• Nayara Reynaud

MOSTRA SP 2018 | Dia 5 – Culpa compartilhada


O quinto dia da 42ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo tem como destaque a culpa herdada no eslovaco O Intérprete e nacionalizada no austríaco A Valsa de Weldheim, ambos pré-indicados ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro e que abordam o nazismo, além da culpa individual e de uma sociedade na história do órfão do indie norte-americano Friday's Child. Veja estes e outros destaques que completam a programação desta segunda:

O Intérprete

(Tlmočník / Dolmetscher, 2018)

De modo geral, crescemos acostumados a ver o nazismo pela lente de Hollywood até mais do que pelos olhos da própria Alemanha. Mas alguns cinéfilos devem ter reparado uma tendência atual do cinema de outros países europeus, especialmente do Leste Europeu, de revisitar o período de ocupação nazista em seu território, a exemplo do polonês Ida (2013), e examinar sua parcela de culpa nos males causados por eles, como o húngaro 1945 (2017) e o austríaco A Valsa de Waldheim (2018), documentário também presente nesta Mostra. Representante da Eslováquia nesta 42ª edição do evento e também na corrida para uma possível vaga entre os indicados a Melhor Filme Estrangeiro no próximo Oscar, o novo longa de Martin Šulík, O Intérprete (2018), vem fazer isso para a nação que, na época e até 1992, fazia parte da Tchecoslováquia.

O cineasta eslovaco, um velho conhecido dos mostreiros, trata do assunto ao juntar as duas pontas da problemática. Ali Ungár (Jirí Menzel, ator e diretor que conseguiu um Oscar para a Tchecoslováquia com Trens Estreitamente Vigiados, de 1966), um intérprete de 80 anos de idade, viaja para Viena, na Áustria, atrás do ex-oficial da SS, o exército nazista, que acredita ser o responsável pela morte de seus pais, mas ao bater na sua porta, encontra apenas o filho do provável algoz de sua família, Georg (Peter Simonischek, o pai do longa alemão Toni Erdmann, de 2016). Este, porém, vai à Bratislava, capital da Eslováquia, pedir ao senhor de origem judia para ser seu guia e intérprete em uma viagem pelo país para explorar os lugares nos quais o pai ficou durante a II Guerra Mundial.

Diferente da trilha sonora com o mesmo arranjo repetido insistentemente, o filme varia seu tom entre o drama e a comédia ao tirar humor de uma narrativa da relação entre opostos bem comum, no caso, de senhor comedido, correto e sério com um bon-vivant, mulherengo e desinteressado por sua própria história, até então. No entanto, conforme a câmera de Šulík vai, em alguns momentos, se aproximando lentamente dos personagens em travellings, o texto do roteiro escrito por ele e Marek Leščák faz o mesmo não partir para algo de mau gosto que poderia vir ao tratar tal assunto de maneira tão leviana. Com exceção de uma revelação final que soa desnecessária, a obra trata de maneira sincera sobre a velhice, investiga como a relação dos dois protagonistas – vividos em oposta sintonia por Menzel e Simonischek em grande forma – molda o relacionamento deles com os filhos e confere camadas de complexidade aos envolvidos, mesmo que indiretamente, no nazismo, mas tentando evitar a armadilha de comparar e tornar equivalentes as dores do filho das vítimas com o do filho do assassino. Ambos sofrem, mas de modo diferente e é preciso cada um dos lados entender isso.

Veja a ficha técnica e trailer no site da Mostra

> PlayArte Marabá – Sala 1 – 22/10/2018 às 15h00

> Cine Caixa Belas Artes – 25/10/2018 às 17h40

> Cinearte Petrobras 1 – 30/10/2018 às 20h50

A Valsa de Weldheim

(Waldheims Walzer, 2018)

O documentário austríaco A Valsa de Weldheim (2018) é um dos vários títulos desta 42ª Mostra que mostram como a História é cíclica e, mesmo assim, o quanto não aprendemos com ela. A cineasta Ruth Beckermann apresenta isso ao resgatar a figura emblemática da Áustria, Kurt Weldheim. De Ministro das Relações Exteriores se tornou secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU), em dois mandatos de 1972 a 1981, e depois se candidatou à Presidência do país em 1986, justamente quando o seu passado na SS nazista ressurge, como figura atuante no despacho de partisans iugoslavos, movimento de resistência à ocupação do Eixo, especialmente alemães e italianos, na região da antiga Iugoslávia.

