• Nayara Reynaud

CHACRINHA: O VELHO GUERREIRO | Nada se cria...


“Na televisão, nada se cria, tudo se copia”. Chacrinha, alcunha pela qual o comunicador Abelardo Barbosa ficou conhecido, praticamente parafraseou o químico Antoine Lavoisier para falar do modus operandi da televisão brasileira com essa frase que se tornou icônica e resume bem o que acontece na sequência de abertura da sua cinebiografia Chacrinha: O Velho Guerreiro (2018), de Andrucha Waddington.

Se o prólogo adianta o momento da demissão do apresentador da TV Globo, o filme segue sua trama de modo cronológico até explicar que o episódio foi motivado pela guerra por audiência entre ele e Flávio Cavalcanti (Marcelo Serrado), sequestrando a controversa atração que o outro famoso apresentador havia anunciado na TV Tupi. A sequência inicial, porém, traz à mente do público a ambientação de Bingo: O Rei das Manhãs (2017) na maneira como a steady cam flui do auditório para os bastidores do estúdio. Não que o espectador pense em uma cópia, mas na comparação direta com o longa de Daniel Rezende, é sensível a narrativa e direção convencionais no novo trabalho de Andrucha desta fase mais comercial de sua filmografia, que não são capazes de captar o anarquismo de seu personagem retratado.

Waddington afirmou, durante a coletiva de imprensa realizada no mês passado em São Paulo, que buscou fazer um recorte da trajetória profissional de Chacrinha, narrado através dos bastidores, e “não fazer um filme chapa branca” ao retratar também a sua decadência e essa bipolaridade dele no trato com a equipe. No entanto, tal recorte ainda é muito aberto para dar concisão à obra, assim como dar profundidade ao protagonista. Com Eduardo Sterblitch encarnando o jovem pernambucano Abelardo, que se arrisca ao ficar no Rio de Janeiro para tentar fazer sua vida no rádio, o longa tem um primeiro ato interessante ao observar a inventividade do radialista e o nascimento do termo “Chacrinha” e de seus bordões ali naquele início não tão conhecido de sua carreira, marcada pela criatividade e capacidade de comunicação com as massas.

Com Stepan Nercessian, que o encarna já em sua figura icônica como apresentador de TV, surge o Abelardo desbocado e de gênio difícil que lhe faz perder amizades e trocar recorrentemente de emissora. Um relacionamento fora do casamento com a cantora Clara Nunes (Laila Garin) ganha destaque, mas o drama familiar, que se aprofunda com o acidente de um de seus filhos – Pablo Sanábio faz os gêmeos Leleco e Nonato, enquanto Rodrigo Pandolfo interpreta Jorge –, é sempre visto de maneira passageira pelo roteiro de Cláudio Paiva, que conta com colaboração de Carla Faour e Júlia Spadaccini. Sem um interesse maior pela psique do personagem, sobra mais a caricatura, ainda que o filme entregue a homenagem à Chacrinha que boa parte do público espera.

Até porque a produção é competente na reconstrução de época que passeia por várias décadas e inclui detalhes nostálgicos, a exemplo do comercial das Lojas Pernambucanas. Há ainda participações especiais de artistas encarnando calouros, como Criolo e Luan Santana que divertem a plateia. Mas é justamente na “curadoria musical”, como diz Andrucha, que o cineasta acerta mais a mão no longa, com a seleção de canções como Sem Lenço, Sem Documento e Clara Nunes entoando seu Canto das Três Raças, por exemplo, lançando mensagens pertinentes à atualidade no palco de um comunicador que teve que lidar com a censura naquele período.

