• Nayara Reynaud

A VOZ DO SILÊNCIO | Bate-papo com o diretor André Ristum e elenco: Marieta Severo e Arlindo Lopes


Uma cidade barulhenta e um mural de habitantes com seus silêncios existenciais compõem a produção nacional A Voz do Silêncio (2018), um filme coral dirigido por André Ristum, no qual, entre uma dezena de protagonistas, estão a amargurada mãe vivida por Marieta Severo e um fechado atendente de telemarketing interpretado por Arlindo Lopes. O cineasta e os atores estiveram em São Paulo, que é cenário-personagem do longa-metragem que estreou na última quinta (22) e o NERVOS, ao lado de outros jornalistas, conversou com eles sobre o processo de criação e preparação, as relações humanas que se perdem na metrópole e muito mais que você confere a seguir.

“É uma operação, uma costura muito cuidadosa”

André Ristum

Foi com um estudo “muito cartesiano”, com direito à planilha, que André Ristum começou a escrever o roteiro de A Voz do Silêncio, partindo de alguns personagens para costurar as histórias que se cruzam entre os habitantes da São Paulo que ele pinta na tela deste filme coral, tendo Marieta Severo, Ricardo Merkin, Arlindo Lopes, Claudio Jaborandy, Stephanie de Jongh, Marat Descartes, Tássia Cabanas, Nicola Siri, Marina Glezer e Enzo Barone no elenco, além das participações especiais de Milhem Cortaz e Augusto Madeira. “O processo interessante da criação deste roteiro foi encontrar essa intersecção e o equilíbrio em cada personagem. Alguns foram surgindo ao longo da história e aí eu vi que podia crescer um pouco aqui, ali e entrar na história dos outros, virar um personagem também”, explica o cineasta que trabalhou cerca de quatro anos no roteiro. “Até o sexto tratamento, eu trabalhei sozinho. No sétimo, veio o Marco Dutra e me ajudou a trabalhar no roteiro, deu novas ideias, me desengessou de algumas coisas que eu não estava encontrando saída”, relembra, frisando que o texto passou por outros tratamentos, mas que o longa acaba sendo reescrito quando filmado e mais uma vez na sala da montagem.

“Meu, é um filme fácil de montar. Vou filmar tudo em plano-sequência. É só emendar as cenas e tá tudo certo, né. Você vai montar isso em seis semanas”, ele brincou com Gustavo Giane, que também foi o montador de seu longa anterior, O Outro Lado do Paraíso (2014), que logo disse “não sei se é bem assim”. Seu trabalho minucioso de perceber onde os personagens entravam e saíam nessa trama foi elogiado por Ristum, além de ter sido premiado no Festival de Gramado – na realidade, ambos foram agraciados, pois a produção levou os Kikitos de Melhor Direção e Melhor Montagem. “Ele conseguiu levar o conceito principal do roteiro para o filme que era ‘vamos entrando aos poucos nesta história, com calma'. Quem não for paciente não vai entrar neste filme. Tem que ser um lento mergulho na história dessas pessoas”, ressalta o diretor e roteirista.

Essa colcha de retalhos costurada por André salta aos olhos de Marieta Severo. “Você demora a entrar, porque são pílulas que ele vai te dando até te colocar no universo de cada historinha e você acaba se comovendo com elas”, nota a atriz que interpreta a reclusa Maria Claudia na produção. O colega Arlindo Lopes, que já assistiu quatro vezes ao filme e sempre se emociona em alguns momentos dele, destaca a surpresa de ver o trabalho dos outros do elenco em filmes corais como este. “Você fala: ‘Nossa, olha o que todo mundo construiu!’, como tudo está conectado. Porque você sabia que um ator estava passando ali, mas você não tinha visto o que ele tinha feito antes, o que vem depois dali na história”, afirma o ator na pele do silencioso jovem Alex.

“É essa sociedade da gente, feita de muitos silêncios. A grande maioria são vozes sem voz, sem expressão, são invisíveis”

Marieta Severo

Os oito anos em que viveu na Bela Vista e a observação das pessoas ali no bairro serviram de inspiração ao brasileiro que cresceu fora do país para criar uma obra sobre a capital paulista. “Eu achava que São Paulo tinha uma influência muito grande na solidão das pessoas, na loucura das pessoas, na distância dos afetos, na vida das pessoas. Na verdade, o protagonista do filme é São Paulo, é a grande cidade”, destaca Ristum, que ainda comenta que isto é A Voz do Silêncio, esse silêncio interior de cada um num lugar ensurdecedor como o da metrópole. Outra questão que o moveu “era contar histórias de pessoas comuns, de pessoas de certa forma invisíveis, de pessoas que não são as protagonistas da vida, da cidade”, explica o cineasta que enxerga esses indivíduos nas 24 horas que fazem a engrenagem paulistana funcionar. “Tinha um amigo, que trabalhava comigo, que saía às quatro da manhã de casa, andava três horas de ônibus, ia para o primeiro trabalho, saía e ia para o segundo trabalho, chegava à meia-noite em casa e, quase quatro da manhã, ele estava saindo de novo”, recorda ao contar como esses personagens noturnos foram naturalmente surgindo deste seu interesse.