A diretora judia traça essa linha do tempo da biografia autorizada e da não-autorizada do estadista a partir de material de arquivo das décadas de 1970 e 1980, além de registros feitos por ela enquanto fazia parte do grupo que se manifestava contra a candidatura de Weldheim. E não é spoiler e sim História, dizer que ainda com a forte campanha internacional, ele foi eleito mesmo assim.

O filme disserta sobre a negação da culpa, seja a do próprio Weldheim que é mais responsabilizado por ter omitido seu trabalho no sistema de expansão do 3º Reich e não fazer nem ao menos um mea culpa sobre o nazismo do que por qualquer morte, ou de uma nação que sempre assumiu o papel de vítima da ocupação alemã e nunca fez uma desculpa formal por sua participação nos planos de Hitler, que afinal de contas, era austríaco. Por isso, é até louvável que a Áustria tenha escolhido a produção para representar o país em uma provável indicação no Oscar. Por mais que o documentário seja formal em sua estrutura e estética, se faz urgente pelo seu tema, com um crescimento da extrema direita não só na Europa, mas também na América, como bem sabemos.

Veja a ficha técnica e trailer no site da Mostra

> Espaço Itaú Frei Caneca 2 – 22/10/2018 às 18h10

> Cinearte Petrobras 2 – 23/10/2018 às 16h00

> Cinesala – 28/10/2018 às 19h40

Infiltrado na Klan

(BlacKkKlansman, 2018)

Em seu novo filme, o cineasta Spike Lee versa sobre o papel do cinema na manutenção ou enfrentamento de uma desigualdade racial tão evidente agora quanto nos anos 1970 em que se passa a história real em que se inspirou. Baseado no livro autobiográfico e homônimo do próprio investigador Ron Stallworth, Infiltrado na Klan (2018) resgata o caso deste que foi o primeiro policial negro da polícia de Colorado Springs e que, com a ajuda de um companheiro de departamento, adentra e se torna membro da Ku Klux Klan, organização norte-americana que prega a supremacia branca, para ter conhecimento de suas ações. Citando o importante em linguagem e técnica, porém, controverso para dizer o mínimo em seus preconceitos, O Nascimento de uma Nação (1915), e contrapondo com os títulos e até utilizando o estilo da Blaxploitation, especialmente na sequência final, o diretor traça um panorama com duras críticas ao racismo nos Estados Unidos, fatores que levaram a produção a receber o Grande Prêmio do Júri no Festival de Cannes deste ano.

Sua direção já começa a imprimir uma marca quando John David Washington – sim, ele é filho de Denzel – na pele do protagonista, já aprendendo a arte de se infiltrar, tem contato com os discursos de um ex-Pantera Negra (Corey Hawkins) e a jovem ativista Patrice (Laura Harrier) em um encontro de jovens universitários afro-americanos, cujos rostos de descoberta de sua própria beleza, força e resistência são destacados sob um fundo preto. Mas a assinatura de Lee, deixada lá em seu filme-chave Faça a Coisa Certa / Do the Right Thing (1989), com os planos holandeses, aqueles tortos em diagonal, surgem a partir do segundo ato, quando a situação fica mais tensa e crítica na investigação dele e do judeu Flip Zimmerman (Adam Driver), que encarna o “Ron Stallworth branco”, criado pelo original em ligações ao chefe regional da Ku Klux Klan (Ryan Eggold) e inclusive ao grão-mestre da KKK David Duke (Topher Grace). Tal qual sua obra-prima, utiliza o tom cômico para falar de racismo, seguindo o caminho da ridicularização – sem a redenção presente em Três Anúncios Para um Crime (2017), por exemplo – em vez de uma vilanização melodramática dos membros da organização; uma opção que quebra barreiras para atingir o seu objetivo, mas que em tempos de falta de interpretação e exercício de escuta ao diálogo, gere certa rejeição e falta de identificação do espectador que compartilha das mesmas ideias dos inimigos da tela.

O roteiro escrito pelo cineasta ao lado de Charlie Wachtel, David Rabinowitz e Kevin Willmott é inteligente nas menções (in)diretas a Donald Trump, como o uso do slogan “America First” e a fala sobre um plano de colocar alguém da organização na Casa Branca, mas recaí em alguns momentos, junto com a direção, em um didatismo que retira certo impacto desse equilíbrio de denúncia satírica da narrativa, a exemplo da montagem que precisa “desenhar” para o espectador o discurso já claro do longa ao intercalar a cerimônia do grupo supremacista branco e o relato de um senhor sobre racismo na reunião dos estudantes negros. A mão pesada naquele trecho era desnecessária já que Lee endereça o seu recado de maneira mais pungente ao final, jogando na cara da plateia – que na sessão para a imprensa (novidade, só que não!), era quase em sua totalidade branca – a realidade contemporânea com as imagens das manifestações dos supremacistas e ataque aos que se opunham a ela na cidade de Charlottesville, na Virgínia, em agosto do ano passado, mostrando o David Duke da vida real e as falas condescendentes de Trump a eles. O paralelo com o cenário brasileiro atual é inevitável, ainda mais agora com a própria KKK opinando até sobre um dos nossos candidatos à presidência.

