• Nayara Reynaud

AUTO POSTO | Uma comédia com o tanque ainda cheio

Atualizado: Set 18



Enquanto a produção nacional, especialmente de gênero, vai galgando o seu espaço aos poucos no streaming, a TV por assinatura ainda é o lugar onde as séries brasileiras encontram vazão e oportunidade para o setor. A Lei da TV Paga, promulgada em 2011, hoje alvo de várias discussões em um mercado muito modificado pela digitalização e globalização de tais serviços de disponibilização de conteúdo, foi importante para fomentar a indústria audiovisual no país ao longo da última década, além das já tradicionais e bem-sucedidas telenovelas nas emissoras abertas e do cenário cíclico do cinema nacional. A obrigação de cumprir uma cota de conteúdo brasileiro fez surgir uma demanda nos canais pagos por atrações, em particular de formato seriado, que incentivou diversas produtoras brasileiras, sejam conceituadas ou independentes, a investir em novas ideias.


Este longo processo, com muitos tropeços – lembre-se também que só a nata da produção internacional é exportada e que não se vê muito dos produtos midiáticos medianos de outros países –, agora resulta em títulos nacionais estreando na Netflix, a plataforma de streaming que mais investe em produções locais até então. Contudo, em um momento no qual o olhar do público – e de nós, críticos, que ajudamos a orientar este olhar – fica extremamente preso aos catálogos desses serviços digitais, é preciso voltar-se também para a televisão, principal fonte de subsistência de uma indústria audiovisual brasileira sob ataques daqueles que deveriam defendê-la. Enfim, toda essa introdução é para situar o cenário em que uma série interessante e com potencial como Auto Posto (2020) é exibida no canal pago Comedy Central, sem ganhar tanto os holofotes da mídia especializada e alcançar toda a audiência que poderia, apesar de neste último quesito ter se registrado resultados positivos para a emissora.


Criada e dirigida por Marcelo Botta, que comandou algumas temporadas dos programas humorísticos Furo MTV (2009-13) e do Comédia MTV (2010-12) e agora se arrisca em sua primeira ficção narrativa, a comédia é ambientada no posto de gasolina Amigos do Nelson, localizado no fictício bairro do Salgado, em uma cidade brasileira nunca citada e que poderia ser qualquer uma – a locação, no entanto, é no município de Paraibuna, em São Paulo. A história acompanha a relação entre o dono do lugar, Nelson Lopes (Walter Breda, em seu primeiro protagonista na TV), um cantor cujo sucesso ficou esquecido décadas atrás e que chefia o estabelecimento com pouca astúcia e tino para os negócios, e seus funcionários, além de outras pessoas que acabam fazendo parte da rotina deste cenário. Tem o quase gerente “puxa-saco” Esdras (Lucas Frizo); a frentista sem papas na língua Suellen (Micheli Machado), Adilson (Pedro Dix) e sua brisa na outra bomba, junto de seus experientes colegas Bernadete (Neusa Borges) e Osíris (Valdir Sete Belo); a “psicóloga” Jennifer (Camilla Veles) e os gêmeos funkeiros/trapeiros Maicon e Douglas (Luan e Raony Iaconis) no lava-rápido; o artístico Wesley (Lui Vizotto) e a desconfiada Sandra (Isabel Wolfenson) na loja de (in)conveniências; o borracheiro filósofo Mestre (Nill Marcondes); o segurança proativo Augusto (Robson Nunes) e o oposto Batata (Carlos Ladessa); e ainda o ex-participante de reality show sem teto Plínio (Lucas Padovan), do fiscal corrupto Roberval (Paulo Tiefenthaler) e sua trainee “caxias” Joana (Marina Merlino).



