Andréa Beltrão vive uma crise profissional e familiar, ainda que um ou outro personagem se apequene neste fragmento restrito. Os últimos instantes de sua passagem na Rede Bandeirantes até seu sucesso no SBT são intermeados de muita discussão com diretores, censores e seu segundo marido Lélio Ravagnani (Marco Ricca).

Assim, a força desta figura feminina eternizada nas telinhas de tantas casas no país e toda a agitação do estúdio na intensa sequência de abertura do longa são logo transportadas para as fragilidades e a solidão desta mulher na sua volta para casa de carro que introduz a sua intimidade na mansão onde mora também o seu único filho Marcello Camargo Capuano (Caio Horowicz), um jovem desconfortável com os rumos do relacionamento da mãe com o padrasto, entre outros de seus dilemas pessoais. Os distúrbios dos dois lados da vida da protagonista rendem ao roteiro a oportunidade de explorar questões importantes como a violência doméstica e a censura em um momento de dita abertura democrática enquanto Hebe defendia causas relativas à comunidade LGBT, informava sobre a AIDS que proliferava naquela década e criticava os políticos alheios à realidade da população brasileira em tempos de alta inflação e desemprego. Igual a outros lançamentos recentes da produção nacional, o filme ganha outra dimensão quando, coincidentemente ou não, a narrativa que Kotscho constrói sobre ontem reflete tanto o cenário de hoje, reverberando o ciclo de uma sociedade que se encerra nos mesmos problemas.

E se alguns podem questionar se o retrato é fidedigno à personalidade, talvez exaltando demais certo heroísmo ou as falhas da formadora de opinião que fez campanha para o então governador Paulo Maluf, a personagem ganha um corpo próprio dentro de uma obra em que o diretor e a roteirista fazem questão de construir um universo fictício espelhando o mundo real, mas não necessariamente sendo uma cópia fiel dele. Isso é exemplificado nas músicas do Roberto Carlos executadas nos discos de vinil da famosa apresentadora que era fã do cantor. Nesta narrativa, a trilha sonora não traz as gravações originais do Rei e sim versões cantadas pelo RC do filme, vivido por Felipe Rocha.

A opção liberta os atores de uma atuação mimetizada para dar asas a uma interpretação que capte o espírito dessas pessoas já tão conhecidas do público, com Beltrão sendo obviamente o destaque neste sentido, ao fugir da imitação para conduzir o espectador em uma jornada dentro da personalidade, pensamentos e sentimentos da entertainer em uma protagonista em busca de renovação para Começar de Novo. Não é a toa que Farias, que já trabalhou com a atriz e esposa no longa Verônica (2008) e na série A Grande Família (2001-14), propõe em sua direção um novo ponto de vista sobre a Hebe, filmando-a por ângulos diferentes da imagem comum dela na TV. Por trás de todo o brilho que cercava a artista, bem apropriado pela direção de arte de Luciane Nicolino dentro do conceito tipicamente oitentista do Brega & Chique (1987) e pela fotografia de Inti Briones valorizando-o através dos flares quase sempre assertivos, residem as lágrimas e as dores que ficam à sombra desta e de tantas outras figuras públicas.

A essência da Hebe

O produtor Lucas Pacheco, a atriz Andréa Beltrão, o diretor Maurício Farias e a roteirista Carolina Kotscho na coletiva de imprensa do filme Hebe – A Estrela do Brasil | Foto: Nayara Reynaud

“Foi uma longa caminhada de quatro anos, mas a gente conseguiu chegar”, afirmou o produtor Lucas Pacheco logo no início da coletiva de imprensa de Hebe – A Estrela do Brasil, realizada na semana passada (18) em São Paulo. O dono da produtora Labrador Filmes disse aos jornalistas presentes que o filme “começou de uma forma afetuosa, como ela queria, através da família”. Os familiares propuseram este projeto multiplataformas Hebe Forever, que já contou com uma exposição na capital paulista e, dentro do cinema, prevê também uma série / minissérie e um documentário, além do longa-metragem que promoveu 1267 empregos diretos, como destacou o realizador.

