• Nayara Reynaud

DIX POUR CENT – 4ª temporada | O último cachê


Camille Cottin, Stéfi Celma, Fanny Sidney, Nicolas Maury, Laure Calamy, Thibault de Montalembert, Anne Marivin, Grégory Montel, Assaad Bouab e Liliane Rovère na foto de divulgação da quarta e última temporada da série de comédia francesa Dix pour Cent (2015-20)

“Quando nem tudo está bem, sempre haverá o cinema”. A frase com a qual se encerra a primeira temporada de Dix pour Cent (ou Call My Agent! em inglês, 2015-20), revela indiretamente a sensação de se acompanhar a jornada dos profissionais de uma agência de talentos nesta série francesa, que agora chega ao fim em sua quarta leva, exibida em outubro passado na França e lançada na plataforma Netflix nesta última quinta (21). Trata-se de um sentimento particularmente nostálgico no período atual, em que a clássica experiência cinematográfica física é impossibilitada pelo cenário pandêmico, ao mesmo tempo em que o cinema chega cada vez mais ao público por outros meios para servir como uma fuga de uma difícil realidade ou um mergulho mais aprofundado nela. O encontro da televisão com o mundo da Sétima Arte acontece através de um olhar para os bastidores do showbusiness francês nesta produção do canal France 2, inspirada nas experiências como agente de Dominique Besnehard e criada por Fanny Herrero, cujo marco e sucesso local foi agraciado com uma indicação ao Emmy Internacional em 2016 e importado depois a vários países por meio do citado serviço de streaming e também adaptações internacionais, como as versões canadense e turca, entre outras planejadas.


A história gira em torno da Agência Samuel Kerr, que cuida da carreira de prestigiados atores, diretores e roteiristas franceses, tendo como ponto de partida a morte do fundador que lhe dá o nome. Através do olhar da novata Camille Valentini (Fanny Sidney), que vai à Paris em busca de um emprego e de uma aproximação com o pai, Mathias Barneville (Thibault de Montalembert), o mais ambicioso e manipulador dos sócios/agentes da empresa e que esconde a paternidade da sua filha bastarda, a comédia apresenta ao telespectador a rotina no escritório da ASK e a vida pessoal de seus funcionários, que também incluem a implacável Andréa Martel (Camille Cottin, excelente na personagem mais marcante da série), o oposto Gabriel Sarda (Grégory Montel) e a experiente Arlette Azémar (Liliane Rovère), além dos assistentes Hervé (Nicolas Maury, impagável) e Noémie (Laure Calamy, cujo papel cresce bastante ao longo das temporadas) e da recepcionista e aspirante a atriz Sofia Leprince (Stéfi Celma). Enquanto isso, cada episódio traz a participação especial de, pelo menos, uma estrela nacional, ou até internacional, interpretando uma versão de si mesma, sem medo de satirizar a imagem pública construída em seu entorno.


A primeira temporada acompanha a tentativa dos quatro sócios de lidar com os problemas fiscais da agência, descobertos após o falecimento de Samuel, enquanto Andréa se envolve justamente com a auditora fiscal Colette Brancillon (Ophélia Kolb). Na segunda, em que a estrutura procedural do “caso da semana” permanece, mas o roteiro mais intrincado estende seus desdobramentos nos episódios seguintes, Mathias está em crise na vida pessoal, Gabriel teme perder sua namorada e surge, então, o milionário Hicham Janowski (Assaâd Bouab) como tábua de salvação para a empresa, mas tormento para alguns personagens, especialmente Martel. A série atinge seu ápice na terceira, na qual os agentes procuram sair das mãos do chefe controlador e todos os funcionários guardam sua cota de segredos uns dos outros, à medida que o humor autodepreciativo na participação de grandes astros se intensifica, a exemplo de Jean Dujardin com dificuldades para sair do personagem, Monica Bellucci não conseguindo suportar sua solteirice e das confusões criadas pelo ritmo workaholic de Isabelle Huppert.


Depois do clímax do “terceiro ato”, esta quarta e última temporada não consegue manter o mesmo nível, vindo como um melancólico epílogo. O problema não é necessariamente um final de nota triste em uma comédia, nem uma visão imbuída de um cinismo realista sobre a área, porém, como, na construção disso, se perdeu um pouco do espírito da série. O arco central desta fase observa a saída de um dos sócios e a chegada de uma nova, vinda da concorrência, Élise Formain (Anne Marivin), alterando o cotidiano da ASK, com uma tensão sempre no ar causada pela desconfiança e, depois, certeza de que manipulações maquiavélicas estão sendo realizadas, mas sem as nuances e o humor que sempre acompanhava o desenvolvimento dos personagens, mesmo aqueles de atitudes mais questionáveis como Mathias e Hicham, enquanto paira certa apatia na reação dos protagonistas, com desfechos que, por vezes, não condizem tanto com tudo que o público conhece sobre eles dos anos anteriores.


A razão para isso, provavelmente, se encontra na saída da showrunner Fanny Herrero, pois é perceptível que o texto não tem a mesma finesse de antes e até as entradas dos convidados famosos, que incluem de Charlotte Gainsbourg a Jean Reno, trazem um tom mais laudatório, com Sandrine Kiberlain sendo uma rara exceção em uma trama mais disposta a zombar de si mesma. Questões pertinentes à indústria audiovisual são trazidas à tona por estas participações, como o preconceito com atores de apelo popular nas figuras de Mimie Mathy e Franck Dubosc, contudo, é impossível não comparar como o importante tema do machismo no cinema é criticado de forma esperta e criativa no ótimo final da segunda temporada, com Juliette Binoche no Festival de Cannes, e acaba caindo em um discurso mais expositivo e não tão natural no quinto episódio desta quarta fase, apesar da simpatia de Sigourney Weaver. Vale frisar que há rumores alimentados pelos produtores de um possível filme que seguisse a história da série: quem sabe, uma forma de encerrar o ciclo de Dix pour Cent de maneira mais condizente aos agentes que o público se afeiçoou tanto, até mais do que as estrelas da tela.

Dix pour Cent (Dix pour Cent, 2015-20)

Série | 4ª temporada: 6 episódios, a partir de 21 de janeiro de 2021 (no Brasil)

Plataforma: Netflix (streaming)

Criação: Fanny Herrero, baseada na ideia original de Dominique Besnehard, Michel Vereecken, Julien Messemackers e Fanny Herrero | Roteiro: Victor Rodenbach, Vianney Lebasque, Frédéric Rosset, Jérôme Bruno, Edgard F. Grima, Marc Fitoussi, Judith Havas, Sabrina B. Karine, Angela Soupe, Cécile Ducrocq, Hélène Lombard e Nicolas Mercier

Direção: Marc Fitoussi e Antoine Garceau

Elenco: Camille Cottin, Thibault de Montalembert, Grégory Montel, Liliane Rovère, Fanny Sidney, Nicolas Maury, Laure Calamy, Stéfi Celma, Anne Marivin, Ophélia Kolb e Assaad Bouab (veja + no IMDb)



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