• Nayara Reynaud

PADDINGTON 2 | A simetria da gentileza


Um dos animais favoritos de autores para protagonizar histórias infantis, há uma considerável coleção de ursos saídos de livros, desenhos animados e filmes que habitam o imaginário coletivo. Um deles, porém, só passou a ser conhecido por uma parte do público brasileiro em 2014, com a adaptação cinematográfica As Aventuras de Paddington apresentando para novas gerações e plateias distantes o clássico personagem da literatura britânica, criado por Michael Bond em 1958, quando foi lançado Um Urso Chamado Paddington. A publicação viria a ser traduzida em várias línguas, para dezenas de países, e daria origem a outras que imortalizariam a figura do urso andino de chapéu vermelho, apaixonado por marmelada, nascido nas profundezas do Peru e que, ao ser enviado pela tia para a sonhada Londres, é batizado com o nome da estação onde é encontrado por uma família humana.

O simpático e ingênuo animal antropomórfico, cheio de boas intenções que, às vezes, gera certas confusões bem-humoradas, volta às telas em Paddington 2 (2017), demonstrando que a genuína gentileza defendida pelo personagem escrito por Bond – que faleceu em junho passado, justamente no dia em que as filmagens principais da sequência foram finalizadas – há quase 60 anos é cada vez mais necessária aos dias atuais. Nesta continuação, o urso (dublado originalmente por Ben Whishaw e, no Brasil, por Bruno Gagliasso) não apenas alegrou a rotina da família Brown que o adotou no anterior, como nas redondezas de Windsor Gardens, se revelando no verdadeiro “amigo da vizinhança”, com exceção do ainda preconceituoso Mr. Curry (o ex-Doctor Who Peter Capaldi). Querendo presentear sua tia Lucy (voz de Imelda Staunton), que está em um asilo ursino no Peru – contudo o público daqui reconhecerá as Cataratas do Iguaçu como cenário do flashback –, ele se esforça para poder comprar um raro livro 3D / pop-up dos pontos turísticos de Londres, cidade que ela sempre quis conhecer.

O objeto de desejo do protagonista, no entanto, desperta também o interesse do famoso vizinho Félix Buchana (Hugh Grant / dublado por Márcio Garcia), um ator cuja carreira agora está decadente que acredita ter algo a mais do que ilustrações tridimensionais naquelas páginas. Na interpretação de Grant, despido de vaidade e brincando consigo mesmo, nos arredores da Nothing Hill em que um dia estrelou uma de suas mais famosas comédias românticas, o vilão da vez consegue ser mais cômico, mas menos caricato do que a taxidermista vivida por Nicole Kidman no anterior, garantindo ótimos momentos e até uma impagável piada da Sra. Bird (Julie Walters) sobre atores. Narrativamente também, suas ações acabam colocando Paddington em apuros, em que sua salvação estará justamente na sua querida marmelada que agrada o “chef” Rick Montanha (Brendan Gleeson / dublado pelo “Masterchef” Henrique Fogaça).

Este segmento do longa, novamente dirigido por Paul King, dá origem a momentos em que os planos remetem à simetria e comicidade visual particulares de Wes Anderson, com uma sequência de fuga lembrando, especialmente, O Grande Hotel Budapeste (2014). A produção britânica e francesa – a produtora e distribuidora Studiocanal detém o Paddington como marca – novamente traz uma qualidade técnica notável na integração dos personagens animados ao live action e igualmente quando estas figuras digitalizadas em 3D aparecem sobre outras técnicas de animação como na bela sequência de imersão no livro pop-up.

No entanto, esses aspectos técnicos se apoiam em um roteiro cuja narrativa se encontra bem encadeada. Escrito pelo próprio King com Simon Farnaby, roteirista e ator que repete aqui o papel do segurança do primeiro, o texto traz estas e outras familiaridades com o anterior, desde a primordial estação de Paddington novamente como cenário, enquanto propõe uma aventura cômica maior e mais ágil. E, embora os Brown percam espaço em meio a tantos novos personagens e uma trama que não fica restrita a sua casa, o script dá uma nova perspectiva a cada um deles: Henry (Hugh Bonneville) é um pai em crise de meia-idade; Mary (Sally Hawkins, sempre excelente) é uma mãe querendo viver sua própria aventura e não apenas ilustrá-las; a jovem Judy (Madeleine Harris) supera o fim do namoro criando um jornal feminista; e Jonathan (Samuel Joslin) entra na adolescência tentando ser descolado encarnando outra persona, o J-Dog. Há ali vários ingredientes de um filme família feito para agradar tanto os pequenos quanto seus irmãos mais velhos e pais, que funciona por sua ingenuidade cativante.

Esse fator também ajuda a obra a transmitir a sua bem perspicaz mensagem. A do primeiro era de aceitação através da decisão da família decidindo se adotaria ou não aquele filhote de outra espécie, vindo de um lugar tão distante, remetendo à evacuação de crianças, inclusive as inglesas, durante a II Guerra Mundial para falar de imigrantes e refugiados, quando a questão não parecia tão urgente quanto agora. O discurso, ainda mais em um Reino Unido pós-Brexit, permanece neste segundo capítulo, mas Paddington não é mais um estranho e seu comportamento conduz o compasso moral do filme: a importância de ser gentil, ajudar ao próximo e se unir para um bem maior ou comum atinge outros personagens e ultrapassa os limites da tela.

Paddington 2 (Paddington 2, 2017)

Duração: 104 min | Classificação: Livre

Direção: Paul King

Roteiro: Paul King e Simon Farnaby, baseado no personagem “Urso Paddington”, criado por Michael Bond em seus livros

Elenco: Ben Whishaw, Sally Hawkins, Hugh Grant, Hugh Bonneville, Imelda Staunton, Michael Gambon, Madeleine Harris, Samuel Joslin, Julie Walters, Brendan Gleeson, Jim Broadbent, Tom Conti, Peter Capaldi, Noah Taylor, Aaron Neil, Tom Davis, Marie-France Alvarez, Sanjeev Bhaskar, Ben Miller, Jessica Hynes, Robbie Gee e Richard Ayoade (veja + no IMDb)

Distribuição: Imagem Filmes

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