O ponto de partida para a narrativa é a chegada da filial de uma moderna rede de postos de combustíveis bem em frente ao Amigos do Nelson, que é apenas aludida pelo texto, mas sem ser mostrada, gerando um efeito cômico maior sobre essa dura concorrência para o lugar parado no tempo. E tudo isso é registrado por uma equipe de filmagens contratada pelo proprietário para o aniversário do estabelecimento, que serve como justificativa do roteiro para o uso da linguagem do mocumentário, termo retirado do inglês mockumentary para falso documentário, que ficou mais conhecida pela audiência com a sitcom The Office – Vida de Escritório (2005-13), a versão norte-americana da original britânica realizada por Greg Daniels, que depois utilizaria a mesma abordagem em Parks and Recreation – Confusões de Leslie (2009-15). Além da opção estética, os absurdos ao estilo Michael Scott deste chefe levam a uma comparação inevitável do público com a famosa série estrangeira, porém, a vantagem de Auto Posto é a familiaridade que traz em seu retrato de um ambiente de trabalho.


O principal trunfo da série está em seus personagens, tipos interessantes não somente naquilo que pode ser extraído de material cômico deles, mas pelo fato de formarem um painel diferente do que geralmente estampa produções nacionais e, assim, atingir uma camada da população pouco representada nas telas. Isso não se resume a suas profissões, já que a identificação e empatia vêm igualmente pelos detalhes de suas caracterizações como, por exemplo, ser mãe solteira, evangélico ou o gosto musical pelo funk e trap, que figuram ao lado de Moacyr Franco na trilha sonora – aliás, vale frisar a boa estratégia de divulgação da canção original Bumbum Ostentação na programação da MTV. E, em uma acepção mais profunda, no subtexto desse mosaico de trabalhadores de um local em crise, muitos deles jovens sem perspectiva de crescimento no emprego e que se agarram às primeiras oportunidades de sucesso rápido que lhe aparecem, há um reflexo do Brasil nesta segunda metade dos anos 2010, que também pode ser entendido como nada mais do que a ampliação de uma sina que sempre fez parte da vida das pessoas periféricas.


Assim, por meio do humor, o texto cutuca em várias questões urgentes no país, às vezes, até por acaso, a exemplo do episódio da quarentena por problemas sanitários, gravado antes da pandemia. Neste sentido, só as participações dos policiais, interpretados por Felipe Torres e Livia La Gato, fogem do tom, pois a seriedade do tema da abordagem policial destoa das piadas destas cenas, deixando-as tanto sem graça quanto, por vezes, insensíveis à problemática. É um pouco do desconforto que se observa justamente na primeira temporada de The Office, que se acerta depois, enquanto a série nacional já é bem mais equilibrada em seu tratamento satírico nesta leva inicial.


Isso quer dizer que há potencial para a produção afinar seu humor e render ainda mais em uma próxima temporada. Nem tanto pelo ambiente do posto em si, que pode se esgotar, apesar da promessa de vingança de um achacador aliado que se sente traído no último episódio. Mas, principalmente, ao explorar mais destes tipos humanos, tão bem defendidos pelo elenco que mistura veteranos e novos atores, e seus absurdos críveis – até porque 2020 está aí para desafiar a nossa lógica narrativa da realidade.

Auto Posto (2020)

Série ficcional | 1ª temporada: 10 episódios, de 9 de junho a 11 de agosto de 2020

Canal: Comedy Central | Exibição: terças, às 22h

Horário alternativo: veja os horários das reprises no site | Plataforma: temporada completa no NOW

Criação: Marcelo Botta | Roteiro: Letícia Bulhões Padilha, Felipe Berlinck e Elena Altheman

Direção: Marcelo Botta

Elenco: Walter Breda, Paulo Tiefenthaler, Micheli Machado, Nill Marcondes, Lucas Frizo, Camilla Veles, Lui Vizotto, Luan Iaconis, Raony Iaconis, Isabel Wolfenson, Pedro Dix, Lucas Padovan, Marina Merlino, Robson Nunes, Neusa Borges, Carlos Ladessa, Valdir Sete Belo, Felipe Torres, Livia La Gato e Rita Cadillac (veja + no IMDb)




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