• Nayara Reynaud

NÃO SE ACEITAM DEVOLUÇÕES | Heranças genética e cultural


Se o título Não Se Aceitam Devoluções (2018) recorda uma transação comercial, foi justamente de um acordo internacional entre produtoras que se originou o novo filme estrelado por Leandro Hassum que chega aos cinemas brasileiros nesta quinta (31). Na coletiva de imprensa em São Paulo, na segunda retrasada (21), a produtora Walkíria Barbosa explicou como o contato que a Total Filmes tem com a mexicana Alebrije Cine y Video originou a troca que levará uma versão de Se Eu Fosse Você (2006) para o México e trouxe para o Brasil o remake de Não Aceitamos Devoluções (2013), longa dirigido, coroteirizado e estrelado por Eugenio Derbez, ator e humorista muito famoso por lá. A produção mexicana foi recorde de bilheteria, não só no país de origem como também nos Estados Unidos, onde se tornou o primeiro em arrecadação entre filmes de língua espanhola, e rendeu versões na Turquia e na França: respectivamente, Sen Benim HerŞeyimsin (2016) e Uma Família de Dois (2017), esta última protagonizada por Omar Sy e lançada no circuito nacional.

Isso se deu porque, apesar de ser necessária uma adaptação cultural, a história é universal, como bem observou Walkíria. Tanto ela quanto o diretor André Moraes falaram de “tropicalizar” e “abrasileirar” o remake, evitando certas referências, porém, o roteiro adaptado por Ana Maria Moretzsohn e Patrícia Moretzsohn segue de modo quase fidedigno o original, ainda que tenha cerca de dez minutos a menos. Na trama de um garanhão que recebe a visita de uma ex-namorada norte-americana lhe deixando uma bebê que diz ser sua filha, as cenas e piadas são praticamente as mesmas do longa mexicano, com diferenças bem pontuais: se as histórias que Juca Valente (Hassum) cria, através de falsas cartas à Emma (Manuela Kfouri), agora uma menina de sete anos, sobre a mãe que a abandonou (a cubana Laura Ramos em seu quarto trabalho no Brasil) são ilustradas por desenho aqui, lá eram contadas por animação em stop motion – sem falar na trilha sonora melodramática mais presente no outro filme latino.

Assim como a outra produção, só foram filmadas algumas externas em Los Angeles, em apenas cinco dias com Leandro Hassum e a equipe técnica na cidade californiana onde o medroso Valente acaba se tornando dublê para cuidar da filha. Barbosa esclareceu que uma grande mansão no bairro do Morumbi, em São Paulo, serviu de locação para a casa do Guarujá, cidade do litoral paulista em que o protagonista morava; o apartamento deles nos Estados Unidos; o consultório médico; e o escritório de Bob Gomez (Jarbas Homem de Mello, reconhecido no teatro musical, se arriscando no cinema), o produtor de elenco que o contrata em Hollywood. A produtora também destacou o estudo de cor da Califórnia, emulada pelo trabalho da fotografia e do colorista, fazendo com que só quem realmente conhece certos cenários paulistas, como o parque de diversões Hopi Hari – ou no caso desta crítica que vos escreve, a escola técnica onde estudou ao fundo da filmagem embaixo da Ponte Estaiada –, os reconheça na L.A. fictícia do filme.

O mesmo esmero, contudo, não se encontra em outros detalhes da produção. A cenografia de interiores, especialmente no apartamento de Juca e Emma, no qual Walkíria, que também é diretora de arte do longa, se inspirou em Alice no País das Maravilhas, tem uma ambientação escassa e artificial. No entanto, o Calcanhar de Aquiles está na direção de Moraes, que já fez vários curtas, estreou em longas na comédia escrachada Entrando Numa Roubada (2015) e esteve à frente da série Manual para se Defender de Aliens, Ninjas e Zumbis (2017), mas que não consegue conduzir os clichês da trama de modo tão simpático, até equilibrado e eficiente com que Derbez trabalhou no original.

Embora o roteiro herde a construção incompleta de personagens como Brenda nesta busca pela maternidade abandonada, há menos fluidez no texto do remake, talvez para se encaixar nos moldes do humor de sua estrela, e também no elenco, sempre um tom acima na comédia ou no drama. Trabalhando agora em uma comédia dramática familiar, Hassum declarou, não em tom de crítica, como fez questão de reforçar na coletiva, aos colegas comediantes que em certo ponto de sua carreira desejam investir em papéis mais dramáticos, trabalha sempre com aquilo que o diverte e scripts que o interessem, não indicando que o mais recente trabalho seja uma guinada para outro rumo nos próximos. Aliás, enquanto a estreante Manuela Kfouri falava da ajuda da preparadora de elenco para construir a relação entre pai e filha com o ele, que usava a descontração no set para “ficar pronto” e criar uma intimidade com a atriz mirim, era possível perceber como a persona do humorista se sobressaiu no produto final, cuja progressão dramática não é tão bem-sucedida como no original por momentos em que tanto André e as roteiristas quanto Leandro forçam a barra em certas piadas, a exemplo da sequência com uma figura que recorda certo roqueiro.

O interessante jogo de quebra de expectativa que Não Se Aceitam Devoluções traz de sua origem em seu final pungente consegue atingir em cheio o espectador. Entretanto, o público se dividirá naqueles que irão relevar sua irregularidade anterior e encontrar um bom e emocionante passatempo com sua família neste filme que, provavelmente, passará na TV em todo Dia dos Pais, nos próximos anos, e aqueles que ficarão pensando no quanto a obra está sempre aquém da história que tem em mãos e que comprovarão isto vendo as outras versões desta homenagem à paternidade.

Não Se Aceitam Devoluções (2018)

Duração: 103 min | Classificação: 10 anos

Direção: André Moraes

Roteiro: Ana Maria Moretzsohn e Patrícia Moretzsohn, adaptado do filme “Não Aceitamos Devoluções”, roteirizado por Letícia Lopéz Magalli, Eugenio Derbez e Guillermo Ríos

Elenco: Leandro Hassum, Manuela Kfouri, Laura Ramos, Jarbas Homem de Mello, Zéu Britto, Maria Bia e Ana Carolina Machado (veja + no IMDb)

Distribuição: Fox Film do Brasil

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