• Nayara Reynaud

SPIN OUT | Personagens e uma série em busca de uma segunda chance

Atualizado: 28 de Set de 2020



Se até as transmissões das competições de patinação artística demonstram que nem só de beleza, mas também de dor é feito esse esporte, não chega a ser surpreendente o fascínio da ficção em explorar a perfeição estética e o tom dramático da modalidade através de diversas abordagens na tela. A mais recente delas está perdida no meio do catálogo da Netflix, na série estrelada por Kaya Scodelario, Spin Out (Spinning Out, 2020) – cujo destino, selado precipitadamente pelo serviço de streaming, é algo a ser discutido mais a frente neste texto.


Visando aquele público que outrora assistiu a Sonhos no Gelo (2005) na Sessão da Tarde e gosta de romances no rinque como os da franquia Um Casal Quase Perfeito, porém, procura por um olhar mais realista sobre a pressão que os atletas profissionais sofrem, seja com as questões de classe que perpassam a cinebiografia norte-americana Eu, Tonya (2017) ou os transtornos alimentares debatidos no drama sueco Minha Irmã Magra (2015), a produção original da plataforma encontrou a sua voz distinta nesse rol de títulos sobre o tema – veja outros filmes no nosso Guia Cinéfilo Olímpico de Inverno – no tratamento que dispensa sobre a saúde mental dentro do esporte de alto rendimento.


Esse enfoque nem sempre se equilibra bem com o melodrama adolescente típico de séries teen. Contudo, a criadora Samantha Stratton, que usa a sua própria experiência anterior na patinação competitiva para assinar sua primeira produção como showrunner, depois de ser roteirista em Mr. Mercedes (2017-), State of Affairs (2014-15) e outras, traz um ritmo cativante para engajar a parcela mais jovem dos espectadores e, igualmente, um dimensionamento maior dos personagens em relação ao que geralmente se vê em atrações do gênero. Por vezes, os transtornos psicológicos são trabalhados de forma leviana na ficção – dentro do mesmo serviço, há a romantização do suicídio em 13 Reasons Why (2017-20), por exemplo –, mas Spin Out trata a bipolaridade, além de outras problemáticas abordadas ao longo dos episódios, em toda a sua complexidade, sem glorificação ou condenação, mas nas dificuldades do dia-a-dia.


Assim, todo o conhecimento de Kaya Scoledario adquiriu na sua estreia em Skins (2007-13) ao interpretar uma adolescente com transtornos mentais é empregado aqui para viver Kat Baker, uma talentosa patinadora de 21 anos de idade, com uma carreira de altos e baixos que, desde um acidente grave em uma apresentação, perdeu a confiança de fazer seus saltos mais difíceis no gelo. Soma-se a isso o fato de toda a sua família girar em torno do esporte e sofrer, direta ou diretamente, por causa do transtorno bipolar.



No papel que mais exige ir aos limites da personagem, January Jones, do drama Mad Men (2007-15), faz Carol Baker. À primeira vista, uma típica “mãe de atleta” exigente demais, ainda mais por também ter competido na modalidade até ficar grávida dela, até que se revelam os sintomas de sua bipolaridade. Um diagnóstico também compartilhado pela filha mais velha, que, apesar de recorrer à automutilação em alguns momentos, ao menos tenta tomar a medicação regularmente, diferente de sua figura materna. Enquanto isso, a caçula Serena (Willow Shields, da franquia Jogos Vorazes), igualmente patinadora, é atingida pelos efeitos colaterais de ambas. Com poucos recursos, pais ausentes e tendo essa instável mãe solteira como responsável, as irmãs criaram uma relação de proteção mútua que é abalada no decorrer dos acontecimentos da temporada, mas é essa dinâmica familiar disfuncional das Baker que move, essencialmente, a série, por mais que a narrativa se divida entre as facetas competitiva e romântica.


