• Nayara Reynaud

O MISTÉRIO DO GATO CHINÊS | As outras vidas de um gato


A fantasia faz parte da mágica do cinema, mas o público acostumado a certos truques mais conhecidos pode não se impressionar quando um tipo diferente de ilusionismo é apresentado. É o que acontece com a coprodução sino-japonesa O Mistério do Gato Chinês (2017), último filme de Chen Kaige, cineasta chinês responsável por obras como Adeus, Minha Concubina (1993) e O Sacrifício (2010). Exibido no Fantaspoa 2019, festival especializado em filmes fantásticos que acontece em Porto Alegre, a superprodução que levou cinco anos para ser realizada e custou nada menos do que 200 milhões de dólares depende da familiaridade do espectador com a cultura chinesa e/ou oriental, em todos os aspectos peculiares de suas lendas e mitos.

Um deles está na própria forma da obra, que não se trata de uma simples trama fantástica ou de mistério a qual os olhos ocidentais já estão acostumados, mas sim de uma Xianxia, gênero ficcional de heróis imortais e uma alta dose de magia, espíritos, demônios, mitologia e folclore chinês. É daí que surge o trabalho do escritor Baku Yumemakura, cujo romance Shamon Kukai Tou no Kuni ni te Oni to Utagesu (2004) inspirou o longa-metragem. No livro, o autor mescla personagens reais, como o monge budista japonês Kūkai (774-835) e o poeta Bai Juyi (772-846), em uma história fictícia que reimagina a vida e, especialmente, a morte de Yang Guifei, concubina pela qual o Imperador Xuanzong era apaixonado e que foi motivo de uma rebelião na China do século VIII.

No roteiro adaptado por Kaige e Hui-Ling Wang, esse contexto histórico e lendário é mostrado posteriormente, pois a trama se inicia 30 anos depois, quando o monge Kūkai (Shôta Sometani), que veio do Japão para realizar seus estudos, é chamado às pressas para atender o então Imperador e percebe que seu definhamento foi causado por um gato, cujo ar misterioso e sobrenatural já havia sido apresentado antes à plateia. Assim, o escrivão e poeta nas horas vagas Bai Letian (Huang Xuan, vivendo o papel em homenagem à figura real) pede o auxílio do religioso budista para encontrar esse animal que ameaça o futuro da Dinastia Tang. Os dois protagonistas embarcam, então, em uma investigação mística entre presente e passado, indo do caso do general da guarda imperial Yunqiao (Hao Qin) e sua esposa Chunqin (Kitty Zhang Yuqi), que se encontra possuída pelo espírito do gato, para as memórias que remontam à época de Yang Guifei (Sandrine Pinna) e à origem do poderoso felino.

No sinuoso percurso deste conto sobre paixões, desejos e traições humanas, envolto em uma mitologia animalesca-espiritualista, a dupla e, consequentemente, a plateia, questionam a realidade que encontram, cabendo até a alguns personagens a dúvida se suas próprias vidas não são apenas uma ilusão. No entanto, o filme está tão preso em seu ilusionismo e aura de mistério que se esquece da narrativa que leva o espectador a decifrá-lo e das peças humanas que a compõem. O interesse de Chen pelo espetáculo visual se sobrepõe à história, que a toda hora traz novas figuras, mas todas padecendo da superficialidade de uma direção de golpes rápidos, mas superficiais.

A agilidade do cineasta pode fazer o público se perder nesse quebra-cabeça intertemporal e cultural, mas, naquilo que se propõe, é capaz de criar um filme visualmente deslumbrante. Os efeitos especiais nas ações e transformações dessas figuras metamórficas não tem o acabamento que se está acostumado com as superproduções hollywoodianas, mas a direção de arte de Tu Nan e Lu Wei esbanja apuro na recriação de uma época áurea da China Imperial, desde a cenografia – aliás, a cidade cenográfica construída para a produção foi reaproveitada para moradias e um parque de diversões – e os figurinos de Tongxun Chen, cujas cores encantam na bela fotografia de Cao Yu. A câmera dele e de Chen Kaige se movimenta ora como um mestre em artes marciais em luta, ora como um espírito plainando pelo cenário, conferindo uma característica etérea à obra, que é como um daqueles sonhos que não entendemos bem a sua lógica, mas nos intriga mesmo assim.

O Mistério do Gato Chinês (Kûkai, 2017)

Duração: 129 min | Classificação: 14 anos

Direção: Chen Kaige

Roteiro: Chen Kaige e Hui-Ling Wang, baseado no livro “Samon Kukai Tou no Kuni ni te Oni to Utagesu” de Baku Yumemakura

Elenco: Huang Xuan, Shôta Sometani, Kitty Zhang Yuqi, Hao Qin, Liu Haoran, Hiroshi Abe, Luyi Zhang, Keiko Matsuzaka, Chen Taisheng, Lee Mason, Liu Peiqi e Sandrine Pinna (veja + no IMDb)

Distribuição: PlayArte

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