• Nayara Reynaud

10 SEGUNDOS PARA VENCER | Uma vitória por pontos


O ano de 2018 tem sido horrível para o cinema nacional em termos de bilheteria – na realidade, só o agravamento de uma crise que já dava sinais em 2017 –, justamente no momento em que a cinematografia brasileira tem alcançado uma pluralidade de gêneros que era uma das reclamações justas do público, que não vê essa mudança acontecer, seja por preconceito ou por falta de acesso – este problema é muito complexo para colocar apenas na conta do espectador e daria um artigo por si só. É neste contexto que chega 10 Segundos Para Vencer (2018), longa em que o cineasta José Alvarenga Jr., mais conhecido pelas suas comédias como Os Normais: O Filme (2003) e Cilada.com (2011), envereda pelo ramo dos filmes de esporte, raros no Brasil até sobre o tão amado futebol, e presta homenagem ainda em vida para um dos grandes esportistas do país, o boxeador bicampeão mundial Éder Jofre. “É um filme que tem uma luta para ser feito, que olha para o entretenimento, para o mercado, mas sem concessão. A gente fez um filme que acreditava e que falava de um herói brasileiro, que está sendo esquecido a não ser pelas gerações que o acompanharam”, defendeu o produtor Flávio Ramos Tambellini na coletiva de imprensa, realizada em São Paulo no último dia 10.

Os filmes de boxe que, de tão comuns em Hollywood, já se configuraram como um subgênero, ainda que guarde suas diferenças de abordagem expostas dos clássicos Touro Indomável (1980) a Rocky (1976) e toda sua franquia, por exemplo, são atrativos desde o potencial narrativo do embate dos lutadores além dos ringues ao potencial cinematográfico da luta em si. “Essa era uma dificuldade nossa, porque a gente bebeu nessas fontes lá atrás. Essa era a grande questão: que a gente não visse uma cópia do filme do Scorsese ou do Clint Eastwood”, explicou Alvarenga Jr., que encontrou como saída estética a própria agilidade dos pesos-galos e dos pesos-penas, categorias nas quais Éder lutou, sendo conhecido pela sua velocidade, para imprimir esta característica do protagonista na sua direção e na fotografia assinada por Lula Carvalho em vez da coreografia geralmente vista nessas obras. Os punchs ligeiros dados pela própria câmera são vistos nas sequências das três lutas consideradas pelo diretor as principais e dramáticas na carreira de Jofre para serem encenadas, enquanto outras são apresentadas brevemente através das imagens de arquivo do cinejornal da Atlântida, integradas de forma até orgânica dentro da produção, que também conta com um trabalho competente da direção de arte.

Uma parte do público, talvez, nem perceba nisso a diferença entre o pugilista real e o que é interpretado por Daniel de Oliveira no longa. O ator, que é conhecido por sua dedicação vista em outra cinebiografia, Cazuza – O Tempo Não Pára (2004), contou aos jornalistas que passou por uma preparação de quase um ano de treinamento antes das filmagens, apesar de já fazer krav maga há uma década já que o papel era de uma grande exigência física, além do sotaque peculiar. O menino que, aos 7 anos, trocou o seu Playmobil por luvas de boxe enquanto morava no Iraque e que assistiu outro boxer brasileiro, o Maguila, no Mineirinho, há tempos desejava ser o “Galo de Ouro” nos cinemas e chegou até a ligar para Jofre, mas o projeto só veio a cair em suas mãos oito anos depois, tendo que enfrentar lutadores de fato nessas cenas, que, mesmo com os intervalos de 10 minutos de descanso entre os rounds para ele, ainda acumulou dois olhos roxos.

O roteiro de Thomas Stavros com Patricia Andrade, Marcio Alemão e o próprio Alvarenga, passou por 13 tratamentos ao longo deste tempo e, em seu resultado final, apresenta o biografado através de um drama familiar. O boxe era uma tradição desta família do Peruche, bairro da zona norte de São Paulo, que seja pela parte maternal italiana ou pelo pai argentino, se dedicou a trazer o esporte para cá, nem sempre conseguindo formar o tão esperado campeão. O prólogo inicial mostra Éder então menino, interpretado por Thiago Lopes e quase mudo, vendo o tio Zumbanão (Ricardo Gelli) não cumprir essas expectativas com o seu jeito festeiro, mulherengo e encrenqueiro.

A figura deste tio, que depois se torna também treinador do sobrinho quando ele segue o caminho da família, é pouco conhecida. “Existem poucas imagens e ele era maior do que eu”, afirmou Gelli, que viu no fato do personagem ser do mesmo Peruche de onde nasceu e cresceu um fator para aceitar o papel que lhe rendeu o prêmio de Melhor Ator Coadjuvante há um mês, no Festival de Gramado. Aliás, o ator que estava em cena na peça A Noite de 16 de Janeiro, em São Paulo, quando recebeu a notícia da premiação, estava vendo pela primeira vez e pegando o seu Kikito com a equipe naquela coletiva.

O seu personagem tem destaque no início e, depois, em alguns momentos pontuais que dão o espaço necessário para Ricardo mostrar seu trabalho, mas Sandra Corveloni na pele da mãe Angelina e Keli Freitas como a esposa Cida não ganham o mesmo espaço no roteiro, que poderia lhes dar esse desenvolvimento ainda que priorize a relação paternal com Kid Jofre. Osmar Prado, também ganhou o Kikito de Melhor Ator em Gramado, ao encarnar com maestria a, como o intérprete mesmo define, “figura austera, de disciplina espartana e de poucas palavras de Kid”, exigente como pai, treinador e empresário do filho.

Com tantos anos de experiência, Osmar disse que não esperava o prêmio por não ter uma carreira tão grande no cinema. “Mas quando o seu nome é mencionado, aí o impacto...”, tentava falar, mas, de tão emocionado que ficou ao relembrar, Osmar não conseguiu concluir, recebendo aplausos dos jornalistas. É justamente a emoção que 10 Segundos Para Vencer traz ao centrar-se nesse relacionamento de pai e filho entre discussões e silêncios de reconciliação que acontecem nos ringues de qualquer casa que o filme consegue, se não o nocaute – o qual Éder Jofre só deu, mas nunca levou –, conquistar por pontos o público.

O roteirista Thomas Stavros, o ator Osmar Prado, o diretor José Alvarenga Jr., os atores Daniel de Oliveira e Ricardo Gelli, e o produtor Flávio Ramos Tambellini na coletiva de imprensa, em São Paulo, do filme 10 Segundos Para Vencer (2018).

10 Segundos Para Vencer (2018)

Duração: 114 min | Classificação: 14 anos

Direção: José Alvarenga Jr.

Roteiro: Thomas Stavros, Patricia Andrade, José Alvarenga Jr. e Marcio Alemão

Elenco: Daniel de Oliveira, Osmar Prado, Ricardo Gelli, Keli Freitas, Sandra Corveloni, Ravel Andrade, Luti Angelelli e Victor Laplace (veja + no IMDb)

Distribuição: Imagem Filmes

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