• Nayara Reynaud

MOSTRA SP 2019 | Dia 9 – O Paraíso e Inferno terrestres


Cobertura do 9º dia da 43ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, com crítica do filme macedônio Deus É Mulher e Seu Nome É Petúnia (2019) e outros.

Deus É Mulher e Seu Nome É Petúnia

(Gospod Postoi, Imeto i'e Petrunija, 2019)

O cinema da Macedônia do Norte tem se mostrado uma bem-vinda surpresa nesta 43ª Mostra. Depois de Honeyland (2019), o excelente documentário com flerte ficcional que foi escolhido como o representante macedônio para o Oscar, Deus É Mulher e Seu Nome É Petúnia (2019), uma ficção inspirada em uma história real, vem reafirmar a boa safra da produção cinematográfica do país balcânico. A cineasta Teona Strugar Mitevska, porém, não é nenhuma novidade para o público do Festival de Berlim, onde alguns dos seus longas anteriores já passaram e este, que é o quinto da diretora, venceu o Prêmio do Júri Ecumênico na edição deste ano.

A inspiração para a trama veio de um caso local de 2014 – não à toa, e também pela proximidade geográfica, a produção recorda a ainda incompleta trilogia baseada em notícias jornalísticas da dupla búlgara Kristina Grozeva e Petar Valchanov, com A Lição (2014) e Glory (2016). Na cidade de Stip, uma mulher ousou pegar a cruz jogada no rio, que é um símbolo de sorte para o novo ano na cerimônia tradicional do feriado da Epifania do Senhor, comemorado todo janeiro pela Igreja Ortodoxa, e foi condenada pela opinião pública por “se intrometer” em um rito reservado apenas para os homens. Tem-se, então, a história real ideal para estruturar o típico filme de uma mulher contra o sistema, aqui tanto religioso e social quanto policial e judiciário na instigante exploração de Mitevska.

O longa apresenta Petúnia (Zorica Nusheva, comediante em sua estreia nas telas), uma mulher a quem a sociedade considera não ter obtido grandes êxitos em seus trinta anos de vida. Historiadora formada, ela nunca conseguiu um emprego, mora com os pais, sendo que a sua mãe (Violeta Sapkovska) faz questão de depreciá-la fisicamente, já que parece desinteressante para os homens locais. Mas é a partir do momento em que ela resolve, em uma decisão puramente momentânea, se jogar no rio e agarra a santa cruz da sorte antes dos nadadores ali presentes, que a narrativa roteirizada por Teona e Elma Tataragic engata.

Embora a apresentação da protagonista seja necessária, falta certo ritmo e empatia neste início, que sobram quando Petúnia é acuada por todos os homens que “perderam” para ela no ritual e, depois, por diversas autoridades também do sexo masculino. Assim, ela transforma-se em uma representante de todas as mulheres nesta resistência contra o machismo que a cerca – ela só encontra compreensão do “lado oposto” com o jovem policial Darko (Stefan Vujisic), cujas motivações ficam veladas em suas ações. No entanto, o filme que se concentra no drama quase tragicômico dessa situação encontra um interessante paralelo com a figura da jornalista Slavica (Labina Mitevska, também produtora e irmã da cineasta), que insiste em fazer a cobertura do caso, para demonstrar, através dessas e outras personagens femininas, as diversas opressões observadas cotidianamente na estrutura de uma sociedade patriarcal tal qual esta e tantas mais.

Duração: 100 min | Classificação: 14 anos

Direção: Teona Strugar Mitevska

Roteiro: Elma Tataragic e Teona Strugar Mitevska

Elenco: Zorica Nusheva, Labina Mitevska, Simeon Moni Damevski, Suad Begovski e Stefan Vujisic (veja + no IMDb)

Produção: Macedônia do Norte, Bélgica, Eslovênia, Croácia e França

Distribuição: Pandora Filmes

Veja a ficha técnica completa e trailer no site da Mostra

> Petra Belas Artes 1 Villa-Lobos – 25/10/2019, sexta às 21h30

> Cinesala – 26/10/2019, sábado às 19h40

> Espaço Itaú Augusta 1 – 27/10/2019, domingo às 15h40

> CineSesc – 28/10/2019, segunda às 15h50

> Espaço Itaú Frei Caneca 3 – 29/10/2019, terça às 17h00

Chuvas Suaves Virão

(Vendrán Lluvias Suaves, 2018)

Vencedor do Prêmio Especial do Júri no Festival de Mar del Plata do ano passado, o argentino Chuvas Suaves Virão (2018) é um daqueles exemplos de filmes que contam com uma ótima premissa que, se não é desperdiçada, é dissipada em uma execução mediana. A ideia do último longa de Iván Fund é a de que, depois um apagão, enquanto a cidade dorme, somente as crianças acordam no dia seguinte e precisam lidar com um mundo sem adultos, já que eles não despertam deste sono profundo. O problema é que o diretor e o corroteirista Tomás Dotta cercam uma ideia tão frutífera de um hermetismo no tratamento indie que dão ao seu conceito, minando o espaço para a fantasia inerente do universo infantil.

Na trama, uma menina chamada Alma vai dormir pela primeira vez na casa de amigos justamente na noite em que acontece este apagão elétrico e humano. Não há susto das crianças ao acordarem e se depararem com a situação, apenas um estranhamento que logo é seguido pela cena deles atacando a geladeira de sorvetes de uma mercearia local. É depois que surge a preocupação na garota quanto ao seu irmão pequeno, que estaria sozinho em casa com os pais adormecidos, fazendo com que ela e boa parte de seus amigos cruzem a cidade, sem saber bem o caminho de volta ao seu lar

Com o nome e parte da temática inspirada tanto no poema de Sara Teasdale, publicado em 1918, e o conto de Ray Bradbury, de 1950, chamados There Will Come Soft Rains, Fund apresenta um cenário apocalíptico diferente. Não há destruição, mas uma apatia inimaginável para um ambiente urbano que se mostra tão desoladora quanto se o local estivesse em ruínas. O marasmo, porém, contamina o próprio filme, que pouco investe na aventura infantil ou no drama de sua sobrevivência, como se guiou o russo A Guerra de Anna (2018), presente na edição passada da Mostra.

Inserções de ilustrações em páginas que parecem de um livro infantil soam redundantes ao texto e alheias a uma narrativa que não possui este aspecto lúdico. Apesar da câmera na altura das crianças, este olhar surge em momentos espaçados e ganha um pouco de dinâmica no encontro delas com um cachorro. O imaginário infantil só infunde a tela de vez no final, em uma conclusão que abre campos para diversas interpretações, mas tal qual a metáfora sobre a dormência da vida contemporânea e a própria sinopse, vem como uma boa ideia mal trabalhada.

Duração: 82 min | Classificação: 14 anos

Direção: Iván Fund

Roteiro: Tomás Dotta e Iván Fund

Elenco: Alma Bozzo Kloster, Simona Sieben, Florencia Canavesio, Emilia Lia Izaguirre e Massimo Canavesio (veja + no IMDb)

Produção: Argentina

Veja a ficha técnica completa e trailer no site da Mostra

> Circuito Spcine Paulo Emílio / CCSP – 23/10/2019, quarta às 15h

> Cinesala – 25/10/2019, sexta às 22h10

> Sesc Osasco – 26/10/2019, sábado às 20h00

> Espaço Itaú Augusta Anexo 4 – 29/10/2019, terça às 14h00

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