• Nayara Reynaud

ANNABELLE 3: DE VOLTA PARA CASA | Um retorno para outro lar

Atualizado: Jul 23


Em determinado momento do novo filme do universo Invocação do Mal – The Conjuring, originalmente em inglês –, Annabelle 3: De Volta Para Casa (2019), a famosa boneca que tem o poder de atrair tantos maus espíritos em sua busca incansável por almas para consumir “escreve” um de seus típicos bilhetinhos, perguntando a uma personagem se sentiu saudade dela. O público, porém, não teve muito tempo para ter saudades de Annabelle, já que o último longa contando as suas origens foi lançado há apenas dois anos: Annabelle 2: A Criação do Mal (2017), cuja trama antecede o primeiro Annabelle (2014). Na realidade, depois de alguns spin-off’s não tão bem sucedidos – em termos narrativos, porque bilheteria ainda não é um problema para a franquia – como A Freira (2018) e A Maldição de Chorona (2019), os fãs realmente deviam ansiar por ver de novo Ed (Patrick Wilson) e Lorraine Warren (Vera Farmiga), os investigadores paranormais cujas aventuras baseadas no casal real foram retratadas com mais eficiência no primeiro Invocação do Mal (2013) e na sequência Invocação do Mal 2 (2016).

Para tanto, o terceiro capítulo da saga de Annabelle retoma mais uma vez à cena que abriu este universo, sob outra perspectiva, para acompanhar o caminho dos demonólogos de volta para casa, trazendo a boneca no banco de trás do carro e colocando-a trancada em uma redoma de vidro na sua sala de objetos amaldiçoados. Após esse prólogo, pulam-se dois anos e, em 1973, o foco está na filha do casal, a pequena Judy, que agora é interpretada por Mckenna Grace. A atriz que já encarnou as versões mirins das protagonistas de Capitã Marvel (2019) e Eu, Tonya (2017) confere o tom contido à garota que deseja ser como qualquer outra da sua idade, mas começa a desenvolver os mesmos dons de vidência da mãe e sofre com as visões de espíritos, além do bullying dos colegas humanos na escola, por causa do trabalho dos seus pais, chamados publicamente de charlatões.

Sua única companhia mais próxima é Mary Ellen (Madison Iseman), sua babysitter adolescente – um tipo presente no gênero desde o clássico Halloween – A Noite do Terror (1978) – que fica encarregada de cuidar da menina por uma tarde e uma noite enquanto os Warren viajam à trabalho. Mas assim como estava claro desde o início que manter este “museu do mal” dentro de casa, um dia, iria dar problemas, também era óbvio que alguém ia mexer no que está quieto, o que fica mais evidente com a entrada de Daniela (Katie Sarife), a amiga enxerida da jovem. Aliás, pesa ao filme de Gary Dauberman, que foi o roteirista de toda a trilogia Annabelle e também de It: A Coisa (2017), a dependência desta típica personagem bisbilhoteira – até ao excesso, apesar das justificativas e boa interpretação da atriz – para a existência da trama.

Essa fragilidade do roteiro, porém, não é a única pois, nesta Noite no Museu de Objetos Amaldiçoados dos Warren – ou Pesadelo no Museu, como afirmou o produtor James Wan, que foi o responsável pelos dois Invocação do Mal e colaborou com o argumento deste, sobre a intenção desta história –, nunca realmente Dá a Louca nos Monstros Demoníacos que são liberados imprudentemente. É até interessante, à princípio, como Dauberman, em sua estreia na direção, joga com a expectativa do público de terror desde o início, na cena da Lorraine e o mapa, mas a quebra instigante que dá margem a uma crescente de tensão nesta sequência não se repete depois, pois posterga-se a todo o momento, diversas vezes com piadas, o susto, porque o cineasta não se aproveita, especialmente como roteirista, do potencial que tem em mãos com tantos espíritos e demônios a serem explorados. É louvável a intenção de evitar os jump scares que se tornaram um recurso frequente e muitas vezes preguiçoso no gênero, mas a impressão é que Annabelle 3 é o Capitão América: Guerra Civil (2016) do Universo The Conjuring, ao ser aquele primeiro filme a tentar juntar seus vários elementos, mas sem conseguir aprofundar questões dos personagens espirituais e encarnados e entregar apenas um grande combate que a plateia estava esperando: aqui, porém, além de ser mais superficial na apresentação da história e “poderes” de cada espírito, demônio ou canal para a vinda deles e não trazer a aflição humana com os questionamentos morais de antes desses contos religiosos sobre o Bem e o Mal que caracterizam esta franquia – assim como a questão da maternidade que não é trabalhada neste –, não existe nem um grande clímax.

Revelando um senso estético apurado, por exemplo, no plano em que utiliza com sagacidade a roda de cores de celofane do abajur setentista, o diretor é, portanto, eficiente na criação de tensão em alguns objetos aparentemente inofensivos, como outros brinquedos e uma televisão. No entanto, tal qual a neblina constante no longa, isso disfarça por um tempo o fato de não conseguir desenvolver os seres maléficos ou histórias sombrias por trás deles, fazendo da produção mais um catálogo de possíveis sequências do que realmente uma introdução dessas assombrações para o futuro spin-off de cada um, que a indústria hollywoodiana provavelmente não deixará passar. Mas se cada capítulo da trilogia que roteirizou apresenta um tom diferente, neste final – será mesmo? – que tem a oportunidade de comandar também na direção, Dauberman assume a vocação de Annabelle 3 ser o filme do verão norte-americano ou de férias aqui, com seu clima mais descontraído dentro da franquia, quase de uma terror adolescente oitentista em plenos anos 1970, divertindo, mesmo que assustando pouco.

Acima do inconsistente primeiro longa, mas abaixo do segundo mais assertivo, este terceiro só confirma como a saga da boneca Annabelle permanece aquém do tratamento mais humano e apurado na construção narrativa e do horror vistos na principal, com a dobradinha de Invocação do Mal. Por isso, ao final, o espectador pode até sair satisfeito, mas ainda sentirá saudades disso que, a princípio, destacou este universo dos Warren em relação a tantas franquias genéricas no gênero.

Annabelle 3: De Volta Para Casa (Annabelle Comes Home, 2019)

Duração: 106 min | Classificação: 14 anos

Direção: Gary Dauberman

Roteiro: Gary Dauberman, com argumento de James Wan

Elenco: Mckenna Grace, Madison Iseman, Katie Sarife, Vera Farmiga, Patrick Wilson, Michael Cimino, Samara Lee, Luca Luhan e Steve Coulter (veja + no IMDb)

Distribuição: Warner Bros. Pictures

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