• Nayara Reynaud

BENZINHO | A maternidade em (des)construção

Atualizado: Jul 31


Há uma sensação de familiaridade que transborda de Benzinho (2018) logo em sua primeira cena, em que uma família inteira, adultos e crianças de mãos dadas, tenta atravessar a via para ir à praia. Se a imagem não for nostálgica ao espectador, remetendo às viagens para a cidade litorânea mais próxima – não necessariamente a mais atraente em termos de turismo – nos feriados e férias durante a infância, as cenas seguintes se encarregam de fazer toda a plateia se sentir em casa. Prova disso é a boa receptividade da produção que passou por vários festivais internacionais, como Sundance e Roterdã, e ainda está em competição no Festival de Gramado, enquanto estreia no Brasil.

Pode-se dizer que isso ocorre porque o filme é familiar em vários sentidos. O longa dirigido por Gustavo Pizzi e estrelado por Karine Teles traz, no roteiro escrito pelos dois, a experiência de quando eram casados, para acompanhar os últimos momentos em que a protagonista Irene vive debaixo do mesmo teto que o marido Klaus (Otávio Müller) e seus quatro filhos, entre eles os gêmeos Fabiano e Matheus, vividos pelos seus próprios rebentos Arthur e Francisco Teles Pizzi, e Rodrigo e sua inseparável tuba, que foi interpretado pelo sobrinho da atriz, Luan Teles. Além de abrigar a irmã Sônia (Adriana Esteves) e o filho dela (Vicente Demori), há ainda o seu primogênito, o promissor goleiro de handebol escolar Fernando (Konstantinos Sarris, ator grego que cresceu no Brasil e, depois de estar na TV em Os Dias Eram Assim (2017), faz uma boa estreia no cinema), que recebe um convite para jogar na Alemanha, mas o prazo para a mudança é de apenas 20 dias.

“Quando começou o projeto, eles (os filhos) eram muito pequenininhos ainda e a gente, uma hora, se tocou que se eles saíssem de casa tão cedo quanto a gente saiu, a gente teria mais 15 anos com eles em casa, no máximo”, contou Karine, que também é roteirista da produção, na coletiva de imprensa do filme, na última terça (21) em São Paulo, falando de como imaginar isso e o quanto os seus próprios pais sentiram a partida deles mesmos deu início à história de Benzinho. Pizzi, que também assina o roteiro, não imaginava que seu filme ”pessoal, mas não biográfico”, seria encenado “com pessoas tão próximas, a princípio”, mas as coisas foram acontecendo. Durante o workshop para escolher quem faria o Fernando, os pequenos entraram em uma improvisação e deu certo; o sobrinho Luan, que morava em Maceió, em Alagoas, mandou um vídeo de teste para o papel, para o qual fez fono para o sotaque e aulas de tuba; enquanto Konstantinos Sarris, o escolhido para ser o primogênito, sendo o último a fazer o teste, passou por uma preparação para parecer este prodígio do esporte – o próprio Gustavo já foi goleiro de handebol.

À primeira vista, um drama sobre a síndrome do ninho vazio que abate Irene com a saída de casa acelerada e prematura do filho de 16 anos, a produção se expande enquanto a protagonista lida com outras questões familiares e suas próprias realizações pessoais, a exemplo da sua formatura do supletivo. Se o roteiro e direção fogem de um possível melodrama e encontram a linha tênue da comédia dramática neste cotidiano familiar, é na atuação naturalista e visceral de Karine Teles que o filme guarda o seu maior trunfo, fazendo o espectador reconhecer falas, trejeitos e ações de sua própria mãe, ou melhor, de todas as mães em Irene. “Essa grande alteração de emoções que as mães vivem num dia só, momentos de extrema alegria e momentos de desespero profundo, isso é muito da minha observação, da observação das minhas amigas, da minha própria mãe, da minha vó (...) faz parte do amor esse desespero”, explicou a atriz sobre a sua preparação para o longa, que entra no mesmo rol de produções que o cinema nacional coleciona, em seus sucessos de público e crítica recentes, e trazem uma figura materna central – mas nem Central do Brasil (1998) ou Que Horas Ela Volta? (2015), por exemplo, se constroem fundamentalmente como um retrato da maternidade como Benzinho.

