• Nayara Reynaud

AD ASTRA: RUMO ÀS ESTRELAS | Earth below us

Atualizado: Mai 10


Depois de se voltar para máfias, imigrantes e expedições amazônicas, o cineasta James Gray olha “para as estrelas”, como bem diz em latim o título de seu novo filme Ad Astra: Rumo às Estrelas (2019), mas sempre mantendo em seu campo de visão os dramas familiares inerentes a qualquer ambiente ou gênero cinematográfico que explore. A diferença agora, talvez, esteja no fato de que o diretor de Os Donos da Noite (2007), Amantes (2008) e Era Uma Vez em Nova York (2013) tem à disposição todo o arsenal de uma tradição da ópera espacial em aproveitar às imensas dimensões de seu objeto físico para conferir uma grandiloquência aos seus temas de interesse. Frequentemente, as milhas de distância e anos-luz inspiram reflexões sobre o tempo, o divino e a humanidade, entre outras questões filosóficas que sempre afligem os seres humanos.

O que Gray executa em seu recente trabalho é, então, abraçar de diversas formas essas duas pontas, entre o intimismo de sua obra anterior e a grandiosidade das produções do tipo. Por isso, em certa medida, esta é uma continuação emocional de seu último longa, Z: A Cidade Perdida (2016), que também versava sobre a coragem de se aventurar em lugares desconhecidos contra a covardia de deixar para trás os seus em favor disto. Desta vez, não só a Amazônia dá lugar ao Sistema Solar, quanto o foco muda do pai viajante para o filho que busca seguir os passos desta figura ausente.

O público é apresentado, então, ao major Roy McBride, astronauta interpretado contidamente por Brad Pitt, em um futuro próximo, como indica a produção em seu início. Essa projeção não está tão distante da realidade atual, mesmo que uma organização chamada SPACECOM tome o lugar da NASA no comando aeroespacial e viagens interestelares de Marte à Netuno já sejam possíveis. E mesmo que a lógica do espaço-tempo fique um pouco comprometida dentro de sua própria coerência narrativa, em favor da jornada psicológica deste protagonista no roteiro assinado pelo cineasta e por Ethan Gross, que trabalhou na série Fronteiras / Fringe (2008-13).

Um exemplo de profissional, estoico até os momentos mais desesperadores para cumprir o seu dever, este homem cujos batimentos cardíacos nunca passam dos 80 tem a sua trajetória alterada a partir do momento em que a antena interespacial onde trabalha é atingida justamente por um elevado pico de energia. O acidente não é isolado e causa um grande rastro de destruição em solo terrestre e por todo o espaço, sendo chamado de “O Surto”, bem como um choque para Roy. O filho do pioneiro H. Clifford McBride (Tommy Lee Jones), desaparecido há 16 anos, enquanto estava na expedição interplanetária do Projeto Lima em busca por vida inteligente fora da Terra, descobre não apenas que o seu “Major Tom” pode estar ainda vivo como também tem abalada a imagem de pai herói que tinha dele.

O funcionário da SPACECOM é convocado para uma missão de tom familiar que irá transformar a percepção do personagem sobre si e tudo ao seu redor, em uma investigação do seu passado para recuperar seu futuro. Uma viagem proposta por Grey já nas suas escolhas estéticas, em um filme que, inicialmente, traz uma semelhança de imagem de recentes filmes espaciais para depois embarcar nas referências a clássicos do gênero. Além da proximidade do lançamento, parte do público provavelmente recordará de O Primeiro Homem (2018), pela introspecção de seu protagonista e da narrativa como a do longa de Damien Chazelle, e de Interestelar (2014), pela dinâmica de drama familiar somada à ficção científica com a aventura espacial semelhante à da obra de Christopher Nolan, com direito à perseguição de veículos lunares e outras sequências de ação e suspense momentâneas dentro das naves – além do fato do diretor de fotografia Hoyte Van Hoytema também ter trabalhado naquele e em outros filmes do cineasta inglês.