O ícone pop para novas gerações

“Chacrinha é um personagem muito poderoso”, ressaltava Andrucha Waddington aos jornalistas presentes na coletiva de imprensa do filme em São Paulo, afirmando que, “depois de uma ressaca das eleições”, ele seria um alento para este momento polarizado. Classificando Abelardo Barbosa como o “maior disc-jóquei que o Brasil já teve” e um “ícone pop”, o cineasta acredita que o estilo do comunicador não se encaixaria nos tempos de hoje, com o politicamente correto, mas que Chacrinha: O Velho Guerreiro é destinado tanto à geração acima de 40 anos que o conhece mesmo quanto àquelas que tem curiosidade sobre sua figura.

O diretor estabeleceu uma relação com a família de Abelardo Barbosa ao realizar Chacrinha, o Musical (2014), que fez tendo o próprio Stepan Nercessian na pele do protagonista, além de trazer também as “chacretes” do longa direto do elenco do musical. Segundo ele, o ator “virou cavalo e incorporou” o apresentador durante o teste para o espetáculo. Nercessian relembrou como foi deparar com a figura deste “mito” quando foi trabalhar ainda jovem na TV, mas disse que, na verdade, tinha uma grande amizade com Jarbas Barbosa, produtor que era irmão de Abelardo. Já Eduardo Sterblitch, que o encarna na sua época de rádio, nasceu em 1987, mas declarou ter visto Chacrinha pelas reprises, além de ter tido contato com o filho dele, Leleco, durante o Pânico. Durante a preparação do filme, segundo Andrucha, “Stepan e Edu liam o texto um do outro para achar uma unidade” ao interpretar a personalidade.

Para um dos produtores, o italiano Cosimo Valerio, este foi um “processo de produção longo, difícil, mas legal”, enquanto Waddington destacou o desafio de produção de passar por várias décadas. O diretor também ressaltou a parceria de Boni, antigo diretor da TV Globo, desde o musical, como “fonte dos bastidores”, isso mesmo com seu personagem sendo visto quase como um vilão e sendo vaiado na peça – no longa, Thelmo Fernandes interpreta o chefão da emissora no período –, como relembrou Stepan. Encarnando outra figura conhecida da televisão, a modelo e atriz Gianne Albertoni, também presente na coletiva, confessou que levava duas horas e meia para se montar como Elke Maravilha, jurada do programa que tinha uma relação quase paternal com Chacrinha.

Já a oportunidade de dar corpo e voz à cantora Clara Nunes, permitiu à atriz e também intérprete Laila Garin, de acordo com a própria, estudar mais a música brasileira para construir a personagem e conhecer “essa outra Clara, do bolero”, gênero com o qual a artista começou a sua carreira, como a trama revela. Andrucha, aliás, apontou o trabalho de curadoria musical, que conta com 27 músicas na trilha sonora que sintetizassem a variedade de estilos que se apresentavam no palco do Chacrinha. O cineasta ainda comentou, sem dar muitos detalhes, que dentro desse projeto em homenagem ao apresentador, no qual a Globo realizou o especial Chacrinha, o Eterno Guerreiro (2017) quando dos 100 anos de Abelardo Barbosa, uma microssérie que une ficção e documentário é planejada para entrar na programação da emissora no próximo ano.

Gianne Albertoni, Laila Garin, Andrucha Waddington, Stepan Nercessian, Eduardo Sterblitch, Cosimo Valerio e Angelo Salvetti na coletiva de imprensa de Chacrinha: O Velho Guerreiro (2018), em São Paulo (Foto: Nayara Reynaud)

Chacrinha: O Velho Guerreiro (2018)

Duração: 114 min | Classificação: 12 anos

Direção: Andrucha Waddington

Roteiro: Cláudio Paiva, com colaboração de Carla Faour e Júlia Spadaccini

Elenco: Stepan Nercessian, Eduardo Sterblitch, Gianne Albertoni, Carla Ribas, Gustavo Machado, Rodrigo Pandolfo, Pablo Sanábio, Thelmo Fernandes, Laila Garin, Antonio Grassi, Karen Junqueira e Marcelo Serrado (veja + no IMDb)

Distribuição: Downtown Filmes / Paris Filmes

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