Veja a ficha técnica e trailer no site da Mostra

> Espaço Itaú Pompeia 1 – 22/10/2018 às 21h00

> Cinesala – 26/10/2018 às 18h40

> Espaço Itaú Augusta 1 – 29/10/2018 às 14h00

Guerra Fria

(Zimna Wojna, 2018)

Após fazer produções internacionais e de língua inglesa, como o romance lésbico Meu Amor de Verão (2004), Pawel Pawlikowski voltou as suas origens polonesas, fazendo seu primeiro filme no país onde viveu até os 14 anos com Ida (2013) e dando à Polônia o seu primeiro Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. Não por menos, seu novo trabalho Guerra Fria (2018), que rendeu a ele o prêmio de Melhor Direção no Festival de Cannes, foi escolhido novamente escolhido para representar a nação, mostrando outro fantasma de seu passado recente. Sai o não-dito sobre o nazismo que é tratado no anterior para falar das marcas do regime comunista polonês no roteiro escrito pelo cineasta com Janusz Glowacki.

O longa começa no interior da Polônia, em 1949, com flashes da pesquisa de Irena (Agata Kulesza) e Wiktor (Tomasz Kot) entre os camponeses de músicas típicas. O público depois entende que ela serve para a montagem de uma peça musical inspirada na música folclórica polonesa, da qual a esperta Zula (Joanna Kulig) se destaca na audição, chamando a atenção do pianista e arranjador Wiktor. É então que o cerne do filme se apresenta, como um romance que passeia por vários anos, especialmente a década de 1950 e também a de 1960, e locais.

Isso porque a turnê do espetáculo viaja por vários países do Leste Europeu, indo de Berlim Oriental a Moscou com toda a exaltação stalinista, e também a antiga Iugoslávia do Marechal Tito, além da Paris onde o pianista se refugia da censura velada do governo que obriga os artistas a cantarem os feitos do socialismo na região mesmo sem contextualização dentro da obra. A direção de Pawlikowski e a fotografia de Łukasz Żal, que volta a trabalhar com ele depois de Ida, traz não só o mesmo o preto e branco, como os planos com os rostos nos cantos inferiores da tela, explorando todo o fundo e representando a impotência dos personagens em um cenário de austeridade. No entanto, quando o casal consegue romper a Cortina de Ferro e se livrar de amarras espaciais e políticas, eles mesmos jogam uma cortina de fumaça sobre erros e coisas que precisam ser discutidas em um relacionamento, colocando barreiras para o próprio amor, que vai pedir contas disso depois como já é uma sina de amores impossíveis.

Uma curiosidade final é que Pawel dedica a obra aos seus pais, talvez pelo fato de ter conhecido esse modo de vida nômade quando o pai de origem judia foi obrigado a sair da Polônia por conta de uma política antissemita e emigrou logo depois com a mãe para a Inglaterra.

Veja a ficha técnica e trailer no site da Mostra

> Espaço Itaú Augusta 1 – 22/10/2018 às 14h00

> Cinearte Petrobras 1 – 24/10/2018 às 16h00

> Espaço Itaú Frei Caneca 1 – 26/10/2018 às 13h30

> Espaço Itaú Frei Caneca 2 – 27/10/2018 às 14h00

Friday's Child

(Friday's Child, 2018)

Exibido no festival South by Southwest (SXSW) deste ano, Friday’s Child (2018) é o segundo longa do diretor A.J. Edwards, que estreou na função com um olhar sobre a infância de Abraham Lincoln em The Better Angels (2014). Subindo a sua faixa etária de interesse aqui, o cineasta independente norte-americano faz um coming of age cuja mudança é abrupta para o protagonista. Entrecortada por relatos de jovens no estilo de um docudrama, o prólogo apresenta Richie (Tye Sheridan, bem na introspecção de seu papel), um rapaz que acaba de completar 18 anos e precisa sair do orfanato para encarar logo a vida adulta.