Em resposta ao NERVOS sobre quais os cuidados da produção em paralelo desses obras diversas, a produtora executiva Clara Ramos comentou os desafios e mudanças no meio do caminho, como o fato do longa documental, previsto para ser lançado antes, vir só depois. Ela também destacou a escolha de manter os “talentos” que eram cabeças de departamento, a exemplo do diretor de fotografia Inti Briones, que assina a função igualmente no cinema e na atração televisiva. Já o diretor Maurício Farias explicou a sua preocupação, nesta que é sua primeira experiência com cinebiografias, para que o filme e a série fossem diferentes entre si, mas integrados, algo que elevava a importância de cada decisão dele, porque “qualquer movimento afeta a outra produção”.

Enquanto isso, Carolina Kotscho frisou a liberdade que teve para trabalhar neste recorte do lançamento que chega aos cinemas nesta quinta (26). “Foi uma decisão muito difícil, mas é o momento em que a Hebe transborda”, explica a roteirista sobre a escolha pelo foco na década de 1980. A ideia dela era mostrar “o quanto o mundo mudou, era um recorte de celebração sobre o que essa mulher fez há trinta anos e, de repente, virou a mesma luta”, lamenta a autora.

Kotscho ainda ressaltou a importância do material de arquivo guardado por Leonor, uma das grandes fãs da apresentadora, assim como do acervo disponibilizado pelo sobrinho e empresário da artista, Claudio Pessutti, que frisou como a tia “sempre foi muito verdadeira” em suas opiniões. Afirmando que defender o que é certo não é uma questão de ideologia, é uma questão de caráter, Carolina declarou que, para ela, “o mais bonito da Hebe, era ser alguém que propunha um diálogo”, já que “ninguém faz mais perguntas hoje em dia”. Ela completou falando de como os depoimentos de diferentes personalidades para o documentário reforçam isso e, sobre as questões políticas, justificou que a formadora de opinião apoiou a Ditadura e depois mudou de ideia.

De qualquer modo, a roteirista esclarece que tudo colocado “na boca” da protagonista do filme foi realmente falado pela apresentadora, inclusive em suas entrevistas. Por outro lado, a produção se esquiva da pressão de um retrato totalmente fiel, especialmente quando Clara determina que eles estão “apresentando outra Hebe, mas que a essência da Hebe está lá”. Para Maurício, se trata de “uma interpretação desses personagens”, difícil pois se trata de pessoas que todo mundo já conhece, mas importante para fugir da imitação, como no caso da escolha de que todas as músicas do Roberto Carlos fossem cantadas pelo seu intérprete Felipe Rocha.

A cena do cantor com sua fã número 1 no programa de estreia dela no SBT, aliás, foi a que mais emocionou Andréa Beltrão, que confessou ter tido antes uma crise de choro quando conheceu o próprio Rei durante uma gravação do seriado A Grande Família. “A Marilda é uma prima pobre da Hebe”, brincou a atriz sobre as semelhanças de sua antiga personagem na série global com a biografada, que exigiu dela um processo de tentativa e erro para a construção da protagonista. “Assisti milhares de vídeos e, no princípio, parti para a imitação tosca em casa, para chegar em um lugar que ainda não sei qual é”, conta a intérprete, afirmando que o fato de a escolherem para o papel frente a tantas outras artistas mais parecidas a deixou livre para atuar longe da ideia de incorporá-la e sim mostrar este outro ângulo da estrela.

Hebe – A Estrela do Brasil (2019)

Duração: 112 min | Classificação: 14 anos

Direção: Maurício Farias

Roteiro: Carolina Kotscho

Elenco: Andréa Beltrão, Marco Ricca, Caio Horowicz, Danton Mello, Danilo Grangheia, Ivo Müller, Karine Teles, Claudia Missura, Gabriel Braga Nunes, Daniel Boaventura, Stella Miranda, Felipe Rocha e Otávio Augusto (veja + no IMDb)

Distribuição: Warner Bros. Pictures

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