• Nayara Reynaud

THE PLOT AGAINST AMERICA | A quase história que se repete

Atualizado: Set 18



Quando o já renomado escritor norte-americano Philip Roth (1933-2018) publicou seu romance ucrônico Complô Contra a América (2004) há mais de 15 anos, não poderia imaginar que a realidade de seu país e do mundo poderia chegar a níveis tão extraordinários quanto o da história alternativa que propõe no livro. Relembrando a sua própria infância em um bairro judeu de Newark, cidade de Nova Jersey onde cresceu nos turbulentos anos 1940, o autor imagina um Estados Unidos em que Charles Lindbergh fosse o presidente, em vez de Franklin D. Roosevelt, no início daquela década. Uma mudança e tanto, já que o piloto dos correios que se tornou um herói nacional com o primeiro voo transatlântico solo, depois de tragédias pessoais, se destacaria como uma das vozes que defendia a neutralidade da nação durante a II Guerra Mundial – mais que isso, demonstrava certa simpatia pelo regime nazista e, como outras figuras importantes da época, a exemplo do industrial Henry Ford, faziam declarações antissemitas.


Se a adaptação da obra literária para a TV neste momento, por si só, já encontraria ecos no polarizado e conturbado cenário contemporâneo dos EUA – e que, infelizmente, o público brasileiro também irá se relacionar –, o fato dela estar nas mãos de David Simon e Ed Burns contribuiu para a minissérie The Plot Against America (2020) mostrar uma assustadora semelhança com a realidade. A dupla responsável por uma das séries mais elogiadas da televisão norte-americana, The Wire (2002-08), pela primeira vez adentra em um trabalho de raízes tão ficcionais, mas é justamente o senso habitual de realismo que os dois roteiristas e produtores trazem para suas criações o responsável por não transformar esta especulação histórica em mera fantasia. E encontrando as bases para justificar que tal premissa seria plausível dentro do clima de pós-Depressão e intolerância latente naquele período, a atração da HBO tem condições de se destacar por sua leitura crítica da atualidade.


Aliás, em um período de tantas produções distópicas na literatura, cinema e TV, antes mesmo que essas (re)imaginações encontrassem tantos ecos na realidade, The Plot Against America se diferencia de muitas obras do gênero, por se preocupar em como a opressão pode ir se orquestrando gradualmente, em vez de iniciar já com a tortura de viver sob ela. Assim, em vez de focar na violência em si, volta-se aos mecanismos de pensamentos e ideias que levam a ela, através dos discursos de ódio que vão ganhando cada vez mais alcance, se recrudescendo e materializando de forma política. Seguindo esse caminho, evita-se vilanizar Lindbergh, ao nível de transformá-lo no “mal figurado em um único homem”, mas sim mostrar como uma figura mítica, popular e populista, chegando ao poder com posicionamentos questionáveis pode servir de validador para pensamentos, especialmente preconceituosos, adormecidos na sociedade, e consequentemente revelar a fragilidade da democracia em ser suprimida por regimes totalitários.



De tal modo, Roth escolhe retratar e versar sobre aquele momento através de seus olhos de criança, enquanto Simon e Burns aprofundam as diferentes reações dos membros da família do menino, aqui chamado de Philip Levin (Azhy Robertson, o filho de História de um Casamento, filme de 2019) para levantar questionamentos morais ao espectador sobre as ações que tomamos em tempos difíceis. O pai do garoto, Herman Levin (Morgan Spector, que participou da série Homeland em 2018), é um judeu não necessariamente muito religioso, mas um idealista que acredita nos valores fundamentais dos Estados Unidos da América, enquanto o seu sobrinho Alvin (Anthony Boyle, de Tolkien, longa de 2019), com quem o tio tem uma difícil relação, parte para o combate direto, se alistando pelo país vizinho, o Canadá. Já a esposa e mãe zelosa Elizabeth, ou simplesmente Bess (Zoe Kazan, que já trabalhou com os showrunners em The Deuce, 2017-19), conhecendo melhor como é ser judia entre os gentios, observa os acontecimentos de maneira reticente, em uma preocupação crescente com seus familiares em uma resistência quase silenciosa.


