• Nayara Reynaud

É TUDO VERDADE 2020 | Uma viagem guiada pelo gênio de Wim Wenders

Atualizado: 5 de Out de 2020


O cineasta alemão Wim Wenders em cena do documentário Wim Wenders, Desperado (2020), de Eric Fiedler e Andreas Frege | Foto: Divulgação

É com a recomendação, quase em tom de exigência, do realizador compatriota Werner Herzog de que todo cineasta iniciante deveria assistir aos filmes do Wim Wenders que se inicia o retrato documental sobre seu amigo. Mesmo sem isso, Wim Wenders, Desperado (2020) praticamente grita a cada instante a necessidade do espectador de se debruçar na filmografia do desventurado diretor alemão. O longa do australiano Eric Fiedler, de It Must Schwing: The Blue Note Story (2018), e Andreas Frege, ou Campino, como é conhecido o vocalista da banda punk alemã Die Toten Hosen, encerra a programação desta 25ª edição do É Tudo Verdade com uma viagem ao lado do biografado por sua carreira e seu processo criativo único.


Isso porque, depois da dica inicial, é o próprio Wim que surge na tela, recriando tal e qual os passos e gestos perdidos do personagem de Harry Dean Stanton em meio ao deserto texano de Big Bend naquela que é considerada a obra-prima do cineasta, Paris, Texas (1984). Outras cenas do clássico moderno são reencenadas por ele durante sua passagem em 2019 pela cidade de Terlingua, bem como mais alguns momentos de seus trabalhos, a exemplo dos anjos na biblioteca de Berlim em Asas do Desejo (1987). As imagens originais, porém, também aparecem ao longo da narrativa, em especial com uma montagem ainda nesta parte introdutória ressaltando esse espírito errante presente em seus filmes, com personagens rodando pelas estradas ao som de um cover de Road to Nowhere.


O documentário, porém, não assume totalmente a mesma verve, mantendo certa dualidade em seus caminhos. Por mais que haja um tom de road movie em algumas sequências, a ideia que Wenders defende de deixar a narrativa se adaptar à situação ao construir suas histórias no momento em que está filmando não é aplicada por Fiedler e Frege. Com uma estrutura comum a tantas produções documentais biográficas, com os depoimentos de pessoas próximas e colegas de trabalho no mais formal estilo talking heads de entrevista, são essas intervenções do cineasta retratado reencarnando suas próprias obras e seus encontros com o amigo Herzog e a atriz austríaca Erika Pluhar junto a uma montagem ágil que não deixam o longa transitar apenas no lugar comum.


Há um interesse genuíno dos diretores em levar aos fãs um relato do próprio Wenders sobre os elementos que influenciaram o seu cinema, particularmente a infância na Alemanha do pós-guerra e a busca pelo “Sonho Americano” que via nos filmes hollywoodianos. Há a visita pelo pequeno flat em Paris onde o jovem Wim pensou em investir na pintura até se dar conta de que realizaria todas as suas ambições através da Sétima Arte, porém é na ligação da paisagem industrial que via da janela de casa, ao crescer na região do Ruhr, com o cenário desértico do Texas que a narrativa se apega. Na busca por realizar um “filme norte-americano”, o promissor cineasta alemão de O Amigo Americano (1977) partiu para a “América”, mas sem conseguir obter o feito como queria, concebeu justamente Paris, Texas, com seu olhar estrangeiro para o verdadeiro Estados Unidos, e Asas do Desejo, uma obra de um repatriado que “não podia escapar do fato de ser alemão”, como o mesmo define.


Seu fracasso lá com o projeto de Hammett – Mistério em Chinatown (1982) não é deixado de lado. Após quase uma hora e meia de elogios à genialidade do biografado, Desperado se permite trata-lo como uma pessoa também suscetível a erros, dando destaque no último ato às complicações durante o processo de filmagem nos relatos respeitosos, mas ainda ressentidos de Wenders, como o diretor que teve a sua autoralidade podada, e Francis Ford Coppola, como o produtor que precisou consertar os grandes desvios tomados pelo realizador que admirava. No depoimento da esposa Donata Wenders também surgem traços mais humanos, embora ainda reticentes de um discurso de “gênio incompreendido”, de um workaholic que, sem ter a mesma liberdade de antes na indústria cinematográfica atual, tem se tornado mais irritado, chegando a gritar no set; especialmente quando se trata de ficções, diferente dos documentários aos quais tem se dedicado mais nos últimos anos por poder exercitar sua livre criatividade.


“Pra que contar uma história se você já sabe o final”, atesta o cineasta logo no início, deixando claro a sua filosofia de autor. Se Desperado não se joga como o mesmo no seu retrato, o público consegue curtir as paradas e desvios dessa viagem a um destino conhecido.

Filme de Encerramento

Wim Wenders, Desperado (2020)

Duração: 120 min

Direção: Eric Fiedler e Andreas Frege

Produção: Alemanha

> Sessão – 04/10/2020 (domingo), às 20h00 (após a cerimônia de premiação)

No site do É Tudo Verdade ou diretamente no Looke



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