No entanto, há um reconhecimento igualmente dessa família como um todo pelo público, seja na maneira como os diálogos, por vezes, se atropelam, bem como outras estranhezas dessa dinâmica que a tornam muito autêntica. Filmando na neblina de Petrópolis e em uma Araruama menos ensolarada que o esperado – cidade da Região dos Lagos fluminense, cujo lago atrai a população do outro município da Região Serrana do Rio de Janeiro –, o diretor buscou “sempre colocar a família quase toda dentro do quadro, apertando, então são quadros muito controlados para parecer que não são controlados”, a fim de criar essa sensação de aperto e confusão familiar através dos enquadramentos com o fotógrafo Pedro Faerstein.

Se a parceria cinematográfica entre Pizzi e Teles já rendera o elogiado Riscado (2010), ela só demorou a acontecer novamente porque não dava para realizar este segundo longa da mesma maneira independente, com parcerias e as pessoas aceitando participar de graça, segundo Karine, que brincou não ter mais cara-de-pau para pedir isso, além desta produção pedir mais estrutura. A produtora Tatiana Leite, também presente na coletiva onde revelou ter deixado algumas lágrimas ao ler o primeiro tratamento do script, há cinco anos, afirmou que todo o tempo que levou em encontros de coprodução, para encontrar maneiras de viabilizá-lo, ”foi bom para o tempo de amadurecimento do roteiro”. Foi com os vizinhos do Uruguai que os brasileiros conseguiram produzir o filme e Gustavo frisou como esta cooperação trouxe o dedicado técnico de som uruguaio Rafael Alvarez e um cuidadoso processo de pós-produção no Chile, com o designer de som Roberto Espinoza, já que o desenho de som cumpre um papel extremamente narrativo na história – já a trilha sonora de Danny Roland, Pedro Sá e Maximiliano Silveira, por vezes, se sobressai desnecessariamente à cacofonia já existente e simbólica no som ambiente, apesar dos acordes de guitarra, em outros momentos, trazerem uma ternura interessante à história.

Da mesma maneira, os principais cenários servem de maneira significativa à trama, seja no paralelo da casa ruindo com a protagonista ou nos três imóveis sempre pendentes que retratam esta classe média baixa, alimentada por sonhos e dificuldades em uma gangorra constante. Este quadro se completa com a figura de Klaus, encontrando um excelente Otávio Müller para delinear o otimismo e a desilusão que o seu personagem carrega simultaneamente, além de cenas de uma paternidade terna, como a da geladeira que, segundo Luan Teles disse na coletiva, não estava planejada. Teles, que por sua vez aparece, em um breve momento, em uma posição inversa a que interpretou em Que Horas Ela Volta? de uma nociva relação patroa-empregada, não só elogiou o trabalho como a disposição de Adriana Esteves, que aqui traz à tona outra questão, infelizmente, sempre atual que é a da violência doméstica na pela dessa mulher que se refugia com o filho na casa da irmã de seu marido explosivo e dependente de drogas, interpretado pelo uruguaio César Troncoso.

É na maternidade, porém, que a Benzinho, cujo título vem da forma como os pais de Pizzi se tratam carinhosamente entre si e que foi transposto para a protagonista e seus filhos aqui, conversa de maneira universal com o público. “Uma história de Petrópolis e Araruama que fala com todo mundo”, frisou Tatiana, destacando como plateias bem diferentes, dentro da estreia mundial no Festival de Sundance, e nos lançamentos em vários países, incluindo a Espanha onde está sendo exibido em 46 salas, tem recebido bem a história. Tanto a produtora quanto o diretor e a atriz salientaram a necessidade do “boca-boca” do público para que, em uma fase tão complicada para o cinema nacional em termos de bilheteria, na torcida deles, “o filme vá para o maior número de cidades possível”, disse Karine sobre uma obra que põe a lente sobre o incrível trabalho de ser mãe, tarefa que, ela ressalta, ninguém nasce preparada.

=> Leia e ouça a entrevista com o cineasta Gustavo Pizzi e a atriz e corroteirista Karine Teles sobre o filme Benzinho no nosso podcast NERVOS Entrevista #6

Os produtores Rodrigo Letier e Tatiana Leite, o diretor Gustavo Pizzi, a atriz e corroteirista Karine Teles e o ator Luan Teles na coletiva de imprensa, em São Paulo, do filme Benzinho

Benzinho (2018)

Duração: 95 min | Classificação: 12 anos

Direção: Gustavo Pizzi

Roteiro: Gustavo Pizzi e Karine Telles

Elenco: Karine Teles, Otávio Müller, Adriana Esteves, Konstantinos Sarris, César Troncoso, Luan Teles, Vicente Demori, Arthur Teles Pizzi, Francisco Teles Pizzi, Mateus Solano, Pablo Riera, Camilo Pellegrini e Ariclenes Barroso (veja + no IMDb)

Distribuição: Vitrine Filmes

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