Para Marieta, esses “invisíveis” são aqueles que fazem a cidade respirar sem que nos demos conta e o bonito do filme é esse alerta: “Presta atenção! Olha aí quem é seu vizinho. Que historinha que ele tem?”. Um desses tipos que povoam a trama e chama a atenção de Arlindo é o porteiro e sushiman vivido por Claudio Jaborandy. “Muitas pessoas não sabem nem como é, nunca bateram papo com o seu porteiro ou vão para o restaurante e olham para a pessoa que está atendendo”, atenta o ator que afirma ser aquele que conversa com todo mundo e estabelece uma relação de amizade com seus porteiros.

O intérprete de Alex, porém, foi impregnado pela solidão de seu personagem e sentiu a frieza literal e figurativa de São Paulo durante as filmagens do longa. “Quando eu fiquei aqui filmando A Voz do Silêncio, ia de casa em casa, nos amigos, e cada um estava nas suas coisas. E eu me senti muito solitário, muito sozinho, fui ficando muito depressivo. Fazia muito frio na cidade e eu, às vezes, botava o fone de ouvido no celular, andava aqui pela Paulista querendo olhar para as pessoas e elas não olham. Elas estão na sua vida, no automático, raramente você esbarra numa pessoa que vem e mantém um olhar, dá um sorriso”, observa Lopes que, por orientação do preparador de elenco Luiz Mario Vicente, não teve muito contato com os atores que faziam seus colegas de telemarketing. O ator ainda contou que ele, Severo e Stephanie de Jongh construíram previamente a ideia de que eles eram uma família carioca que veio morar em terras paulistanas, até por causa do sotaque dos dois primeiros, e foi algo que contribuiu nesse senso de deslocamento do personagem.

Aliás, a miscigenação de povos da capital paulistana é algo que o cineasta inclui na variedade dos tipos retratados e até na trilha sonora. “Por isso que veio o núcleo argentino, o personagem italiano, um personagem que passa ali que é chinês... Enfim, por isso que tem essa mistura toda. E as músicas, eu acho que elas tinham que andar um pouco com os personagens”, detalha André ao ser questionado sobre a presença até de tango na seleção musical, além de comentar como a cidade influenciou outros aspectos de seu trabalho. “Acho São Paulo mais bonita de noite do que de dia, principalmente se a gente pensar nesse bairro aqui [região da Paulista, já que estávamos no Reserva Cultural]. Antes do [prefeito Gilberto] Kassab, era mais bonita a Rua Augusta com aqueles neons, mais colorido, então eu queria trazer um pouco essas cores. Tem lá uma cena da Stephanie no ponto de ônibus e ela é iluminada por várias luzes, de várias cores, neons piscando”, explica Ristum sobre trazer estes elementos na fotografia, que, por uma escolha dele e do diretor de fotografia Hélcio Alemão, teve os planos-sequência como linguagem até por uma questão de limitação orçamentária da produção mesmo.

As escolhas encantam Marieta, que adora a forma como o cineasta mostra esse cenário paulistano. “Aquele início sedutor, as bolas coloridas, aquela estética linda, sedutora, bonita, que vai virando um trânsito, que vão virando umas pernas, que vai virando aquela cidade, que vem então o personagem principal: São Paulo, a metrópole”, diz a atriz entusiasmada.

“Eu fico assim pensando, como é que vai ser depois na vida desses personagens”

Arlindo Lopes

Definido por um crítico como o “cronista da paternidade” pelo seu olhar ao tema nos longas anteriores, Meu País (2011) e O Outro Lado do Paraíso, André atribui a isso uma busca até inconsciente dele, por ter convivido pouco com o pai, que morreu quando ele ainda era novo. “A figura paterna é uma figura ausente na minha vida. Então, talvez, por isso, fui atrás de construir, encontrar isso. Mas, de certa maneira, em algum momento, eu pensei que a figura materna é uma figura tão importante na minha vida”, recorda o roteirista e diretor criado pela mãe e pela avó materna, que sentiu a necessidade de colocar a maternidade em foco no novo título, como pode ser visto especialmente na figura de Maria Claudia.

