• Nayara Reynaud

22 MILHAS | Um longo e tortuoso percurso


A parceria do diretor Peter Berg e do ator Mark Wahlberg rendeu um trilogia dos heróis da vida real, com o artista encarnando o soldado de O Grande Herói (2013), o funcionário da plataforma de petróleo de Horizonte Profundo: Desastre no Golfo (2016) e o policial na Maratona de Boston em O Dia do Atentado (2016). Se o último capítulo desta trinca já se apresentava o mais fraco, sem conseguir lidar com tantos personagens e focos para lidar e um patriotismo que prejudicava o senso crítico, antes presente no segundo, o mais novo esforço dos dois, carrega estes problemas de forma mais sensível e prejudicial à produção de ação 22 Milhas (2018). Sem a base da realidade como sustentação, o cinema frenético deles corre sem freio e sem envolvimento emocional com os protagonistas e secundários, menos numerosos aqui, só que mais descartáveis.

O longa apresenta uma equipe tática de operações especiais, cuja atividade paramilitar é secreta dentro do próprio governo dos Estados Unidos e sua função é “limpar” o que outros órgãos oficiais não conseguem fazer, partindo para o trabalho sujo. Com o prólogo de uma invasão em uma casa onde se suspeitava que operava a máfia russa, a trama pula cerca de um ano e meio e, basicamente, acompanha o tal grupo no Sudeste Asiático entrando em contato com o policial local Li Noor (Iko Uwais), perseguido pelos seus colegas e que possui uma valiosa informação sobre artefatos nucleares, mas pede asilo para poder entregá-la. O comandante James Silva (Wahlberg) & Cia precisam, então, entregar o “pacote humano” até o aeroporto, em uma rota com 22 milhas de distância e um tanto mais de perigos neste caminho.

Com uma motivação tão simples, que muitos comparam a de um videogame, o roteiro da estreante Lea Carpenter tenta disfarçar com um texto verborrágico pretensamente justificado pela hiperatividade do protagonista, mas com pouca substância, enquanto a direção de Berg incorpora isso com uma inquietude que parece mais com déficit de atenção. Os diagnósticos tentam dar corpo a James, mas o comandante interpretado por Wahlberg tratando mal seus subordinados não contribui em nada para o espectador criar empatia com ele ou os outros personagens a quem não é dada nenhum background, que dirá dimensionalidade – o papel de Ronda Rousey é o melhor exemplo disso. Sua agente Alice Kerr, vivida pela Lauren Cohan de The Walking Dead (2010-), ao menos ganha a história própria de ser uma mãe que pouco consegue ver a filha e tem um ex-marido que briga constantemente com ela por causa disso, mas o filme não parece se preocupar de fato com o seu drama; enquanto o fato de Li Noor ser uma incógnita e seu intérprete, o indonésio Uwais que estrelou Operação Invasão (2011), um excelente performer nas cenas de luta acaba sendo o elemento mais intrigante desta trama.

A representação dos Estados Unidos com James Silva e sua equipe está longe de ser heroica, mas o retrato pífio de seus adversários não faz da obra uma crítica à interferência do país na geopolítica internacional. Aliás, as filmagens realizadas na Colômbia emulam um país do Sudeste Asiático não denominado, talvez, para não incorrer em um retrato direto e evitar reclamações óbvias; entretanto, mesmo que veladamente, recai na mesma xenofobia que Horas de Desespero (2015) em seu thriller no meio de um golpe de Estado em uma nação da região. Se lá, o que importava era salvar a família norte-americana, não importasse o que estivesse acontecendo no local, aqui as ruas deste lugar sem nome vira um caos por causa de uma simples disputa pessoal, seja a mais evidente ou que motiva toda a ação. É certo que tantos outros filmes do gênero, no fundo, fazem o mesmo, porém escondem melhor tal despreocupação, que, no caso de 22 Milhas, não é a da produção em si, claramente voltada para o mercado chinês e afins.

22 Milhas (Mile 22, 2018)

Duração: 94 min | Classificação: 14 anos

Direção: Peter Berg

Roteiro: Lea Carpenter, com argumento de Graham Roland e Lea Carpenter

Elenco: Mark Wahlberg, Lauren Cohan, Iko Uwais, John Malkovich, Ronda Rousey, Carlo Alban, Natasha Goubskaya, Lee Chae-rin e Sam Medina (veja + no IMDb)

Distribuição: Diamond Films

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