O garoto aceita qualquer tipo de emprego para tentar pagar o aluguel, mas quando as coisas apertam, o instinto de sobrevivência e experiências passadas de tomar a via mais fácil o levam a atitudes extremas. Nisso, dois personagens cruzam o caminho dele, quase como a personificação do anjinho e do demônio na cabeça do protagonista. O junkie Swin (Caleb Landry Jones) é aquele que revela o lado mais obscuro de Richie e também a parte mais entediante para o espectador, enquanto Joan (Imogen Poots, a melhor no filme) que, sem querer, o resgata em um momento de fuga, é quem o acalma e lhe mostra o amor, além de ser a única saída de redenção para ele, ainda que isso signifique perde-la.

Editor de filmes do Terrence Malick, é clara a influência do cinema do mestre na forma como o novato constrói a sua narrativa, da câmera à montagem. Com uma steady cam perambulante, sua lente sempre está muito próxima do rosto dos personagens, especialmente o protagonista, como se estivessem diante de uma visão distorcida de seu próprio mundo. A saída melodramática do roteiro em seu terceiro ato contradiz um realismo etéreo obtido até então, mas igualmente gera um interesse final em uma narrativa claudicante. Por fim, se a culpa consome o rapaz, paira também uma espécie de culpa coletiva da sociedade com o(s) órfão(s) ao não conseguir um lar definitivo para ele – o garoto, aliás, aprendeu a arrombar fechaduras com um dos vários pais adotivos que teve – e não lhe dar o apoio necessário ao sair da guarda do Estado, porém, a obra nunca chega à maioridade ao tratar deste tema, como Temporário 12 / Short Term 12 (2013) já fez muito bem.

Veja a ficha técnica e trailer no site da Mostra

> Espaço Itaú Frei Caneca 1 – 22/10/2018 às 19h10

> Cine Caixa Belas Artes – Sala 1 Villa Lobos – 24/10/2018 às 17h10

> Espaço Itaú Augusta 1 – 27/10/2018 às 17h40

José

(Jose, 2018)

Um chinês que fez PhD de Biologia nos Estados Unidos e, a partir de determinado momento de sua carreira, resolveu fazer filmes, sendo o seu segundo longa rodado na Guatemala. Como afirmou em entrevista ao NERVOS, ao lado do corroteirista e produtor norte-americano George F. Roberson, o cineasta nômade Li Cheng acreditou ser urgente filmar a história de José (2018) no país da América Central para mostrar a realidade da população local e a grande homofobia presente lá. Adotando um realismo que primava pela observação e utilizando atores não profissionais – até pela questão que os profissionais não queriam se envolver com o projeto por causa de sua temática –, a produção venceu o último Leão Queer, prêmio dado ao melhor filme LGBT presente no Festival de Veneza.

O estreante Enrique Salanic vive o jovem personagem-título, que esconde ser gay, particularmente da mãe superprotetora e religiosa, que faz chantagem emocional, até de maneira inconsciente, para estar com ele por perto e prevenir que o rapaz caia “em pecado”. É aquele não-dito que cerca muitas relações entre mães e seus filhos homossexuais, com elas cientes da orientação sexual deles, mas o assunto nunca é posto à mesa, com a ambas as partes tentando evitar o inevitável. Mas é claro que isso ganha um aspecto a mais com a ênfase à forte presença das igrejas neopentecostais, em especial nas regiões mais carentes, em um fenômeno visto mais em evidência na América Latina.

O que José esconde da mãe e dos colegas de trabalho de uma lanchonete que funciona quase como um drive-thru ilegal, é que ele aproveita o final do expediente, intervalos ou dá até uma escapadinha para sair com contatos que mantém pelo celular, o seu companheiro inseparável. Até que o protagonista começa a se ater em um caso mais sério com Luis (Manolo Herrera), um rapaz vindo de uma região ainda mais pobre para trabalhar em uma construção realizada em uma das zonas mais importantes da capital, Cidade da Guatemala, mas que também sofre por ser homossexual, tendo sido agredido pelos irmãos – a violência, aliás, marca os personagens de várias maneiras, indo desde a homofobia aos desaparecimentos e mortes da época da guerra civil no país, que ainda se mantém como um dos mais violentos do mundo. O filme vai aos poucos perdendo seu ritmo, porém, em seu terceiro ato, passa a não ser apenas a trama de um jovem escondendo sua orientação sexual para ser uma história de amor universal, interrompida quando o seu amado desaparece.

Veja a ficha técnica e trailer no site da Mostra

> Cinearte Petrobras 2 – 22/10/2018 às 14h00

> Circuito Spcine Olido – 31/10/2018 às 17h00

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