• Nayara Reynaud

É TUDO VERDADE 2021 | Abertura – Daquilo que não conseguimos fugir

Atualizado: Abr 11


De volta ao seu calendário normal em abril, começando nesta quinta (8) e sendo realizado até o dia 18 deste mês, o É Tudo Verdade 2021 repete e procura expandir a fórmula de sucesso aplicada no ano passado. Se o formato virtual era uma incerteza necessária para um momento de emergência em 2020, agora, em que a situação da pandemia se mostra mais grave no Brasil, o modelo não é apenas mandatório, mas sim uma maneira eficaz de alcançar um público maior, seja dentro ou fora das cidades de São Paulo e do Rio de Janeiro, onde o maior festival de documentários da América Latina geralmente é sediado. Por isso, esta 26ª edição do evento mantém a exibição gratuita na plataforma Looke das suas mostras competitivas de longas e curtas, tanto nacionais quanto internacionais, além dos filmes de abertura e encerramento, sessões especiais, as da “Marker, 100” e dois títulos da “Caetano.doc”; enquanto amplia o alcance no streaming apresentando as mostras O Estado das Coisas, Foco Latino-Americano e Homenagem a Ruy Guerra no Sesc Digital e a mesma homenagem ao cineasta luso-brasileiro, outras seis produções da mostra sobre o cantor baiano e uma do ciclo O Estado das Coisas na Spcine Play – a 18ª Conferência Internacional do Documentário, que integra o programa, já ocorre desde ontem e se encerra hoje no Itaú Cultural.


É possível conferir toda a seleção e programação no site do É Tudo Verdade, além de acompanhar a nossa cobertura diária do festival, que trará os destaques para você não perder nada da pungente produção documental contemporânea no país e no mundo, começando pelo filme de abertura desta edição, Fuga (2021), longa dirigido por Jonas Poher Rasmussen que foi o vencedor do prêmio de Melhor Documentário no último Festival de Sundance.

Fuga (Flee, 2021)


Imagem do documentário de animação Fuga (Flee, 2021), dirigido pelo dinamarquês Jonas Poher Rasmussen | Foto: Divulgação (É Tudo Verdade)

Talvez seja prematuro afirmar, mas, somente por aquilo que já foi disponibilizado à imprensa até então, que consiste nos longas das mostras competitivas nacional e internacional que serão exibidos nos próximos três dias de festival, é possível dizer que Fuga sintetiza um sentimento comum presente nos títulos da seleção do ETV 2021, já presente em seu nome. Em quase todas as produções vistas a princípio, há uma necessidade de fazer seus resistentes personagens e também o público confrontarem traumas pessoais ou coletivos, escamoteados por muito tempo em um passado do qual preferem fugir ou até mesmo vindos de um presente tão incômodo que faz muitos fecharem os olhos para o que está acontecendo ao redor. Se a maneira como cada título destrincha isso para diferentes cenários e temas, tal qual a verificação se o mesmo se repete no resto da programação, será detalhada ao longo da nossa cobertura, o filme de abertura os comunga de uma maneira particular, começando pelo fato de ser um documentário de animação.


Embora a plateia do Anima Mundi, por exemplo, esteja mais acostumada a assistir curtas-metragens que utilizem o hibridismo entre os dois gêneros, não é muito comum ocorrer o mesmo no É Tudo Verdade, ainda mais com um longa. A obra de Jonas Poher Rasmussen ter levado o maior prêmio entre os documentários na sessão World Cinema de Sundance referenda tal “ousadia” pouco vista na curadoria do evento documental, e basta conferi-la para entender que a técnica não é um mero acessório. Quando, logo na cartela inicial, há o aviso de que a produção é baseada em fatos reais e alguns nomes e locais foram alterados para proteger as pessoas envolvidas, fica claro que a animação, tal qual o uso do deepfake em Welcome to Chechnya (2020), é uma forma criativa de não revelar a identidade de Amin, como é chamado o refugiado afegão que é amigo do cineasta dinamarquês, nem de seus familiares.


Contudo, mais do que criar um avatar para o protagonista, a escolha também acrescenta camadas narrativas importantes ao filme. Os registros documentais ajudam a pontuar o contexto a que Amin se refere ao contar sua história para o antigo colega de escola, desde as tensões e a guerra civil no Afeganistão no final da década de 1980, que atingiram sua família e o obrigou a sair do país, passando pelos duros anos de reabertura da Rússia após a dissolução da União Soviética e o drama dos refugiados tentando chegar à Europa no início dos anos 1990 – infelizmente, uma problemática ainda atual. Porém, a animação se torna instrumento de reconstituição das memórias mais profundas deste homem, sejam elas reais ou criadas para a sua própria segurança.


Existe esse ingrediente ficcional de um roteiro que se revela aos poucos ao público, mas a ludicidade dos traços animados em 2D – e que se transforma em um esboço sombreado quando o personagem está contando uma lembrança contada por seus familiares – não retira o peso de uma dura realidade que acompanha este rapaz desde sua tenra idade. A dificuldade de encontrar e se sentir em um lar na Dinamarca com o seu parceiro e os problemas atuais no relacionamento são aos poucos elucidados ao se recompor a trajetória de Amin, não apenas como uma fuga física de seu país natal, mas também de si mesmo, a medida que foi obrigado a crescer escondendo sua verdadeira identidade, seja quanto sua situação de imigrante, o destino de sua família, sua sexualidade e, por consequência, seus reais traumas. Ao final, nem ele nem o espectador conseguem escapar deste passado, sendo obrigados a revirar essas feridas ainda abertas no personagem e na sociedade.

Sessão de Abertura

Fuga (Flee, 2021)

Duração: 90 min | Classificação: 12 anos

Direção: Jonas Poher Rasmussen

Produção: Dinamarca, França, Suécia e Noruega

Áudio e Legendas: inglês, dinamarquês, russo, dari e sueco | legendas em português

> Sessão – 08/04/2021 (quinta), às 21h00

Disponível no Looke, com limite de até 2.000 visualizações


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