• Nayara Reynaud

MEU QUERIDO FILHO | A dor de cabeça eterna da paternidade


A forte e constante enxaqueca que aflige o jovem Sami (Zakaria Ben Ayyed) é apenas um sintoma, ou melhor, uma distração para uma dor de cabeça maior que virá ao seu pai, Riadh (Mohamed Dhrif), no longa tunisiano Meu Querido Filho (2018). A nova empreitada de Mohamed Ben Attia, cujo trabalho anterior, A Amante (2016), saiu do Festival de Berlim com o prêmio de Melhor Primeiro Filme e o Urso de Prata de Melhor Ator, foi exibida na Quinzena dos Realizadores em Cannes demonstrando o minimalismo do cineasta, mesmo ao tocar em questões de proporções globais. Isso porque o seu retrato, a princípio, é de uma família tunisiana comum de classe média baixa, que vive com conforto, mas sempre no limite do orçamento.

As impressões levam todos a pensar que a pressão dos estudos para o vestibular seja a razão para as dores de cabeça, como uma resposta física para um psicológico sufocado pelos deveres e os cuidados dos pais – Mouna Mejri interpreta Nazli, a mãe mais prática e menos sonhadora que o marido. Levando assim o cotidiano dos Saïdi na tela, o filme revela mais suas intenções quando mostra que Sami matando aula e, especialmente, na sequência da festa com os colegas dele. A relação de cumplicidade entre ele e Riadh mostra suas fraturas quando ambos mentem: o filho dizendo que se divertiu lá, sendo que foi em um momento no qual se sentiu desconfortável e se refugiou no banheiro, que ele ligou para buscá-lo; e o pai falando que ficou tomando chá na casa de um amigo perto, enquanto ficou cochilando no carro ali perto à sua espera.

No entanto, a virada narrativa só vem mesmo depois, com o desaparecimento de Sami que somente avisa o seu destino: a Síria, deixando subentendido que sua viagem tem como objetivo ingressar em uma jihad islâmica. Foram os inúmeros relatos na TV, rádio e imprensa locais – há dados de que a Tunísia é o país com o maior número de jovens nos campos de treinamento do ISIS, mais conhecido como Estado Islâmico – e, particularmente, a fala de um pai desnorteado chamando por seu filho que inspiraram Ben Attia a fazer este longa, interessado nestas vítimas indiretas da cooptação do terrorismo. Assim, a história segue Riadh em sua busca pelo filho, indo até a Turquia para poder entrar em território sírio, não só atrás dele, mas de razões para o que aconteceu.

Por isso, Meu Querido Filho não é necessariamente uma obra sobre terrorismo, já que o seu interesse não está no predicado e sim no sujeito oculto deste título. Usando prioritariamente a perspectiva de Riadh, o diretor e roteirista deixa o público tão no escuro quanto o personagem sobre as motivações do adolescente, fazendo seu único juízo de valor em um momento que comenta-se sobre a ilusão destes jovens que veem no terrorismo uma forma de marcar seu nome em uma sociedade, seja ocidental ou oriental, que demanda certa importância de cada indivíduo. Tendo a ótima performance do veterano Mohamed Dhrif como fio condutor, tem-se um filme sobre paternidade que usa um exemplo extremo da dor de perder um filho ainda vivo, que faz o protagonista ficar remoendo onde errou na educação de sua cria após dedicar a sua vida para que ela não passasse pelos mesmo apuros que ele, como abordar essas barreiras invisíveis vão sendo depositadas com o passar dos anos entre pai e filho.

Co-produzindo com os irmãos Dardenne, Ben Attia se utiliza do mesmo naturalismo dos belgas na sua direção com a câmera na mão – e escreve com naturalidade e franqueza Sameh (Imen Cherif), a amiga do trabalho a quem Riadh se abre mais sobre os seus problemas do que com a própria esposa. No entanto, já no terceiro ato, o cineasta materializa na tela desejos e medos do protagonista, provocando uma quebra de tom que deixa a narrativa um pouco confusa com essas lacunas sobre as decisões finais desse pai que precisa aprender a viver sem mais exercer esta função.

Meu Querido Filho (Weldi, 2018)

Duração: 104 min | Classificação: 12 anos

Direção: Mohamed Ben Attia

Roteiro: Mohamed Ben Attia

Elenco: Mohamed Dhrif, Mouna Mejri, Zakaria Ben Ayyed, Mouna Mejri, Tarik Copty, Tahani Sadiki e Taylan Mintas (veja + no IMDb)

Distribuição: Pandora Filmes

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