• Nayara Reynaud

O HOMEM INVISÍVEL | O terror da invisibilidade


Na atual era dos remakes e reboots de Hollywood, os maiores e melhores recursos técnicos de hoje, por vezes, servem de única justificativa para a tentativa de arrecadar maiores bilheterias, mimetizando simplesmente a mesma história tão bem contada antes – aliás, há de se perguntar por que, em vez de mexer em obras-primas que podem sempre ser revistas, os produtores com essa tendência não se voltam para aqueles projetos que tinham um grande potencial, mas não foram bem executados por ene motivos e merecem uma nova chance?

Observações à parte, o fato é que parecia ser essa a ideia da Universal quando anunciou um novo O Homem Invisível (2020), levando mais uma vez às telas a trama do clássico O Homem Invisível (1897), do escritor H.G. Wells, que o estúdio adaptou pela primeira vez, no filme homônimo de 87 anos atrás, como parte da tentativa de reavivar a sua franquia de monstros dos anos 1930 e 1940 com um universo compartilhado. O fracasso do remake de A Múmia (2017), estrelado por Tom Cruise, foi uma pá de cal nos sonhos de criar o tal Universo Sombrio, mas a decisão posterior de dar liberdade criativa a cada um dos cineastas para apresentar individualmente esses personagens se revelou um bom fortúnio para a recente produção, que nas mãos de Leigh Whannell, se viu livre de amarras e atualizou a narrativa do livro e do longa original.

Em um caminho contrário ao tom d'O Homem Invisível de 1933, o roteirista das séries cinematográficas Jogos Mortais e Sobrenatural se mostra mais atento ao terror dessa invisibilidade do que ao humor da situação, procurando bases sólidas e realistas ao reimaginar o conceito de Wells dentro de um thriller psicológico alicerçado em um problema cotidiano e no pensamento contemporâneo. Se a produção outrora dirigida por James Whale se prendia mais à ganância humana, particularmente a científica, levando um indivíduo à loucura, Whannell agora busca nas raízes do texto original a figura sociopata ou psicopata de Griffin. O personagem, porém, não somente se torna claramente o antagonista, como perde seu protagonismo para a sua maior vítima neste caso: a sua namorada, aqui interpretada por Elisabeth Moss, com o mesmo afinco e talento que é usual na atriz de The Handmaid’s Tale (2017).

O diretor de Sobrenatural: A Origem (2015) pode ter recorrido ao estereótipo feminino e ao velho clichê de seu destino fatal como meros artifícios narrativos para a motivação do protagonista de seu último longa, Upgrade: Atualização (2018), mas se redime no seu novo trabalho, dando atenção e voz a uma mulher vítima de um relacionamento abusivo. O cenário é a São Francisco dos dias atuais e o público conhece Cecilia Kass (Elisabeth Moss) já no momento de sua fuga da casa ultra vigiada de seu companheiro. Trata-se do milionário da tecnologia óptica Adrian Griffin, vivido por Oliver Jackson-Cohen, ator da série A Maldição da Residência Hill, cujo rosto é sabiamente revelado bem depois e escassamente, ajudando a não personalizar a imagem do agressor e universalizar o debate – e pensar que, ironicamente, Johnny Deep, que enfrentou acusações de violência doméstica, viveria o papel no então projeto idealizado para o Universo Sombrio.

Aliás, o filme faz questão de não mostrar a violência que ela sofreu, em parte como um indício da dificuldade de materializar e comprovar o abuso, especialmente o psicológico, por parte das vítimas, e também por decidir focar-se nas suas consequências e traumas, como a cena desoladora e bem representativa da entrevista de emprego, traduzindo essa supressão da carreira profissional de uma mulher que passa(ou) por tal situação. Nem a morte do ex é suficiente para que Cecilia deixe de ser assombrada por esse “homem invisível”, desenhando uma alegoria que não poderia ser mais óbvia, porém, mais certeira ao abordar o tema, seja no sentido figurado para a questão do estresse pós-traumático que a mantêm em constante terror e paralisa a sua vida ou diretamente no problema do gaslighting. O termo originário do título da peça Gas Light (1938), de Patrick Hamilton, levada aos cinemas em À Meia Luz (1940) e À Meia-luz (1944), em que um marido tenta convencer a esposa e os outros de que ela é louca para esconder seus próprios atos, é usado para designar esta forma de abuso psicológico que faz a vítima duvidar das suas ideias, memórias, percepção e da própria sanidade.

É o que acontece com Kass ao expressar essa ameaça que ninguém vê aos seus familiares e amigos, representados nos papéis da irmã Alice (Harriet Dyer), do colega de infância e policial que a acolhe, James (Aldis Hodge), e sua filha adolescente Sydney (Storm Reid), além do ex-cunhado Tom (Michael Dorman). Se apenas o nome do longa, antes mesmo do conhecimento prévio da história original, evita que a plateia a questione da mesma forma que os personagens ao seu redor, não quer dizer que a mesma não fique com dúvidas nesta jornada tanto quanto a própria protagonista. Usando novamente a ficção científica ao serviço do terror, Whannell retorna à ideia original de Wells de usar a óptica como justificativa para a invisibilidade, ao contrário da experiência química inventada no filme de 1933, modernizando as ilusões de ótica em relação à tecnologia de hoje, porém, sendo menos tecnofóbico que em Upgrade e depositando o seu principal temor nas figuras humanas por trás dela. Há, portanto, menos interesse técnico pela forma que se atinge esse estado, e sim uma exploração do cineasta, que sempre gostou de vilões sádicos, sobre o terror que poderia ser causado por isso.

O mais interessante na sua direção é como ele guia justamente o olhar do espectador, às vezes, através de lentas panorâmicas, para os cantos vazios do quadro, criando expectativa e instaurando o medo do invisível no espectador, antes mesmo que a personagem se dê conta em algumas situações. É uma finesse hitchcookiana no cerne de uma produção com cacife de filme B, que se eleva por essa boa execução técnica – com destaque igualmente para o design de produção de Alex Holmes e a trilha sonora de Benjamin Wallfisch –, vívidas interpretações e um subtexto/contexto tão bem engendrado sobre o terror da invisibilidade do abuso. Embora seja difícil que o anunciado projeto de uma nova versão de A Mulher Invisível (1940), dirigida por Elizabeth Banks e roteirizada por Erin Cressida Wilson, tenha ligação com este lançamento depois de tantas idas e vindas do Universo Sombrio, talvez a inversão proposta por este O Homem Invisível de 2020 seja o pontapé inesperado que a Universal precisava para reanimar seus monstros no século XXI.

O Homem Invisível (The Invisible Man, 2020)

Duração: 124 min | Classificação: 14 anos

Direção: Leigh Whannell

Roteiro: Leigh Whannell, com argumento de Leigh Whannell e baseado no livro “O Homem Invisível” de H.G. Wells

Elenco: Elisabeth Moss, Oliver Jackson-Cohen, Aldis Hodge, Storm Reid, Harriet Dyer e Michael Dorman (veja + no IMDb)

Distribuição: Universal Pictures

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