Há ainda a irmã dela, a tia Evelyn Finkel (Winona Ryder, atualmente também na série Stranger Things, de 2016), uma personagem complexa cuja carência afetiva a leva para um caminho sem volta quando decide ficar ao lado do rabino Lionel Bengelsdorf (John Turturro, recentemente em outra produção da casa, The Night Of, de 2016), líder religioso da comunidade local que, tendo a sua vaidade pessoal alimentada, apoia o candidato e depois presidente Lindbergh (Ben Cole), apesar das declarações antissemitas. Sob a liderança dos dois, programas de aculturação são implementados, com Sandy (Caleb Malis, em seu primeiro trabalho de grande vulto), o irmão mais velho de Philip, sendo o garoto-propaganda e melhor exemplo dessa absorção cultural que visa apagar suas raízes judaicas, enquanto fazem vistas grossas à perseguição crescente. Neste panorama, até os mais inocentes e assustados, como o caçula dos Levin, são passíveis de erros que podem desencadear consequências graves.


Contando com um grande elenco para sustentar esses dilemas pessoais e coletivos, quem mais se destaca é Zoe Kazan, justamente na discrição de sua atuação, alicerçada em um minimalismo que vai se potencializando ao longo da minissérie. Os medos da personagem afloram na tensão iminente durante a viagem a Washington, no terceiro episódio – o ponto alto das partes 1 a 3, dirigidas por Minkie Spiro –, e suas ações resolutas, mesmo em meio ao caos, vão ganhando espaço até a derradeira Parte 6 – esta comandada por Thomas Schlamme, que dirige do quarto ao sexto capítulo –, em particular na exasperante cena do telefone, que protagoniza com o jovem Jacob Laval, assinando de vez uma interpretação digna de prêmios.


A narrativa, por sinal, traz um ritmo lento para contextualizar a sua reimaginação da época, acelerando no aflitivo último episódio, que precisa atar muitos nós dessa trama, por vezes, passando superficialmente sobre alguns detalhes e amplificando as teorias da conspiração relativas ao rapto do filho dos Lindberghs, que estão nas páginas de Roth. No entanto, o roteiro é feliz em não acatar todas as resoluções fáceis do autor e deixar a ambiguidade ao público, aproveitando-se de problemas nacionais recorrentes, a exemplo das suspeitas de fraudes nas eleições. Aliás, em uma minissérie que reverbera um passado anterior ao mostrado, com ideais dos Confederados não totalmente derrotados na Guerra de Secessão, e o futuro que agora é presente, com o “America First” de outrora sendo o slogan da era Trump, a opção de Simon e Burns de mudar o final não só condiz com os tempos mais cínicos de hoje, mas explicita a sina cíclica da História em deixar marcas que não são facilmente apagadas e ressurgem perigosamente com o tempo.

The Plot Against America (The Plot Against America, 2020)

Minissérie ficcional | 6 episódios, de 16 de março a 20 de abril de 2020

Canal: HBO | Exibição: segundas, às 22h

Horário alternativo: veja os horários das reprises no site | Plataforma: minissérie completa na HBO GO (streaming)

Criação: David Simon e Ed Burns, baseado no livro “Complô Contra a América” de Philip Roth | Roteiro: David Simon, Ed Burns e Reena Rexrode

Direção: Minkie Spiro e Thomas Schlamme

Elenco: Morgan Spector, Zoe Kazan, Azhy Robertson, Caleb Malis, Anthony Boyle, Winona Ryder, John Turturro, Michael Kostroff, David Krumholtz, Jacob Laval, Kristen Sieh, Ben Cole e Caroline Kaplan (veja + no IMDb)



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