• Nayara Reynaud

LA LA LAND – CANTANDO ESTAÇÕES | Sonhando o passado e o futuro entre as escolhas do presente

Atualizado: Abr 22


Quem diria que, de uma discussão no trânsito que se transformou em provocação mútua, nasceria um amor entre uma atriz em busca de um papel em Hollywood, onde o seu único trabalho tem sido no café de um estúdio, e um pianista que deseja salvar o jazz montando o seu próprio clube?

Mas La La Land – Cantando Estações (2016) é justamente o tipo de filme que gosta de causar primeiras impressões no público e, aos poucos, abandoná-las, desvelando outras camadas. É o que faz com a impactante sequência de abertura, justamente no engarrafamento em Los Angeles, que remonta ao estilo dos musicais clássicos, em especial dos anos 1930 a 1960, dentro da sua proposta de ser uma homenagem ao gênero cinematográfico e à sétima arte como um todo.

Metalinguística, a obra traz uma infinidade de referências, entre citações diretas a dramas que fizeram a historia do cinema, como Casablanca (1942) e Juventude Transviada (1955), e elementos que fazem alusão aos grandes títulos da categoria, a exemplo da icônica cena no poste de Cantando na Chuva (1952) ou as amigas no apartamento em Amor, Sublime Amor (1961). Porém, apesar da ode a essa herança marcante, o cineasta Damien Chazelle escolhe uma estrutura moderna para conduzi-la, com números musicais pontuais, sendo que só algumas contam com as coreografias criadas por Mandy Moore, e são conduzidos por atores que não são exímios cantores para os mais puristas, mas que entregam a mais pura emoção em suas interpretações.

Assim, Emma Stone e Ryan Gosling dão vida a Mia e Sebastian, condutores de uma trama que bebe da fantasia e surrealismo característicos do gênero, mas igualmente consciente do realismo que marca o cinema atual, que só permite o voo da imaginação aos super-heróis. Trata-se de um filme de dualidades que não se opõem, mas se complementam. Por isso, uma discussão pertinente sobre o futuro do jazz – que faz parte da formação do antes músico Chazelle, como já mostrado no excelente Whiplash: Em Busca da Perfeição (2014) –, entre o pensamento classicista do pianista e a experimentação eletrônica de seu colega, interpretado pelo cantor John Legend, diz muito sobre os próprios musicais, que vivem um momento de declínio, e Hollywood, com seus remakes, reboots e CGI’s.

A música, como já poderia se imaginar, tem um papel fundamental no longa, mas a trilha sonora de Justin Hurwitz faz mais do que conduzir as fases do relacionamento de Mia e Sebastian, marcadas pelas estações do ano, como indica o subtítulo nacional. As canções dele, ora alegres, ora melancólicas, tais quais as cores vibrantes e variadas da paleta, que se deixam levar por um azul tristonho na direção de arte de David Wasco e Sandy Reynolds-Wasco e na fotografia de Linus Sandgren, entregam os sentimentos e dilemas comuns a qualquer relação amorosa. Entre a empolgação esfuziante da paixão e as agruras do amor cotidiano, a dúvida de se entregar um pouco à vida do parceiro ou dedicar-se apenas a si, a obra escolhe não percorrer um único caminho, deixando que sonhos iniciais dos personagens sejam modificados conforme as oportunidades em sua trajetória, e sem apontar certezas.

Talvez, o mais perto que chega disso é ao dar a ideia de que, para sonhar, é preciso pôr os pés no chão, mas a realidade também depende dos sonhadores que Mia conclama em Audition (The Fools Who Dream) para movimentar o mundo e criar, por exemplo, este computador, tablet ou celular, em que você está lendo este texto. Aliás, quem faz Hollywood, senão sonhadores como o próprio Chazelle, que teve de esperar seis anos para que um estúdio aceitasse este projeto? No meio tempo, o diretor provou que poderia estar à frente da produção que julgavam arriscada, com o aclamado e lucrativo Whiplash, do qual ele empresta alguns planos aqui, especialmente quando as bandas estão no palco.

O roteiro escrito lá em 2010 não surpreende, até porque se apoia conscientemente em clichês, por causa de sua proposta. No entanto, deixa o melhor para o final. A sequência de encerramento de La La Land é memorável e tão significativa, que tem tudo para se tornar uma daquelas “inesquecíveis” do cinema, além de deixar uma última impressão ótima sobre o filme, recordista de prêmios no Globo de Ouro, com sete estatuetas, e forte candidato para o Oscar. Assim, é inevitável: você vai se pegar, mesmo bem depois da sessão, cantarolando e murmurando City of Stars, como Emma Stone na versão voz e violão dos créditos, a pensar não só em seus amores, mas em todas as escolhas da sua vida.

*A Tatá Snow, na Freakpop, e o Carlos Helí de Almeida, no Globo, compilaram várias referências a outros filmes presentes em La La Land. Vale a pena conferir, especialmente para quem já assistiu.

La La Land – Cantando Estações (La La Land, 2016)

Duração: 128 min | Classificação: Livre

Direção: Damien Chazelle

Roteiro: Damien Chazelle

Elenco: Emma Stone, Ryan Gosling, Rosemarie DeWitt, John Legend, J.K. Simmons (veja + no IMDb)

Distribuição: Paris Filmes

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