Com o personagem e a história chegando a Marte, a paleta de cores acizentada ganha tons primários que intensificam os planos mais contemplativos a partir de então, tal qual a trilha sonora de Max Richter e a adicional de Lorne Balfe embarcam nesta jornada mais introspectiva ao lado do desenho de som de Douglas Murray e Gary Rydstrom, de uma mixagem excelente. É como se o filme adquirisse uma aspiração mais kubrickiana ou tarkovskyana, não somente assimilando esteticamente o tom de suas óperas espaciais 2001: Uma Odisséia no Espaço (1968) e Solaris (1972) como o olhar mais filosófico que essas obras-primas possuem para o tema, vide a ideia aqui do homem primata que canibaliza o próprio homem moderno. Há também um quê malickiano na narração constante feita pelo protagonista, elucidativa para compreender, junto com a imagem, esses novos territórios além das estrelas, embora soe excessiva em um ou outro momento.

Mais que isso, essa voz off serve à compreensão da psique do personagem, enquanto enfrenta o peso das atitudes de seu pai e de suas próprias ações. Em uma atuação bem diferente do seu outro papel destaque neste ano, em Era Uma Vez em... Hollywood (2019) de Quentin Tarantino, Brad Pitt impõe uma contenção enorme a este homem que não se permite emocionar, até que ao ser usado e confrontado com a desconstrução da imagem heroica que tinha do Clifford, ele começa a derrubar essas barreiras que o impedem de sentir a sua vida para apenas vive-la mecanicamente até sucumbir em lágrimas silenciosas em uma cena-chave. Através do arco pessoal do protagonista, Grey propõe um profundo questionamento a essa masculinidade imposta e também castradora de um ponto de vista sentimental, ofertando a ele e ao espectador a chance de se desprender desta figura paterna imaginária.

O cineasta questiona, portanto, a própria natureza de um gênero dominado por figuras masculinas, salvo raras exceções como Gravidade (2013), de Alfonso Cuarón. Não por menos, através do ponto de vista do astronauta que vive uma crise matrimonial, o público vê apenas fragmentos de sua esposa Eve, mais um arquétipo do que personagem vivida por Liv Tyler – intencionalmente colocada como uma nova mulher à espera, igual a que interpretou em Armageddon (1998), só que já cansada desta posição –, passando a vislumbrar um pouco mais dela quando ele passa a repensar sua existência e suas prioridades. O encontro com a a diretora marciana Helen Lantos, interpretada por Ruth Negga, ainda acrescenta questões raciais a esta visão sobre a masculinidade, exigindo de Roy um resgate da verdadeira história familiar e a necessidade de consertar os erros de um pai que não conhece de fato.

Há diversos signos dentro desta viagem que tornam possível traçar um paralelo com uma figura ausente de Deus em seu silêncio, como bem argumenta Alissa Wilkinson em seu texto no site Vox. Contudo, ainda dentro de um viés teológico, mais leituras neste sentido vêm à tona, quando elementos cristãos são pincelados aqui e ali, a exemplo da oração a São Cristóvão, o padroeiro católico dos motoristas e, por consequência, também dos viajantes e peregrinos, pedindo ajuda na jornada e também na hora de pará-la. A busca desmedida por um conhecimento quase divino do que está além da compreensão humana permanece implícita no desenvolvimento do Sr. McBride, se assemelhando ao pecado original nesta tentação pelo fruto proibido – não à toa, o nome da esposa do protagonista remete à imagem da Eva, mas é do pai que o filho herda os pecados.

No entanto, Ad Astra deposita sua verdadeira fé na humanidade mesmo, apesar de suas críticas a ela, em letra maiúscula. O letreiro inicial informa que se vive uma época de esperança e conflito, o que coloca o público em estado de alerta sobre o nosso próprio tempo, e depois externa como o modo de vida e a disputa por territórios e bens naturais foram exportadas para o espaço. Mas enquanto olha para as estrelas, Grey deseja que o espectador se volte para a Terra debaixo delas, como Donald Sutherland na pele do velho astronauta que sempre se impressiona com a sua beleza, para mostrar que o resultado da procura pode estar mais próximo do que se pensa, já que, antes de tudo, só podemos contar com nós mesmos.

Ad Astra: Rumo às Estrelas (Ad Astra, 2019)

Duração: 123 min | Classificação: 14 anos

Direção: James Gray

Roteiro: James Gray e Ethan Gross

Elenco: Brad Pitt, Tommy Lee Jones, Ruth Negga, Donald Sutherland, Liv Tyler, Kimberly Elise, Loren Dean, Donnie Keshawarz, Sean Blakemore, Bobby Nish e Natasha Lyonne (veja + no IMDb)

Distribuição: 20th Century Fox (Fox Film do Brasil)

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