Segundo Ristum, “alguns personagens foram escritos já pensando nos atores” e o trabalho de produção de elenco de Alessandra Tosi foi importante para encontrar as outras peças, além do preparador Luiz Mario Vicente para criar os laços entre os protagonistas, conforme seus núcleos. “A gente, por exemplo, fez preparação do personagem do Arlindo com a Marieta, mesmo eles não se cruzando nunca no filme. Eles só falam no telefone, mas tem uma relação, a gente tinha que construir de alguma maneira a relação mãe e filho, para eles era importante”, explica o cineasta. “A gente ficou um dia inteiro juntos; primeiro, eu e ela [Marieta]; depois, eu e a Stephanie. E aí nesse dia, ele [o preparador de elenco] colocou muitas músicas, então a gente dançou, riu, se divertiu. Ele meio que construiu um pouco o que seria a pré-relação daquilo que a gente não vê no filme”, detalha Lopes sobre o processo com Vicente, enquanto Severo revela que “a preparação foi muito bonita, muito delicada; não foi enorme, mas foi muito densa” e, para ela que não havia trabalhado antes com Arlindo, foi importante para criar junto do colega “um terreno que foi útil” para ambos.

Esse relacionamento estabelecido ajudou no momento de uma cena-chave para os personagens: “Quando chegou na cena do telefone, eu fiquei escondidinho assim, num canto do cenário, onde a câmera não pegava, e a gente fez e... Eu ouvia e, como eu não estava olhando também, isso foi ótimo, porque a voz dela foi ficando na minha cabeça. Então, quando eu fui filmar, mesmo que tivesse ali o assistente de direção dizendo a fala friamente, eu tinha na memória como foi a Marieta fazendo”, relembra o ator, sobre o fato de poder estar no set durante esta filmagem.

Feliz com o papel escrito para ele, Arlindo fez uma ampla pesquisa para viver o Alex – que, depois de um bom tempo de filme, é revelado ser o filho soropositivo de Maria Claudia –, indo em grupos de apoio e conversando com jovens na mesma situação que o operador de telemarketing da ficção, “jovens que por conta da ignorância dos pais são expulsos de casa nos momentos mais frágeis”, frisa, comentando sobre o preconceito que as pessoas aidéticas sofrem, apesar do tratamento tão eficiente atualmente. “Se vocês repararem no filme, ele ouve o mesmo programa que ela ouve no rádio, que é um programa evangélico... Então, estão conectados nesse lugar e o grande racha entre os dois é quando ela descobre que ele é gay e soropositivo. Rola o rompimento entre os dois e, consequentemente, uma mágoa muito grande, tanto da parte dela que idealizava o filho de um jeito, quanto dele por conta dessa parceria que os dois tinham tão grande e tão forte e, de repente, se vê assim sozinho no pior momento, que mais precisa de ajuda”, salienta o ator, completando que o rapaz saiu de uma mentira ao se assumir, mas continuou vivendo outra ao alimentar a ilusão da mãe.

Lopes, que se assustou ao se ver tão pálido na tela graças ao trabalho da fotografia de Hélcio Alemão, ainda contou que teve A Paixão de JL (2015), documentário de Carlos Nader sobre a vida do artista José Leonilson, como referência para a construção do personagem e que deseja mergulhar mais no assunto, montando a peça The Normal Heart (1985), de Larry Kramer, que foi adaptada no telefilme homônimo da HBO, em 2014. “Por causa do filme do André, eu decidi que queria falar mais desse tema, mas colocar uma lupa sobre essa questão e sobre tudo que eu vi nos grupos de apoio. Eu comprei os direitos com o Pierre Baitelli, a gente chamou o Emílio de Mello para dirigir, a Julia Lemmertz para fazer o papel da Julia Roberts”, disse empolgado pelo projeto, mas também revelando as dificuldades de conseguir um patrocinador que queira associar a sua marca ao tema do HIV.

Marieta, que também pesquisou o trabalho de Nise da Silveira com seus pacientes, embora não seja especificado qual distúrbio mental afeta Maria Claudia, afirma que, ao ler o roteiro, teve vontade de contar essa história, ainda mais pela personagem estar no meio de uma engrenagem maior. “E, de repente, essa mãe que, dentro de todas as histórias que se cruzam, é tragada e sucumbe ao próprio preconceito. O que eu adoro dessa história é essa coisa tão atual de falar do preconceito. Quando ela sabe que o filho é aidético, ela bota o filho para fora de casa, ela rompe os laços com ele. Acho bonito que não é o meu preconceito com você e o que eu vou fazer em você, é o que o preconceito faz nela. Ela é a maior vítima do preconceito dela e esse enfoque é muito bonito. Quer dizer, o preconceito não faz mal só ao objeto do preconceito, ele é corrosivo. Então, ela se chafurda na própria culpa, no próprio arrependimento, na amargura”, declara a intérprete, que ressalta o apoio do figurino e da cenografia na composição de seus papéis. E, nessa leitura das camadas de sua personagem, ainda destaca “o simbolismo duma ferida que está aberta e não fecha, que fica ali e ela quase que cultiva aquela ferida”. A atriz, que atualmente está filmando o longa Noites de Alface na Ilha de Paquetá, no Rio de Janeiro, porém, vê um resgate do afeto no final desta mãe nos difíceis atos de simplesmente fazer uma ligação ou dizer “eu te amo”.

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