• Nayara Reynaud

MOONLIGHT – SOB A LUZ DO LUAR | Cuidado! Frágil!

Atualizado: Abr 26



Saber mais detalhes daqueles que estão sob os holofotes de Moonlight – Sob a Luz do Luar (2016) dá a certeza, se ainda restava alguma dúvida, o quanto a ficção indicada a oito prêmios no Oscar 2017 contém da verdade vivenciada por vários jovens negros durante seu crescimento e formação, seja lá nos Estados Unidos ou aqui no Brasil.

O longa é inspirado em In Moonlight Black Boys Look Blue, uma peça autobiográfica que Tarell Alvin McCraney escreveu quando estava na escola de teatro, mas que nunca foi produzida e só foi parar anos depois nas mãos de Barry Jenkins, que encontrou vários pontos em comum com a história e resolveu fazer um filme. Tal qual Chiron na trama, o dramaturgo e o cineasta cresceram no mesmo bairro em Miami, embora nunca tenham se conhecido na vizinhança pobre de Liberty City, onde ambos conviveram com suas mães viciadas em crack. E, no caso do escritor, também atormentado com questões de sexualidade, por ser gay como seu personagem.

Moonlight faz valer o título da obra teatral, através da trajetória do protagonista, mostrada em trechos de sua infância, adolescência e vida adulta, a ideia de que a luz do luar revela uma tristeza escondida em todos os garotos negros, em diversos níveis marcados pela violência, drogas e o racismo em suas mais variadas formas, enquanto vivem um mito de si mesmos. Quando criança, sendo interpretado por Alex R. Hibbert, o menino de 9 anos extremamente tímido era chamado de Little; Ashton Sanders vive o adolescente Chiron, cujos conflitos pessoais, familiares e escolares da infância se intensificam aos 16 anos e o levam a se transformar em Black, o traficante de dente de ouro, mas o mesmo tipo quieto que o público conhece já aos 30, na pele de Trevante Rhodes.

Tendo cada ato centrado em uma das três frases, apresentadas de forma cronológica, o roteiro guarda a origem teatral em seu texto, especialmente em um trio de cenas excelentes que, com seus diálogos igualmente sutis e impactantes, fundamentam o primeiro e o terceiro atos. Duas delas contam com a presença marcante de Mahershala Ali, que mesmo em uma participação especial, domina a primeira parte do filme ao destacar a ambiguidade do traficante Juan, que, enquanto leva a mãe adicta de Little à derrocada com as drogas, assume com verdadeiro zelo a figura paterna da qual o menino sente tanta falta. Sua passagem é tão forte que demora um pouco para o espectador ter certeza de que o personagem não voltará mais à trama, pois Jenkins, enquanto roteirista e diretor, prefere deixar certos fatos subentendidos.

Aliás, Naomie Harris é uma força da natureza como Paula, esta mãe, que parece tão correta e rígida a princípio, e se esfacela na frente de Chiron e da plateia conforme seu vício no crack vai aumentando. Sente-se, apenas, que sua personagem poderia ter mais destaque no longa, assim como Teresa, namorada de Juan que a cantora e agora atriz Janelle Monáe encarna como uma interessante substituição dessa figura materna, mas que tem ainda menos espaço.

Essa presença feminina reduzida, talvez, se justifique pelo olhar a uma masculinidade frágil que a obra dedica, desde a observação dos mecanismos de sua construção social forçada até sua dissolução em certas situações, e na abordagem da homossexualidade, um tema ainda mais tabu na comunidade afro-americana. Neste sentido e pela mise-en-scène particular que emprega nas transformações do protagonista, com planos centralizados e slow motion, mas uma fotografia menos etérea e mais carregada nos sentimentos através das cores das lentes de James Laxton, Jenkins dialoga com outro destaque independente do ano passado: se The Fits (2016), de Anna Rose Holmer, trazia pré-adolescentes e jovens negras “reagindo” fisicamente e de uma forma fantástica à opressão por sua raça e gênero, Moonlight reflete os problemas de sua internalização pelos meninos.

No entanto, o que enriquece mais o filme é que seu discurso sobre a fragilidade vai além da figura masculina, embora seja o enfoque principal, e serve para a vida – o que dizer da enfermeira e sua autodestruição a partir do crack –, dos desejos individuais pela pressão coletiva e construção social – o tráfico como via fácil a esses marginalizados da sociedade, o colega que faz bullying e o Kevin como um adolescente reticente são exemplos – e, especialmente, das personas que cada um escolhe adotar em seu dia-a-dia – como Black.

Frágil também pode ser qualquer preconceito que seja levado à sala do cinema, pois como diz a palavra, são ideias prévias não fundamentadas, sem conhecimento, que provavelmente se dissiparão durante o jantar de Black no restaurante em que Kevin (Andre Holland) trabalha. O reencontro dos dois amigos de infância que têm várias questões mal resolvidas do passado é uma das cenas mais românticas que você verá nos últimos tempos. Como diz a música Old 45’s, do duo Chromeo, “se você pensa que o romance está ficando velho, ache uma velha jukebox cheia de 45 rotações, bote uma moeda e tudo volta para mim”.

Moonlight – Sob a Luz do Luar (Moonlight, 2016)

Duração: 111 min | Classificação: 16 anos

Direção: Barry Jenkins

Roteiro: Barry Jenkins, inspirado na peça não encenada “In Moonlight Black Boys Look Blue”, de Tarell Alvin McCraney

Elenco: Alex R. Hibbert, Ashton Sanders, Trevante Rhodes, Mahershala Ali, Naomie Harris, Janelle Monáe, Andre Holland, Jaden Piner e Jharrel Jerome (veja + no IMDb)

Distribuição: Diamond Films

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