• Nayara Reynaud

MACABRO | Um bom policial (só nas aparências)

Atualizado: há 8 horas



Com uma filmografia bastante dedicada aos documentários, em que teve seus êxitos em Estamira (2004) e Curumim (2016), mas com passagens também pela ficção, como no drama Paraísos Artificiais (2012), o diretor Marcos Prado tem seguido um caminho que une ambas as frentes em seus dois últimos trabalhos que estampam o selo de “inspirado em fatos reais” – com o perdão da redundância. Depois de dirigir alguns episódios da dramatização da Operação Lava-Jato na série O Mecanismo (2018-), o cineasta apresenta Macabro (2019), filme que ficcionaliza o caso dos “Irmãos Necrófilos”, como ficaram conhecidos os assassinatos em série ocorridos em meados dos anos 1990 na Serra dos Órgãos, em Nova Friburgo, região serrana do Rio de Janeiro, das quais os irmãos Ibraihim e Henrique de Oliveira foram acusado. Crimes que assustaram a comunidade local pela sua brutalidade e, especialmente, por uma característica peculiar envolvida: a necrofilia cometida com o estupro das vítimas já mortas.


Como é possível perceber nesse rápido panorama de sua carreira, trata-se de um prato cheio para um realizador sempre interessado por histórias de cunho policial, que tem o seu mergulho no gênero amplificado pela escolha capital do roteiro de Lucas Paraizo e Rita Gloria Curvo ao criar o seu protagonista ficcional para conduzir o ponto de vista desta narrativa. Assim, o público é apresentado primeiro a Teo (Renato Góes), justamente em uma ação na qual o sargento do BOPE, grupo de elite da polícia fluminense, mata um morador inocente em uma comunidade da cidade do Rio de Janeiro. Para abafar a repercussão e investigação sobre o seu ato, o agente regressa a região rural onde cresceu e na qual, de fato, aconteceram os crimes, para comandar o inquérito e as buscas pelos irmãos acusados como autores, que na trama são chamados de Inácio (Diego Francisco) e Matias (Eduardo Tomaz).


Além de servir de justificativa para levar o personagem para o centro da ação em si, o prólogo introduz nessa violência policial, uma discussão sobre seu cunho racista que se estende para o próprio caso real e o tratamento dado a estes dois irmãos negros, desde a infância naquela comunidade ao desenrolar da caçada por eles. No entanto, ao mesmo tempo em que os diálogos frisam isso, através do protagonista em aparente redenção ou de seu assistente Everson (Guilherme Ferraz), as representações contradizem o discurso. Isso começa pelo exagero na apresentação de Tião (Flávio Bauraqui) realizando seus rituais religiosos, conferindo uma “aura demoníaca” à figura do pai dos acusados que, de fato, tinha um histórico de problemas com alcoolismo e de agressões à esposa e aos garotos.


Aliás, essa violência doméstica tem um fator importante na psicologia criminal dos irmãos, já que existe certo padrão de repetição do que eles observavam e sofreram quando crianças ao se observar que mulheres negras da região, tais como a mãe deles, eram o alvo preferido. O filme, porém, simplifica as motivações dos personagens – ou, pelo menos, de Ibraihim, pois a narrativa levanta a dúvida se Henrique não foi condenado injustamente – como meros atos de vingança ao colocar as vítimas da ficção como as esposas e filhas brancas dos algozes deles, que dilui a complexidade de uma história que, por si só, traz o racismo e machismo incrustados na sociedade. Essa tinta a mais também aparece no papel da Igreja, personalizado na figura questionável do padre Augusto (Osvaldo Mil), sendo que a sua contribuição está muito mais no imaginário criado de que os dois foragidos tinham um pacto com o diabo, e também no destino dado aos pais deles na trama, diferente da realidade onde a família saiu da região com medo de represálias.


São pequenas “liberdades poéticas” comuns em qualquer dramatização da realidade, mas que aqui são carregadas de um maniqueísmo que contradiz a tentativa do roteiro em construir personagens ambíguos e um debate profundo, tal qual Paraizo consegue mais eficientemente em Aos Teus Olhos (2017). Isso se acumula a ponto de pesar no arco de desenvolvimento falho de Teo, cuja possível redenção se transforma em regressão aos velhos erros, seja os que o público já conhecia a princípio ou aqueles que são revelados em seu passado. Um filme não necessariamente endossa o pensamento ou os atos de seu protagonista se está os tratando de forma crítica; o que parece ser a intenção inicial de Macabro ao apontar as várias culpas de uma sociedade que cria e reproduz os vários vilões desta narrativa, sejam com as problemáticas já apontadas ou nas falhas do sistema carcerário na recuperação de menores, por exemplo, mas que, por causa dessas abordagens equivocadas ao longo dele, prejudica a integralidade da mensagem entregue ao espectador, podendo gerar interpretações errôneas – o próprio Marcos Prado já viu isso acontecer como produtor da franquia Tropa de Elite.


Dito isto, é importante salientar que o longa figura como uma boa produção nacional, especialmente em termos técnicos, enveredando pelo cinema de gênero, não só o policial, mas também flertando com o terror. A direção é muito eficiente na criação dessa atmosfera de suspense, também sustentada pelo bom elenco, e a fotografia de Azul Serra se aproveita bem das peculiaridades do cenário serrano para isto – aliás, a título de curiosidade, a paisagem da Serra dos Órgãos também rendeu belos planos no recente Unicórnio (2017). Uma pena que o ótimo quadro é emoldurado por escolhas narrativas que desfocam o caráter excepcional e os problemas endêmicos que envolvem naturalmente o caso dos “Irmãos Necrófilos” e seriam suficientes para conduzir um filme.


OBS: se quiser conhecer mais sobre o caso real, recomendo ler esta reportagem sobre o assunto, realizada pela Marie Declercq no site da Vice

Macabro (2019)

Duração: 100 min | Classificação: 14 anos

Direção: Marcos Prado

Roteiro: Lucas Paraizo e Rita Gloria Curvo

Elenco: Renato Góes, Amanda Grimaldi, Laila Garin, Guilherme Ferraz, Diego Francisco, Eduardo Tomaz, Juliana Schalch, Flávio Bauraqui, Paulo Reis, João Pydd, Claudia Assunção, Osvaldo Mil e Thelmo Fernandes (veja + no IMDb)

Distribuição: Pandora Filmes



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