Estas se encontram quando Kat, sem perspectivas de prosseguir a sua carreira, ganha uma segunda chance ao lhe oferecerem a oportunidade de disputar na patinação em dupla, formando o seu par com Justin Davis (Evan Roderick, do seriado Arrow, 2012-20), cujo pai (David James Elliott) é dono do resort de ski da cidade em Idaho onde treinam. Sim, você pode apostar no clichê da atração entre a garota e o playboy, mas o roteiro trata este “pobre menino rico” com mais substância do que o comum, com a perda materna e suas questões paternas. O mesmo ocorre com outras coadjuvantes femininas: a amiga da protagonista que enfrenta uma grave lesão, Jenn Yu (Amanda Zhou); a madrasta dele lidando com seu passado, Mandy (Sarah Wright); e os dilemas da treinadora dos dois, a russa Dasha Fedorova (Svetlana Efremova) – diferentemente de Marcus Holmes (Mitchell Edwards), cujo arco pessoal de racismo e a relação com a personagem principal são fechados com resoluções fáceis.


Por sua vez, o maior feito da direção regular, intercalada por Matt Hastings, Elizabeth Allen Rosenbaum, Norma Bailey e Jon Amiel, é atingir certa naturalidade nas rotinas no gelo, seja nos treinamentos ou competições, com o uso misto de enquadramentos, patinadores profissionais como dublês e CGI, se comparada à artificialidade computadorizada de algumas cenas em Eu, Tonya, por exemplo. Fato é que a série demonstrou, em seus 10 episódios, potencial suficiente para seguir em frente, só aparando as suas arestas. No entanto, ela não terá essa chance, pois foi sumariamente cancelada após apenas um mês de sua estreia.


Quem acompanha a TV norte-americana antes da era do streaming, sabe que os cancelamentos repentinos de atrações são costumeiros, mas o seu grande número entre as produções originais da Netflix, ultimamente, leva a um questionamento das estratégias da companhia. Massivamente, o serviço despeja uma enorme quantidade de conteúdo aos seus assinantes – atualmente, quase todo dia estreia uma nova produção, seja de ficção, documental, animação ou reality. Mas, entre as séries de qualquer gênero, poucas são aquelas que ganham uma segunda chance, seja com mais uma temporada ou, ao menos, mais episódios para encerrar o seu arco, enquanto a empresa destina quase toda a sua atenção a um punhado de títulos de apelo popular – a exemplo da já citada 13 Reasons Why, esticada desnecessariamente por quatro temporadas.


O caso de Spin Out foi ainda mais sensível, pois o seu lançamento em pleno Ano Novo, sem nenhuma divulgação, e seu cancelamento no último dia 4 de fevereiro, sob a justificativa de baixa de audiência – números de visualizações estes aos quais o público e a imprensa não têm acesso, diga-se de passagem –, dá a entender que a Netflix não queria que a série vingasse de jeito nenhum. Com as incertezas de agora sobre os rumos da produção audiovisual em um mundo com ou pós-pandemia, a situação fica ainda mais complicada. De qualquer forma, apesar do final aberto em relação à competição, que, por si só, poderia render mais uma ou duas temporadas acompanhando o ciclo olímpico de Kat e Justin, e aos desdobramentos de várias subtramas, o encerramento que o espectador tem, até então, é significante ao valorizar a essência da obra: essas três mulheres de diferentes gerações que, apesar das dificuldades de relacionamento entre si, sabem que, quando necessário, podem contar uma com a outra, como uma família.


P.S.: ainda sobre essa questão dos cancelamentos, avalanche de conteúdo e invisibilidade dos algoritmos na Netflix, fica aqui a recomendação deste artigo, em inglês, do Adam White no The Independent

Spin Out (Spinning Out, 2020)

Série ficcional | 1ª temporada: 10 episódios, a partir de 1 de janeiro de 2020

Plataforma: Netflix (streaming)

Criação: Samantha Stratton | Roteiro: Samantha Stratton, Paul Keables, Elizabeth Peterson, Leon Chills, Jenny Lynn, Elizabeth Higgins Clark e Lara Olsen

Direção: Matt Hastings, Elizabeth Allen Rosenbaum, Norma Bailey e Jon Amiel

Elenco: Kaya Scodelario, January Jones, Willow Shields, Evan Roderick, Amanda Zhou, Mitchell Edwards, Will Kemp, Svetlana Efremova, Sarah Wright Olsen, David James Elliott, Kaitlyn Leeb, David Weir, Zahra Bentham, Jamie Champagne, Jon Champagne e Charlie Hewson (veja + no IMDb)



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