• Nayara Reynaud

OUTROS TEMPOS JOVENS | O jovem no Brasil deve ser levado a sério

Atualizado: Ago 28


“Eu vejo na TV o que eles falam sobre o jovem não é sério”, já dizia Chorão e Negra Li, lá em 2000, e completada a maioridade da canção do Charlie Brown Jr. quase nada mudou no tratamento dos jovens, seja pelos governos que se passaram neste ínterim ou pela mídia que era o alvo principal da crítica de Não É Sério. Basta pensar que somente na sua penúltima temporada, Malhação – Viva a Diferença (2017-18), a tradicional soap opera adolescente global conseguiu quebrar seus próprios paradigmas e incluir questões mais complexas e atuais do que apenas triângulos amorosos . Com o intuito de apresentar essa faixa etária pouco explorada com seriedade na televisão, a HBO Latin America e a produtora Prodigo Filmes se utilizam da relevância do gênero documental para trazer a série Outros Tempos Jovens (2018), que estreia nesta quinta (24), no canal Max.

Estabelecendo-se quase como uma segunda temporada de Outros Tempos – Velhos (2017), no que seria uma antologia geracional, a nova produção abrange, através de vários aspectos, a juventude, segundo a classificação atual de alguns pesquisadores, de que esta fase dura dos 15 aos 29 anos. Em conversa com a imprensa após a exibição do primeiro episódio, Giuliano Cedroni, diretor geral da série com Caito Ortiz, estava ao lado do produtor Beto Gauss e Paula Belchior, gerente de produções originais da HBO latino-americana, explicando que, apesar de também contar com especialistas só na pesquisa e não como apoio narrativo nos depoimentos, a atração procura não repetir o formato da parceria anterior da rede televisiva com a produtora, tentando captar em suas diferentes abordagens a modernidade e frescor de seus retratados. Por isso, até a escolha por um tema tão novo como o Digital Dating para abrir a série documental.

Dirigido por Laga Villanova, o episódio de estreia entrevista, em um quarto de hotel na região da Paulista, jovens que utilizam aplicativos de relacionamento constantemente, relatando desde seu primeiro envolvimento com namoros e encontros virtuais no Orkut ou via Skype até o seu uso atual – e, por mais que eles não percebam, descontrolado – do Tinder, Grindr, Hornet e outros apps de paquera. Com eles próprios estabelecendo a diferença que veem entre sexo e amor e contando sobre seus relacionamentos fracassados, o relato revela uma geração que, apesar de, teoricamente, ter uma vida sexual mais ativa a partir de um simples toque no celular, se sente cada vez mais sozinha. Algo que é ainda mais sensível no caso dos entrevistados, que coincidentemente ou não, vieram de outros estados, deixando para trás a sua família para estudar e trabalhar em São Paulo.

Há um cuidado estético da direção e outros setores em pontuar esta contradição visualmente: seja nas inserções de atores representando alguém ou uma noite inesquecível para os retratados, mas em flashes com menos frames por segundo dando o tom efêmero destes casos; ou no slow motion que estende os momentos solitários deles no quarto. Ainda assim, preso em cinco personagens, o episódio traça um retrato pouco abrangente da profundidade do tema e que parece limitado a poucos nichos da complexa juventude contemporânea. A palavra do diretor e dos produtores, no entanto, é que a diversidade será maior nos episódios seguintes, já que neste primeiro ela fica restrita, levemente, à regional e de gênero, enquanto sente-se a falta da racial e da periferia neste recorte.

Olhando os temas que serão discutidos ao longo dos oito episódios, a promessa tem tudo para ser cumprida. No segundo, Primavera Feminina, o feminismo jovem é o mote. Em Identidade, a/o artista Liniker com sua definição como uma pessoa não-binária, que não se considera nem homem, nem mulher, centraliza um painel sobre a questão. O ativismo move o quarto, Eu Mudo o Mundo, e a difícil discussão sobre suicídio está A Quem Possa Interessar, no quinto, que exigiu um trabalho ainda maior da psicóloga que prestou consultoria à produção, para evitar uma exposição excessiva dessas pessoas que se desvelam na frente das câmeras. A nova visão do que é Sucesso, no sexto, é seguida pela vida em República, no sétimo. Cenas de Casamento fecha a temporada de modo surpreendente, pois se o tema dos encontros virtuais revelou uma solidão inesperada, o último episódio foi o mais picante, ao utilizar a auto filmagem como recurso para obter intimidade com os casais.

Se Outros Tempos Jovens fizer o espectador conhecer mais seriamente esta juventude contemporânea através destes temas, a série já cumpriu o seu papel. Se motivar outras produções a explorar o paradoxo de uma geração a quem foi dada muita liberdade, inclusive de sonhar, e, ao mesmo tempo, muitas frustrações advindas de crises econômicas e políticas, o público está no lucro.

Outros Tempos Jovens (2018)

Série documental (estreia) | 1ª temporada: 8 episódios, de 24 de maio a 12 de julho de 2018

Canal: Max | Exibição: Quintas, às 23h

Horário alternativo: terças, às 22h50 (veja outras opções de reprise no site)

Direção Geral: Caito Ortiz e Giuliano Cedroni

Produção: Roberto Rios, Paula Belchior e Patricia Carvalho (HBO Latin America); Beto Gauss e Francesco Civita (Prodigo Filmes)


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