• Nayara Reynaud

HOMECOMING: A FILM BY BEYONCÉ | Uma história pessoal e cultural

Atualizado: Jul 3



No ano passado, a própria Beyoncé e seus fãs na plateia clamaram que o Coachella deveria passar a se chamar “Beychella”. O que poderia ser apenas pretensão de uma ou idolatria dos outros, é justificado quando se assiste ao registro das duas apresentações históricas da cantora, em finais de semana diferentes da edição de 2018 do evento californiano, além de toda a sua preparação, que são condensadas no documentário musical Homecoming: A Film by Beyoncé (2019). A produção da Netflix, dirigida pela própria artista e por Ed Burke, evidencia não só o caráter único desses shows, diferente do que se vê em festivais de música de qualquer gênero, mas de um filme que tem potencial de dominar também o Emmy 2019 em sua categoria, com 6 indicações na premiação: além do prêmio principal, como Melhor Especial de Variedades (Pré-Gravado), foi lembrado em Melhor Direção, Roteiro e Design de Produção em Especial de Variedades; Figurino em Programa de Variedades, Não-Ficção ou Reality Show; e Direção Musical.

Sendo a primeira mulher negra a ser headliner do Coachella, Beyoncé se transforma naturalmente em um símbolo de representatividade. Mas, como afirma, não quer apenas pôr a sua “coroa de flores” e sim mostrar que esta bandeira foi carregada por diversas pessoas, especialmente mulheres, que vieram antes da dona do hit Run The World (Girls). Isso se revela no conceito central do Homecoming, ao exaltar às grandes festas de ex-alunos nas universidades que historicamente atendem os estudantes negros – resquícios da segregação racial oficializada nos Estados Unidos até a luta pelos Direitos Civis nos anos 1960 – com a tradição das fanfarras sendo incluída na apresentação musical.

O filme, por sua vez, ao ser lançado um ano depois na plataforma de streaming, em abril passado, aprofunda essa ideia, frisada até na escolha estética de sequências em preto e branco quebrando o colorido do palco e filmagens em super-8 dando o sentido de memória que a artista quer ressaltar. Epígrafes pincelam a tela em diversos segmentos, destacando frases dos discursos de grandes nomes da cultura afro-americana que se formaram justamente nessas universidades, como Alice Walker, Marian Wright Edelman, Reginald Lewis, W.E.B. DuBois e Audre Lorde, enquanto gravações de Nina Simone e Maya Angelou, por exemplo, são introduzidas no show ou no documentário. A homenagem enfatiza igualmente a importância histórica dessas figuras como a necessidade de representatividade para avançar na questão racial e desse senso de comunidade a fim de fortalecer o orgulho próprio ferido pelo racismo e também pelo machismo.

No entanto, ao documentar o longo processo de ensaio e os desafios pessoais dela, Beyoncé deseja afirmar e dar significado ao trabalho que é chegar, seja nessa posição no Coachella ou na luta por igualdade. A montagem intercala show e bastidores, mostrando que a cantora teve uma complicada gestação de gêmeos e precisou recuperar a forma e a autoestima durante os oito meses de preparação em um galpão, onde foram montados 3 palcos, respectivamente, para os músicos, os dançarinos e a equipe de filmagem acertar os detalhes vistos e bem ouvidos na produção, que esbanja excelência técnica além da conceitual. Isso porque a escolha política da artista agrega também visualmente, seja na cenografia da arquibancada, coreografias proporcionadas ou figurinos típicos em amarelo e rosa, e musicalmente no som percussivo e de sopro típico das fanfarras e as cordas da orquestra que enriquecem os arranjos das canções da diva pop – experimente ouvir o disco ao vivo, Homecoming: The Live Album (2019), lançado junto com o especial e que deve também ganhar suas indicações no próximo Grammy, especialmente pela engenharia de som.

Se a ideia e o espetáculo garantem o sucesso de Homecoming, cinematograficamente, ressente-se que a câmera no palco e a montagem não sejam tão ousadas quanto vislumbram em alguns momentos, a exemplo da imersão na abertura do show ou da sequência frenética dos bastidores depois de Mi Gente. Quando a longa duração de 2 horas e 17 minutos começa a se fazer sentir no segundo ato, o ritmo volta com a entrada de convidados familiares: o marido Jay-Z, as amigas de Destiny Child, Kelly Rowland e Michelle Williams, e sua irmã Solange. Esse fôlego no terço final do especial é decorrente ainda mais do repertório, que segue praticamente uma trajetória de retorno às origens na carreira de Beyoncé: as músicas dos últimos álbuns, que mergulham mais no hip hop, iniciam o setlist, enquanto os maiores hits do começo de sua carreira, bem mais fundamentada no R&B e no pop, encerram em grande estilo a parte pessoal desse resgate e legado que ela deixa aos seus, no destaque para a filha Blue Ivy, e ao público.

Assim, Homecoming se sobressai e muito da média dos filmes-shows e documentários musicais. É possível dizer até que abre uma nova trilha dentro deste gênero. Sem dúvidas, faz aquilo que toda a “Beyhive”, como são conhecidos seus fãs, já faz há muito tempo: coroar Beyoncé pela sua visão completa como artista, que ela exercita cuidando de todos os detalhes da mensagem que entrega em sua obra.

Homecoming: A Film by Beyoncé (Homecoming: A Film by Beyoncé, 2019)

Duração: 137 min | Classificação: 14 anos

Direção: Beyoncé Knowles-Carter e Ed Burke

Roteiro: Beyoncé Knowles-Carter e Ed Burke (veja + no IMDb)

Plataforma: Netflix (streaming)

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