• Nayara Reynaud

A CÂMERA DE CLAIRE | O poder de uma câmera


O Festival de Cannes é cenário e palco para A Câmera de Claire (2017), um dos três filmes que o prolífico Hong Sang-soo lançou apenas em 2017. Foi no glamour do tapete vermelho e premières do ano passado que o cineasta sul-coreano apresentou a produção em uma sessão especial, enquanto O Dia Depois (2017) estava na competição e Na Praia à Noite Sozinha (2017) tinha passado pelo Festival de Berlim. E foi na vida que pulsa fora dos holofotes do festival, com os turistas cinematográficos pela cidade da Riviera Francesa, que ele filmou mais um trabalho, durante a edição de 2016, quando Isabelle Huppert estava no evento por Elle (2016) e Kim Min-hee, por A Criada (2016).

Se tudo isso parece muito metalinguístico para um espectador de primeira viagem do cinema de Hong, não é necessariamente uma novidade para aqueles já habituados a sua obra, cuja reflexão sobre a Sétima Arte e si mesmo configura uma marca tanto quanto seus planos longos com a câmera fixa, que busca detalhes dos personagens ou do ambiente em zoomsin ou out – abruptos. Aqui, novamente, há alguém ligado à indústria cinematográfica em destaque na trama, começando por Min-hee na pele de Jeon Manhee, agente de vendas de um filme de arte sul-coreano – função que é ainda mais requisitada em um festival, onde se busca mais as oportunidades de distribuição de uma produção em outros países. Só que logo o público a vê sendo despedida em uma cena igualmente desconfortável e engraçada: sem entender qual o erro que Nam Yanghye (Chang Mi-hee) aponta, mas não explica para demiti-la, ela passiva e atordoadamente se desculpa, até pedir uma selfie para se despedir de sua chefe.

Depois, se revela que o verdadeiro motivo de sua demissão foi o envolvimento da jovem com So Wansoo (Jeong Jin-yeong), diretor do longa metragem que as duas estavam representando e que tem um relacionamento com Nam. Assim, Sang-soo faz de A Câmera de Claire uma peça de uma espécie de trilogia que realizou em 2017, versando sobre seu próprio caso com Kim Min-hee, na “vida real”, como fez em Na Praia à Noite Sozinha, no qual a mesma interpreta uma atriz caminhando pelo litoral enquanto repensa a sua relação com um homem casado, e O Dia Depois, em que sua personagem, recém-chegada a uma editora, é confundida pela esposa do chefe como a mulher que o fez sair de casa no dia anterior. Cineasta e intérprete trabalharam juntos, pela primeira vez, no memorável Certo Agora, Errado Antes (2015), começando uma relação amorosa, extraconjugal da parte dele, e profissional, com ela virando a sua musa em quase todos os filmes seguintes.

Assistindo ao longa, porém, é difícil não se encantar mesmo pelo trabalho de Kim, nas nuances de decepção, alegria, tristeza e empolgação que a atriz sul-coreana coloca em Jeon. Do outro lado, Huppert, que já trabalhou com Hong em A Visitante Francesa (2012) e foi premiada duas vezes no festival, está se divertindo em ser uma professora parisiense que nunca esteve em Cannes. E se é fácil reconhecer em mais um diretor ficcional um alter ego do próprio cineasta se colocando como um homem patético, pensando na obra com a calma que a personagem que, mesmo não se considerando uma artista, ensina música, escreve alguns poemas e sai tirando várias fotos por aí, deposita na razão de ser da fotografia, enxerga-se em Claire “o outro Eu” artístico de Sang-soo.

Com a sua Polaroid em mãos, ela encontra os vários lados deste triângulo amoroso, mexendo e tirando o diretor So de sua tranquilidade em um café para se esforçar e conversar com uma estranha, por exemplo, tal qual o realizador sul-coreano fora da ficção, mudando os rumos de seus personagens e fazendo disso um recurso narrativo comum em sua obra, como o cineasta que se apaixonava pela jovem pintora vivida por Min-hee, em duas oportunidades, tentando concertar o dito e o não-dito anteriormente em Certo Agora, Errado Antes. A filosofia de Claire sobre a fotografia de que o registro já muda a pessoa encontra uma metáfora metalinguística no processo de filmar também ao inverso, pois se quem está no retrato se torna alguém diferente, quem vê a imagem também se modifica. Por mais que esse olhar paciente enxergue essas outras camadas nos breves 69 minutos não lineares de A Câmera de Claire, não só este quebra cabeça do tempo diegético da trama como o subtexto escondido na aparente simplicidade de Hong Sang-soo sobre autoria no cinema, na arte e na vida já foram trabalhados de maneira mais inventiva e eficiente pelo mesmo em filmes como o citado de 2015. Nada, porém, que impeça de apreciar este tempo livre dele com suas atrizes favoritas.

A Câmera de Claire (La Caméra de Claire, 2017)

Duração: 69 min | Classificação: 12 anos

Direção: Hong Sang-soo

Roteiro: Hong Sang-soo

Elenco: Isabelle Huppert, Kim Min-hee, Jang Mi-hee, Shahira Fahmy e Jeong Jin-yeong (veja + no IMDb)

Distribuição: Pandora Filmes

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