• Nayara Reynaud

O INSULTO | Vítimas e réus


“Este filme não reflete a opinião do país”. O aviso oficial na cartela inicial de O Insulto (2017) pode ser de uma cautela surpreendente aos espectadores não ambientados com as questões nacionais libanesas, mas logo as próprias ações e falas dos personagens se tornam autoexplicativas e os traumas históricos e sectarismo compreensíveis ao longo da projeção. Em certo momento da história, fala-se do cuidado para não ferir a “sensibilidade” de certos bairros e cidadãos no longa de Ziad Doueiri, cineasta local acusado de traição e preso simplesmente por ter filmado O Atentado (2012) em Israel. Por tocar nestas feridas étnicas, religiosas e políticas, a própria produção enfrenta polêmicas no país e foi banida na vizinha Jordânia, por exemplo, mas a sua ousadia foi compensada ao se tornar o primeiro indicado do Líbano ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro.

Para tanto, Doueiri parte de um caso individual para representar um problema coletivo não apenas de modo metafórico e sim narrativo. Um pequeno incidente por causa de uma calha irregular, em um bairro cristão de Beirute que recebe uma reforma pública realizada por uma empreiteira, cujos operários são muçulmanos, gera uma discussão entre um morador, o cristão libanês Tony Hanna (Adel Karam), e o mestre de obras não-oficial, o refugiado palestino Yasser Abdallah Salameh (Kamel El Basha). Nela, é proferido o tal insulto do título – algo cotidianamente proferido no Brasil, mas que é considerado grave na cultura libanesa – e, enquanto um exige cegamente desculpas do outro e nenhuma das partes parece ceder, a desavença se torna um processo jurídico, criando consequências inesperadas para a vida dos envolvidos ao sair do controle dos dois e eclodir em uma espiral de violência física ou verbal e traumas passados em um julgamento que deixa o país em ebulição.

Há, é claro, um orgulho masculino na recusa de ambos em pedir desculpas e tentar uma conciliação, bem contrastado, especialmente, com a figura feminina de Shirine (Rita Hayek), esposa de Tony. No entanto, as raízes de suas atitudes são mais profundas e revelam as cicatrizes ainda abertas na população pela Guerra Civil Libanesa, ocorrida entre 1975 e 1990. No explosivo, impulsivo e intransigente adepto do Partido Cristão, interpretado por Karam, existe o mesmo ressentimento, ainda que por razões diferentes, que habita a alma do introspectivo, comedido e autocrítico engenheiro refugiado, desenhada de maneira sutil na atuação El Basha, premiado com o Volpi Cup no Festival de Veneza de 2017.

Camadas políticas ainda são acrescentadas quando o escritório do famoso advogado cristão conservador Wajdi Wehbe (Camille Salameh) pega o caso de Tony e a liberal Nadine (Diamand Bou Abboud) ajuda a defender Yasser – com direito a plot twist. A guerra retórica domina a dinâmica de filme de tribunal que se instaura na segunda parte do longa, também crítico sobre a atuação da advocacia, mídia e da classe política. No entanto, apesar do poder da palavra a que a obra dá crédito, um pequeno gesto e olhares selam a decisão final que importa ao público.

Trata-se de uma das poucas sutilezas na direção afetada do libanês Doueiri, que busca uma urgência longe da paciente ebulição provocada pelo iraniano Asghar Farhadi nos seus filmes ganhadores do Oscar na mesma categoria, A Separação (2011) e O Apartamento (2016), por exemplo. O diretor, que trabalhou como assistente de câmera em trabalhos do Quentin Tarantino, pesa a mão no uso de uma steadycam rodopiante para forçar uma tensão constante, que já se sustenta pelo instigante narrativa. Escrito pelo cineasta, vindo de uma família muçulmana, e a roteirista de origem cristã Joëlle Touma, com quem foi casado até bem pouco tempo, o roteiro ainda tem o mérito de transformar as opiniões do público sobre os personagens, especialmente sobre Tony, de um lado para o outro durante a trama, em uma curva empática que conversa com a mensagem da obra de que todos ali são vítimas, seja em um plano individual ou em um aspecto coletivo, e igualmente algozes.

A maneira como ela, mesmo sendo tão específica em seu regionalismo, se universaliza para públicos fora do Líbano, faz cogitar se, a exemplo de tantos filmes “multinacionalizados” nos últimos anos, O Insulto ganhe versões em outros países, colocando suas próprias rixas e problemas nacionais em um julgamento conciliatório.

O Insulto (L'insulte, 2017)

Duração: 112 min | Classificação: 14 anos

Direção: Ziad Doueiri

Roteiro: Ziad Doueiri e Joëlle Touma

Elenco: Adel Karam, Kamel El Bacha, Rita Hayek, Camille Salameh, Diamand Bou Abboud, Christine Choueiri, Talal Jurdi, Julia Kassar, Rifaat Torbey e Carlos Chahine (veja + no IMDb)

Distribuição: Imovision

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