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  • Foto do escritorEdu Fernandes

FEST ARUANDA 2022 | O valor de não abrir mão

Atualizado: 7 de dez. de 2022


Cena do longa-metragem pernambucano Propriedade (2022), de Daniel Bandeira, presente no 17º Fest Aruanda | Foto: Divulgação
Cena do longa-metragem pernambucano Propriedade (2022), de Daniel Bandeira, presente no 17º Fest Aruanda | Foto: Divulgação

Os festivais de cinema oferecem uma oportunidade rara para a contemporaneidade: assistir a um filme sem ter qualquer informação prévia acerca da produção. Hoje, com lançamentos de teasers, trailers, campanhas de marketing maciças, memes e toda enxurrada de informação em redes sociais, é quase impossível não formar qualquer expectativa antes de entrar na sala de cinema ou dar play no streaming. Filmes como Propriedade (2022), longa-metragem que compete no Fest Aruanda 2022, ganham muito diante da ignorância de seu espectador. Com isso em mente, se o leitor quiser se preservar para a sessão do título no futuro, a recomendação é que se pule o próximo parágrafo, que contém uma sinopse da produção.


A história acompanha uma mulher rica (Malu Galli), traumatizada por conta da violência urbana. Depois de uma primeira fase de superação, ela vai com o marido para a fazenda da família, que será logo vendida para a construção de um hotel, deixando todos seus trabalhadores repentinamente desamparados. Aliás, trabalhadores talvez seja um termo bondoso demais, pois a massa que vive na propriedade executa trabalho análogo à escravidão. Antes da chegada dos patrões, o grupo começa um levante, o que resulta na protagonista presa dentro do próprio carro blindado, enquanto os proletários decidem os próximos passos de sua ação.


Propriedade é um filme pernambucano e, como tal, marcado por uma forte crítica social, denunciando a opressão nossa de cada dia. Mesmo com esse subtexto político, o longa não abre mão de ser uma peça de entretenimento, lançando mão de todos os recursos que um thriller possui para manter seu público engajado – a começar pelo próprio roteiro, como o cuidado em preservar seus segredos do leitor deste texto denuncia. A dramaturgia não deixa a peteca cair, sempre com novos desdobramentos para manter a história viva e empolgante. Além do ritmo, o roteiro também equilibra bem as forças em choque no conflito. Por vezes, a trama se move por um movimento de engenhosidade da protagonista, enquanto em outros momentos é o outro lado da contenda que faz eclodir novos acontecimentos. Essa trocação franca entre oponentes é a força-motriz do enredo.


Dentro de seu gênero, Propriedade também não abre mão de respeitar a inteligência de seu espectador. A maneira como as ideias se formam na mente dos personagens é apresentada de forma sutil, sem a necessidade de grifar cada passo do caminho com medo de que alguém não entenda o que está se passando. Tal característica apenas acentua a maturidade do roteiro, colocando o público dentro da ação, desempacotando as surpresas concebidas por Daniel Bandeira, que somente neste ano conseguiu lançar seu longa Amigos de Risco (2007).


Com a soma dos fatores anteriormente citados – subtexto social relevante, roteiro arquitetando um embate de forças de maneira equilibrada e respeito à esperteza do espectador –, o filme não abre mão de ser complexo. O resultado é uma experiência de thriller rara, pois não é possível firmar os pés totalmente apenas de um lado do conflito central. Há motivos claros para compreender como cada personagem se comporta, em um jogo de malabares dramáticos executado com maestria.


Tudo isso se segura porque Propriedade não abre a mão de ser um thriller de fato, com todos os truques disponíveis para temperar a aura emocional da produção. Talvez aí possamos apontar alguns incômodos, como a pilha de traumas colecionados pela protagonista ou a forma como algum personagem é retratado com uma paleta mais agressiva. Isso fica evidente no filme porque ele se posiciona dentro de seu gênero ao mesmo tempo em que dá um ar de autenticidade acima da média. Com um realismo mais apurado e humanização evidente de personagens, características inerentes do thriller denunciam suas problematizações.


Por outro lado, tal efeito colateral pode ser lido como mais um êxito do título. O que pode ser indigesto na obra é apenas paisagem de fundo em outros filmes dentro da mesma gaveta. Como fala de questões problemáticas estruturantes dentro da nossa sociedade, essa indigestão faz até sentido. Temos de sentir o incômodo de questões ancestrais varridas para debaixo do tapete; é como poderemos engajar em suas remediações. Isso vale pela forma tosca com que finalizamos a escravidão formal, apenas transformando em trabalhos precarizados e uma mentalidade escravizadora na qual empregados são enxergados como propriedade. Isso também vale pela forma extremamente cuidadosa com que lidamos com os melindres militares, um bando de marmanjo retrógrado que teima em golpear as instituições impunemente de tempos em tempos, desde o final do século XIX. E a lista segue.


Essas questões são duras de serem admitidas e ainda mais duras de serem solucionadas, mas suas resoluções são imperativas, assim como é imprescindível ter contato com obras do calibre de Propriedade para iniciar debates adiados por tempo demais.

 

Duração: 100 min

Direção: Daniel Bandeira

Roteiro: Daniel Bandeira

Elenco: Malu Galli, Zuleika Ferreira, Tavinho Teixeira, Samuel Santos, Ane Oliva, Carlos Amorim, Anderson Cleber Aruandhê Pereira, Natureza Rodrigues, Andala Quituche, Nivaldo Nascimento, Ângelo Fábio, Clébia Souza, Luana Vitória, Roberta Lúcia, Marcílio Moraes, Amara Rita, Maria José, Sandro Guerra, Marilia Souto e Chris Veras (veja + no site)

Produção: Brasil / PE


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