• Nayara Reynaud

OS IRMÃOS WILLOUGHBY | Bala ácida

Atualizado: Set 18



Para ninguém dizer que não foi avisado, Os Irmãos Willoughby (2020) já inicia anunciando que não se trata do “filme família” esperado. O alerta da nova animação original da Netflix é o tipo de isca perfeita para quem deseja consumir algo diferente do habitual para este público-alvo. Incomum, mas não necessariamente inédito, pois a produção segue a linha de Desventuras em Série, seja a dos livros de Lemony Snicket / Daniel Handler ou das suas adaptações audiovisuais, com todo o humor ácido peculiarmente injetado dentro de uma fábula infantil.


Esse tom já está presente no seu material de origem escrito pela norte-americana Lois Lowry, mas o diretor Kris Pearn leva a sobriedade encontrada nas ilustrações encontradas nas páginas de The Willoughbys (2008) para um universo extremamente colorido nas telas. A frente de seu segundo longa, depois de Tá Chovendo Hambúrguer 2 (2013), o cineasta investe em uma paleta de cores de “arco-íris”, digna de Trolls (2016), embora mantenha o ar gótico que se espera da história no cenário principal da casa, atingindo um toque maior de A Família Addams do que a recente versão animada de 2019. O equilíbrio entre esses elementos visuais mais infantis e a perspicácia adulta do texto nem sempre é atingida, mas a receita digna daquelas vibrantes balas de goma ácida é interessante o suficiente para a diversão de todos os membros da família que estão reunidos em casa, neste momento de quarentena.


Uma ironia pensando que a trama trata de um clã tão disfuncional quanto os Willoughbys. Como explica o felino narrador (voz original de Ricky Gervais e dublagem brasileira de Guilherme Briggs), a longa linhagem de pessoas inventivas e de grandes bigodes encontrou na ponta final de sua descendência, a figura do Pai (Martin Short / Cláudio Galvan) destes irmãos, de uma criatividade tão pequena quanto os pelos em seu buço, e de sua esposa também dotada de poucos talentos e também chamada só de Mãe (Jane Krakowski / Angélica Borges). Apesar de serem apaixonadíssimos um pelo outro, os pais são egoístas em relação aos filhos, que não cuidam ou ao menos gravam o nome.


O público, por sua vez, logo é apresentado ao primogênito Tim (Will Forte / Yan Gesteira), à cantante Jane (dublada pela cantora pop Alessia Cara no original e Vic Brown na versão nacional) e aos pequenos gêmeos inventores Barnaby (Seán Cullen / Wirley Contaifer) – depois diferenciados por “A” e “B” já que seus (ir)responsáveis lhe deram a mesma alcunha. Tendo só um ao outro para sobreviverem, esses irmãos tem a vida transformada quando uma bebê órfã é deixada em frente à antiquada casa da família e eles têm a ideia de também “ficarem órfãos” e escaparem do descaso rotineiro ao se livrarem de seus progenitores. O plano do quarteto, então, é o de embarcar o casal em uma viagem de férias tão periculosa que só tenha passagem de ida, mas o garoto mais velho não contava com as dificuldades do mundo adulto e a chegada de uma animada babá (Maya Rudolph / Marcia Coutinho).


Apesar disso e da ousadia no destino de alguns personagens, na sua essência, a moral da obra ainda é familiar, valorizando as relações genuínas que constroem uma família acima dos laços de sangue que, por vezes, não significam nada para certas pessoas. O roteiro de Pearn e Mark Stanleigh passa superficialmente sobre determinados aspectos, mas a troca de diálogos rápidos é a força que move o filme. Há também a bem sacada integração do gato como narrador, ultrapassando a preguiçosa ferramenta narrativa com o sarcasmo autorreferente de sua figura e sua intromissão nos rumos da trama.


Em termos técnicos, existe uma ambiguidade igualmente interessante na produção canadense e norte-americana da Bron Animation, estúdio que só havia investido diretamente no gênero com os especiais mais simplórios para a TV de Mighty Mighty Monsters. Os cabelos de lã ruivos característico dos irmãos Willoughby, bem como outros aspectos dos personagens, trazem um visual que recorda o stop motion visto em trabalhos da Laika, por exemplo, enquanto a agilidade da ação carrega o estilo dos tradicionais cartoons televisivos, mas a execução da animação é digital mesmo. Enfim, uma excentricidade bem-vinda que acompanha o DNA de seus protagonistas.

Os Irmãos Willoughby (The Willoughbys, 2020)

Duração: 92 min | Classificação: 10 anos

Direção: Kris Pearn e cordireção de Rob Lodermeier e Cory Evans

Roteiro: Kris Pearn e Mark Stanleigh, com argumento de Kris Pearn, baseado no livro “The Willoughbys” de Lois Lowry

Elenco: vozes originais de Will Forte, Maya Rudolph, Alessia Cara, Terry Crews, Martin Short, Jane Krakowski, Seán Cullen, Ricky Gervais, Brian Drummond e Nancy Robertson (veja + no IMDb) | dublagem brasileira: Yan Gesteira, Vic Brow, Wirley Contaifer, Guilherme Briggs, Marcia Coutinho, Angélica Borges, Cláudio Galvan, Marcio Dondi e Sylvia Salustti

Plataforma: Netflix (streaming)



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